Categorias
Críticas

A incompletude da rebeldia feminina em “Hot Milk”, de Rebecca Lenkiewicz

Rebecca Lenkiewicz (1968), que inaugurou sua carreira como roteirista há mais de uma década, fez de seu nome referência a partir de histórias densas, onde a inconformidade e a rebeldia feminina são o motivador das tramas que desenvolveu. Em filmes como Desobediência (2017, em colaboração com o diretor Sebastián Lelio), Ela Disse (2022, com direção de Maria Schrader) e Ida (2013, vencedor do Oscar em parceria com Paweł Pawlikowski), Lenkiewicz apresenta personagens complexas que batem de frente com o senso comum através do arquétipo anti-heróico, trazendo consigo um certo mistério e um descontentamento com a realidade na qual estão inseridas. Hot Milk faz sentido para a estréia de Rebecca na direção, uma adaptação do romance de Deborah Levy – outra autora cujas obras são frequentemente movidas por essa mesma insatisfação feminina latente, onde as personagens que formam o arco principal da trama são, em suas particularidades, complexas e bastante densas.

Ida (Paweł Pawlikowski, 2013)

Enquanto roteiros anteriores de Lenkiewicz retratam mulheres em contextos claustrofóbicos, como uma comunidade judaica ortodoxa (Disobedience) ou a Polônia comunista (Ida), Hot Milk aborda a fórmula de forma bem mais sombria. O filme desmembra a realidade complexa de três mulheres que vivem em prisões emocionais profundas e extremamente pessoais. Sofia (Emma Mackey), por ter que viver em função da mãe codependente Rose (Fiona Shaw), que busca incessantemente a cura para sua paralisia – aqui a prisão é mental e transcende para o campo físico – e Ingrid (Vicky Krieps), que vive presa à fuga de uma fatalidade que deveria residir apenas em seu passado. Sofia viaja com sua mãe para uma cidade decadente do litoral espanhol, onde Rose vê sua última esperança de cura para dores crônicas que a debilitam e a fazem dependente da filha.

Hot Milk (Rebecca Lenkiewicz, 2025)

Rose, então, se submete a tratamentos caros com o Dr. Gomez (Vincent Perez), um curandeiro alternativo e misterioso, que atende em uma clínica no meio do nada entre paredes de vidro. Enquanto Rose está em atendimento, Sofia sai para caminhar pelas praias de pedra, nadar em um mar infestado de águas-vivas e explorar um pouco a região até que conhece, por acaso, Ingrid, uma costureira de espírito livre. Ingrid desperta o desejo de uma vida desprendida que está reprimido em Sofia e com o qual ela não se satisfaz, já que conflitos entre elas expressam muito sua necessidade de se ancorar emocionalmente a outros para além do desejo sexual ou admiração. Sofia e Ingrid, então, iniciam um romance que logo engatilha no espectador o alerta de que a liberdade de Ingrid é, na verdade, a fuga de um contexto familiar bastante complexo e sombrio. À medida em que o relacionamento das duas se intensifica, percebemos que elas não são opostas em sua realidade, mas tem muito mais em comum do que a superfície demonstra.

Hot Milk (Rebecca Lenkiewicz, 2025)

Adaptações literárias para o cinema são sempre terreno complexo. Metáforas, simbolismos, alusões mitológicas e maneirismos introspectivos trazem uma atmosfera densa que é bastante relevante para a narrativa de Levy, mas que deixam a desejar por não transmitirem as sensações que as entrelinhas presentes na obra original causam no espectador. Lenkiewicz demonstra com bastante dificuldade o conflito interno que Sofia sofre, trazendo para a personagem de Mackey um desenvolvimento lento, contido, e visualmente fraco – o que contrasta muito com a realidade da obra original. O que sobra para Emma é passar a maior parte de seu desenvolvimento caminhando de forma insatisfeita pela praia – imensidão que contrasta com o ambiente claustrofóbico demonstrado pela relação com sua mãe: uma casa escura e melancólica. Quando a personagem chega em seu limite, os rompantes resultantes de sua revolta perdem o sentido narrativo, pois são desconexos do restante apresentado na história, o que faz com que percam o verdadeiro peso que possuem para a narrativa original. 

A personagem de Krieps também sofre com o desenvolvimento arrastado, ao mesmo tempo flertando com o clichê hollywoodiano da “manic pixie dream girl”, entre passeios a cavalo, lenços na cabeça e uma sensualidade desproporcional ao contexto no qual a personagem é, fracamente, apresentada.

A personagem de Fiona Shaw se sobressai à Sofia – que deveria ser o centro da narrativa – apresentando humor ácido, ofensas deliberadas e uma autopiedade que beira a psicopatia. Em determinado momento da trama, a personagem se torna cansativa por seu comportamento repetitivo – o que talvez tenha sido proposital, mas que não acrescenta muito e deixa o espectador frustrado pela espera de um estopim que não chega.

O filme nos deixa em uma constante espera por algo que não entrega: não possui um ápice narrativo, um plot surpreendente ou um clímax que gira a história para o arco final que, mesmo aberto, deveria ter sido entregue com o peso que realmente merecia. No fim, o filme passa a sensação de estar incompleto – assim como o desenvolvimento de Sofia e Ingrid, que tinham potencial narrativo imenso, mas que foram explorados pela metade.

Categorias
Críticas

Quando o amor deixa de ser escolha: a inquietante proposta de “Obsessão”

O terror sempre encontrou formas de explorar nossos medos mais profundos. Enquanto alguns filmes recorrem ao sobrenatural para assustar, outros utilizam o fantástico para revelar aspectos muito humanos. Obsessão (2025) pertence ao segundo grupo. Sob a aparência de um horror sobrenatural, o longa constrói uma reflexão sobre posse, consentimento e os limites entre o amor e a obsessão.

A premissa é simples e eficaz: um desejo aparentemente inocente desencadeia uma força capaz de transformar a paixão em dependência. A partir daí, o filme abandona qualquer idealização romântica e conduz o espectador por uma narrativa em que o afeto deixa de existir no instante em que a liberdade é retirada. O resultado é um terror que incomoda menos pelos acontecimentos sobrenaturais e mais pelo que eles representam.

Um dos maiores acertos do longa está justamente na maneira como utiliza o horror como metáfora narrativa. Em vez de construir apenas uma sequência de sustos, o filme convida o público a refletir sobre uma questão desconfortável: ainda podemos chamar de amor um sentimento que precisa ser imposto? A resposta nunca é dada de forma didática.

O elenco sustenta boa parte da tensão emocional, especialmente nos momentos em que a história exige uma mudança gradual entre vulnerabilidade, desejo e medo. As interpretações conseguem transmitir essa transformação de maneira convincente, tornando os personagens mais humanos e fazendo com que o terror psicológico tenha um impacto maior do que qualquer elemento sobrenatural.

A atmosfera sombria contribui para criar uma sensação constante de desconforto. Mesmo quando a narrativa desacelera, a direção consegue preservar certa inquietação, induzindo o espectador a um estado de alerta.

Em alguns momentos, o desenvolvimento da trama parece apressado e determinadas escolhas sacrificam um aprofundamento maior dos personagens. Algumas situações pareciam pedir por mais tempo, a fim de amadurecerem, e poderiam ter potencializado ainda mais o impacto dramático .

Obsessão lembra que a linha entre amar e possuir é muito mais delicada do que costumamos admitir. O verdadeiro horror do filme não nasce da maldição ou do sobrenatural, mas da perda da liberdade. Porque, quando alguém não o pode escolher, o amor já não existe. O que permanece é apenas obsessão.

Obsessão é uma reflexão sobre o lado mais sombrio dos relacionamentos humanos. E talvez seja justamente por isso que suas cenas continuam ecoando mesmo depois dos créditos finais.

Categorias
Crônicas e Ensaios

Assistir, Pensar, Pensar, Escrever e Repensar

Entre os dias 18 e 25 de julho deste ano (2026), o Festival de Cinema de Vitória exibiu 26 produções realizadas no Espírito Santo, espalhadas nas diversas mostras que compõem esse que é o principal evento de cinema e audiovisual do estado. A curadoria do festival levou às telas do Sesc Glória, nessa edição, as obras de 38 realizadores que carregam, em sua maioria, as dores e os prazeres do “cinema capixaba” — termo que foi, inclusive, questionado desde o primeiro dia (questão da qual participei defendendo o termo, mas que prefiro deixar para outro texto). Além dos realizadores, o número de profissionais envolvidos nesse montante de produções capixabas é gigantesco, sugerindo (ou comprovando) que estamos mergulhados em um mercado competente e em constante crescimento.

Neste ano, o Festival foi acompanhado por profissionais da mídia, incluindo jornalistas, criadores de conteúdo e críticos de cinema. Sim, críticos de cinema. Essa corja mal amada da qual ainda teimo em fazer parte e pela qual ainda entro, de cabeça, em discussões que nem sempre valem a pena, mas que continuam me inflamando pelo viés da paixão. 

Cinema, Poema e Gangrena

Cinema, Poema e Gangrena, filme que assino direção, pesquisa e montagem, foi o primeiro a ser exibido, no dia 18, na lindíssima 15ª Mostra Foco Capixaba. Sobre ele, li e ouvi elogios e ponderações interessantíssimas, dessas que nos fazem pensar e repensar processos, fases da pesquisa, referências e um tanto de outras coisas que compõem uma obra como essa. Também li e ouvi uns absurdos um tanto quanto patéticos, terrivelmente preguiçosos, vindos exatamente de quem ganha a vida com a crítica. É sobre isso que pretendo me debruçar no decorrer deste texto.

NOME AOS BOIS OU QUASE ISSO

Andrea Ormond, Juliano Gomes, Lia Bahia, Heitor Augusto, a capixaba Kenia Freitas, Hermano Callou, Raul Arthuso: nomes que ainda constam na minha lista de interesses imediatos quando o assunto é crítica de cinema. São autores cujos textos demonstram, em cada palavra escolhida e em cada sentença formulada, um processo de análise inquieto, fundamentado exclusivamente no pensamento. Além desses, lembro de outros nomes, responsáveis pelo meu “primeiro amor” pela crítica como forma de pensar: Fabio Andrade, Felipe Bragança e o sempre desafiador Luiz Soares Júnior.

Aqui no Espírito Santo, os percursos da crítica, assim como o próprio cinema feito aqui, se mesclam com movimentos vanguardistas como o cineclubismo dos anos 60, 70 e 80: estamos, desde nossas origens, impregnados das mais variadas vontades que permeiam o fazer cinematográfico. Para recordar alguns dos nomes que circularam em jornais e folhetins universitários na trajetória da crítica audiovisual capixaba: Fernando Tatagiba, Antonio Americano, Cícero Peixoto, Andi Corradi, Marien Calixte, Marcos Valério, Magda Carvalho, Alexandre Curtiss, Ana Laura Nahas, Carol Rodrigues, Gisele Arantes, Rodrigo de Oliveira, Gustavo Cheluje e Rafael Braz. Mas o maior nome da crítica capixaba, e talvez este seja o único consenso por aqui, deve ser o de Amylton de Almeida, dono da mais longeva carreira na função de crítico: 23 anos no jornal A Gazeta

Amylton de Almeida

Como reverência a sua contribuição para nosso cinema, que ultrapassa a crítica e atravessa várias vertentes do audiovisual e da arte feita no ES — e como tentativa de trazer parte da experiência de um filme que, hoje, não possui uma cópia decente para exibição —  Cinema, Poema e Gangrena traz trechos de uma crítica de sua autoria, publicada em 1978, sob o título “É difícil escolher o pior neste filme”, a respeito do longa Paraíso no Inferno, de Joel Barcellos. 

Cinema, Poema e Gangrena

Sobre essa homenagem, consequência de uma pesquisa de dois anos por imagens feitas pelo próprio Amylton, que resultou com os burros n’água por não conseguir autorização de uso das cenas, um dos críticos de cinema que acompanhou o 33º Festival de Cinema de Vitória apontou que meu filme “alfinetava Jean-Luc Godard”, quando, na verdade, tratava-se de um trecho da referida crítica — ou seja, era no máximo uma alfinetada de Amylton ao Joel Barcellos. Ficou por aqui a impressão de que o crítico que cobria o Festival cochilou nessa parte, ou simplesmente não leu o letreiro que avisava desse pequeno detalhe. Inclusive, os letreiros também são vítimas de sua perspectiva, incluindo a cartela inicial, aquela que segue as logos do Funcultura e da Lei Paulo Gustavo, a que avisa, para fins de segurança jurídica, que o uso de imagens oriundas de outros filmes não tem fins lucrativos. Sobre isso, ele escreve: “Ora, qual seria o problema de um artista querer sobreviver de sua arte, ganhar dinheiro com seu o fruto de seu trabalho?”. Talvez ele tenha chegado atrasado, já que me parece muito improvável que ele não saiba o real significado de exibir as referidas logos no início dos filmes. O texto também aponta para o fato de Cinema, Poema e Gangrena ter escolhido imagens de filmes em baixa resolução, de ter dado a essas obras uma tela inteira, cheia, apesar da qualidade ruim, o que só revela a falta de alguma noção do crítico a respeito da natureza desses filmes. Ele também aponta uma “falta de fontes”, ainda que os “letreiros que nunca se interrompem”, como diz o texto, tragam em vermelho (pra destacar, sabe?) essa tão importante informação — e aqui me indago se há alguma outra fonte, igualmente confiável, conhecida apenas pelo nobre profissional da crítica, de dados sobre a ditadura além da Comissão Nacional da Verdade.

De um modo geral, a crítica é bem ruim, vazia de alma e personalidade, visivelmente escrita com pressa, como se precisasse entregá-la o mais rápido possível. Eu teria deixado pra lá, principalmente porque não foi o único texto mal argumentado dessa cobertura específica do Festival e porque, como crítico, respeito muito quem vive disso. Mas ficou comigo um sabor meio amargo na garganta, não pela crítica ao meu filme, que está no mundo sabendo das consequências disso, mas porque me parece imensamente injusta, até com o próprio crítico em questão, essa pressão imensa por entregar um volume gigantesco de críticas em um curtíssimo espaço de tempo. Preciso dizer que não faço a menor ideia de quem o estava pressionando tanto para entregar críticas tão rápidas, ao ponto de aparentarem ter sido escritas com uma enorme preguiça de pensar.

Assalto, de PH Martins

A crítica de Assalto, de PH Martins, parece desconsiderar o tempo de tela necessário para, de fato, desenvolver personagens cuja missão, anunciada desde o título, os torna complexos, ímpares e profundos. O texto sobre Superfície, de Carolina Campista, que no debate da manhã seguinte à exibição revelou como fonte de sua narrativa os diários de adolescentes capixabas, afirma que o curta é “um cinema menos humanista do que obsessivamente voltado às sensações, ao show, ao espetáculo”, para se referir a uma obra que abre mão de qualquer julgamento moral de suas personagens. Um pouco melhor articulados, mas igualmente apressados, os textos sobre O Que Faço com Isso Agora que Acabou?, de Julia Uliana e Natália Dornelas, e sobre Irmã, de Anderson Bardot, preferem apontar vontades do próprio crítico sobre as decisões estéticas dessas obras que realmente analisá-las como são. Além desses, o texto sobre o longa A Caminhada Sagrada de Tatatxi Ywareté, de Wera Djekupe, insiste em questionar a natureza política não só desse “tipo de cinema”, mas da própria arte.

É incrível que o Festival de Cinema de Vitória tenha crescido tanto na última década. Quando comecei a escrever críticas, antes mesmo de prestar curadoria para o mesmo evento (ao lado de Erly Vieira Jr, Waldir Segundo e Luana Cabral), era um desafio enorme dar conta de escrever, por iniciativa própria, sobre algumas obras que assistia por lá. Escrevi sobre Pastor Cláudio, de Beth Formaggini, Diante dos Meus Olhos, de André Félix, O Cemitério das Almas Perdidas, de Rodrigo Aragão, para insistir e descobrir/inventar meu próprio caminho no percurso da crítica, tentando pensar ao máximo sobre esses filmes antes de escrever uma palavra sequer sobre eles. 

Aprendi, em meu percurso como crítico, curador e editor-chefe de revista, que existe o tempo de assistir ao filme, e o tempo de pensar, pensar e pensar um pouco mais nele. Depois disso a gente escreve, e então repensa tudo de novo, antes de colocar uma crítica no mundo. E quando falo em tempo, não falo das horas no relógio, mas da atenção que cada filme pede, sobretudo os curtas-metragens. É necessário muito mais que um olhar cansado e apressado. É preciso observar.

Categorias
Crônicas e Ensaios

Balão

A Viagem do Balão Vermelho, Hou Hsiao Hsien (2007)

Em 2022, pouco depois de a vida urbana voltar ao seu curso, a UFES retomou suas atividades presenciais. Naquele ano, o professor Fábio Camarneiro iniciou um projeto de exibição de filmes com debates dentro de uma determinada temática a cada semestre – ele me confessou, na época, que era só uma desculpa para rever filmes que ele ama em tela grande e conversar sobre cinema. Eu, que sentia falta da mesma coisa naquele momento, tornei um hábito frequentar as sessões do Fábio às quartas-feiras. Quando ele saiu para o pós-doc e as interrompeu, eu estava num momento em que eu não tinha tempo para frequentá-las. Mas no semestre passado, quando ele retomou o projeto no Cine Metropolis, retomei junto o hábito de frequentar as sessões semanalmente.

Em uma delas, uns dois meses atrás, Fábio exibiu Zero de Conduta, de Jean Vigo, e O Balão Vermelho, de Albert Lamorisse. Ele me advertiu: “Semana que vem você TEM que vir. Você conhece mais de cinema taiwanês que eu, e vou exibir A Viagem do Balão Vermelho, do Hou Hsiao Hsien”. Eu ri, e achei legal que ele se lembrou do meu hiperfoco de anos atrás no cinema taiwanês. “Esse aí eu não vi. Aliás, do Hou, só vi Millenium Mambo, A Assassina e Tempo de Viver, Tempo de Morrer”. Achei que seria legal, afinal, é um filme do Hou Hsiao Hsien com a Juliette Binoche, mas eu não esperava, nem de longe, que esse filme alugaria um triplex na minha cabeça.

Desde essa sessão, penso pelo menos uma vez por semana nesse filme. Eu amo cinema urbano. Eu amo como ele filma Paris, de um jeito que nunca vi nenhum outro cineasta filmar. Mas acho que o que mais me conectou emocionalmente com o filme foi algo que definitivamente não era a intenção do cineasta. A Viagem do Balão Vermelho é uma cápsula do tempo. É um filme feito no fim de uma era, que captura um momento em que a vida acontecia no offline. É um momento em que a tecnologia digital existia, mas não vivíamos hiperconectados. A personagem da Song Fang passeia pela cidade com o garoto, filmando lugares e pessoas com uma câmera mini dv. E não existe a paranoia social de estar sendo observado e observar o tempo todo que foi gerada com os smartphones e as redes sociais.

Os personagens passam por situações complexas e dramas humanos que, mesmo quando são atravessados pela tecnologia – como na cena da confusão em que o garoto tá jogando Playstation 2 -, não os impedem de estar o tempo todo ali presentes. Eles não são sugados pela tecnologia. A tecnologia não é uma extensão da vida, muito menos da mente. A tecnologia digital existe, mas ela ainda é plenamente analógica. 

E indo além, o cinema da virada do século e do início do século XXI me pega muito no aspecto da fisicalidade estética. A película vibra de uma maneira que nunca vibrou. O concreto é úmido, as luzes fluorescentes e os letreiros gritam na nossa cara. As pessoas estão tão espremidas nos seus cotidianos que a vida sangra pela cidade. Foi a época em que eu cresci e formei minhas memórias. Assistir aos filmes dessa época me remete invariavelmente à minha própria infância, às fotos analógicas da minha vida. De um tempo que não volta mais. De um ápice criativo do fim da vida analógica antes da hiperconectividade que se foi com a migração total para o mundo digital. Foi o fim do logoff. O fim do silêncio. O fim do tempo de processamento. O último respiro da infância material. Mesmo tendo crescido com acesso quase irrestrito à internet, eu tinha tempo de brincar, de subir em árvore, de ler, de desenhar, de jogar um videogame que tinha começo, meio e fim. De ouvir um cd e o cd acabar. De conversar. De não resumir a vida num photo dump, de não mostrar pra todo mundo como tá sendo o meu dia nos stories. De ter um tempo de tela decente.

Categorias
Críticas

Obsessão, de Curry Barker

Vi algumas pessoas falando que Obsessão tinha o macabro de Cure (1997) e o cômico de Evil Dead (1981), misturado na medida certa. O filme de Curry Barker, diretor norte-americano que veio à tona a partir de filmes independentes lançados no YouTube (além de também fazer vários vídeos no TikTok), talvez vá além de uma mistura desses dois sentidos do cinema de horror. 

Em Obsessão, Bear (Michael Johnston) tem uma paixão platônica por sua amiga Nicky (Inde Navarrette). Ao comprar um presente para Nicky numa loja meio suspeita, um souvenir que diz realizar o seu desejo se você quebrar o pedaço de carvalho que tem dentro dele, Bear deseja que a amiga o ame mais do que tudo no mundo. Bom, isso acontece. Nicky passa a pensar somente em Bear, eles ficam juntos, começam a namorar, e o amor da garota passa a se tornar, como diz o título, uma obsessão. 

O filme realmente transita muito bem entre o horror e a piada, como nos comentários que vi pela internet, como herança direta do cinema clássico. Alfred Hitchcock prezava que seus suspenses tivessem momentos descontraídos para que a tensão tivesse um contraponto nos sentimentos do espectador. Intriga Internacional (1959) traz duas das cenas mais tensas que já vi, e ao mesmo tempo conta as melhores piadas que sua história poderia contar. Mas essa lógica não se aplica só ao suspense. Rio Bravo (1959), um dos grandes westerns de Howard Hawks, que também fala sobre a redenção de um homem perdido na vida, conta ótimas piadas visuais durante toda sua narrativa, inclusive com a famosíssima primeira cena que presta homenagem ao cinema mudo. Grande parte do poder de emocionar alguém com um gênero fílmico é saber balanceá-lo com seu “oposto”. O horror pode ficar muito mais assustador se souber incluir uma pequena risada momentos antes ou depois do medo. 

Obsessão é repleto disso. Em uma festa de amigos, Nicky e Bear estão participando de uma espécie de jenga misturado com “verdade e desafio”, e o filme brinca com a possibilidade do rapaz ter que dar um selinho em uma amiga em contraponto com o que Nicky fará se isso acontecer. Quando Bear realmente pega esse desafio, o que Nicky faz vai muito além do que se espera, arrancando risadas tortas e suspiros profundos.

A sessão em que eu assisti ao filme estava completamente na mão de Curry Barker. As pessoas compraram todas as batidas do filme, todas as suas curvas e desvios. O que parece estar acontecendo no mundo todo, visto o sucesso comercial que está fazendo. O ânimo do público parece crescer junto com a espiral de tensão que Nicky e Bear causam um ao outro, e nos outros personagens, durante o filme. 

Há também um charme na discussão sobre relacionamentos tóxicos que o filme traz. Isso porque você olha para a sinopse e pensa que o óbvio será dito, que pessoas tóxicas podem destruir vidas, que é complicado alguém se livrar de uma situação dessas. Mas Obsessão vai além. Há uma sutileza em como ele inverte essa questão, apostando em uma representação visual da coisa e um roteiro muito afiado. Infelizmente seria muito spoiler se eu fosse mais a fundo nessa virada, mas saibam que o discurso de Obsessão é inesperadamente mais profundo e macabro do que parece. Afinal, não seria errado você aceitar um amor que você sabe que é forçado? O quão disposto Bear realmente está em acabar com aquela situação? Há um momento em que ele deixa Nicky dormindo sozinha, e ela diz algumas coisas para Bear ao vê-lo saindo; as coisas ditas e não ditas nessa cena, todo seu sentido e revelações que ela traz, estão grudadas na minha cabeça desde que o filme acabou.

Preciso também tirar algumas linhas para falar de dois outros aspectos. O primeiro é que Curry Barker é um tremendo contador visual de histórias nesse filme. Há um baita esmero em cada plano, em cada jogada de luz (e são muitas), em cada encenação e enquadramento. Em um primeiro momento, esconder Nicky nas sombras serve para criar o medo em relação a personagem, depois serve para nos contar o quão em profundas trevas está o que seria a verdadeira Nicky. E a inventividade de Barker para criar cenas bizarras com coisas muito simples é louvável. Tem um momento envolvendo um plano em velocidade reversa que me tirou o riso mais nervoso que eu poderia dar. E eu não sou fã de referências em filmes, mas a que ele faz com o próprio Cure, que citei no começo do texto, é de arrepiar. 

O que nos traz diretamente a Nicky, ou a sua atriz Inde Navarrette. Não tem ninguém mal em Obsessão, todos os atores cumprem muito bem seus papéis. Mas a distância em que Navarrette se encontra dos demais é tão assustadora quanto as próprias atitudes obsessivas de Nicky. Ela nos faz acreditar, aos poucos, que Nicky foi substituída por uma outra pessoa. Quando a vemos pela primeira vez, antes do desejo de Bear, Nicky é uma amiga bondosa, bem humorada, carinhosa. E o que Inde Navarrete faz é ir sumindo com esses aspectos e os substituindo por coisas inexplicáveis. E ela nos faz sentir saudades da personagem do começo do filme, o que traz junto uma melancolia, pois a história segue por caminhos tão inesperados que você sabe que nunca mais verá a verdadeira personagem. Já saí da sessão ansioso para ver um próximo trabalho da atriz, sabendo que poderia estar vendo o primeiro destaque de um talento geracional. 

Vão ver Obsessão, é bom para um cacete.

Categorias
Críticas

Mentira, intimidade e a desproporção da culpa em “The Drama”

[ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS]

Há algo profundamente inquietante em The Drama, algo que transforma a mentira em matéria de erosão. O que se deteriora aqui não é somente a confiança entre duas pessoas, mas a própria percepção do que é verdade dentro de um vínculo amoroso. Sob esse olhar, o filme me parece menos um thriller psicológico e mais um estudo sobre intimidade sob tensão.

O filme parece começar como um drama conjugal sobre segredos e termina operando em outra camada: a do julgamento moral.

A grande revelação, de que Emma, personagem de Zendaya, na adolescência cogitou um ataque à escola após sofrer bullying e isolamento, treinou para isso e depois desistiu, poderia ser tratada apenas como um choque narrativo. Mas o filme tenta fazer mais do que isso. Ele desloca a questão de “o que ela pensou em fazer” para algo mais incômodo: o que significa condenar alguém eternamente por uma violência nunca cometida, sobretudo quando essa pessoa transformou esse passado em outra ética de vida?

O filme  por vezes prolonga excessivamente o desenrolar das mentiras que cercam o casal, insistindo em revisitar o conflito central até o limite da exaustão. Há momentos em que o roteiro parece girar em torno da mesma ferida, como se hesitasse em avançar. Mas me parece que essa repetição não é apenas um problema estrutural; ela reproduz a própria obsessão do julgamento, esse movimento de revisitar a culpa até esvaziar qualquer possibilidade de redenção.

The Drama não parece interessado em oferecer um julgamento simples. Pelo contrário, ele desestabiliza a lógica confortável da culpa. Ao fim, o que permanece é uma pergunta desconfortável: por que certos erros são tratados como imperdoáveis enquanto violências talvez maiores, cometidas por outros, parecem absorvidas com mais facilidade?

Há outros personagens operando formas de violência, afetiva, ética e simbólica, que parecem receber menos condenação que Emma. E o filme sabe disso. A questão nunca é apenas o segredo revelado, mas a escala de punição que se constrói ao redor dele.

Como mulher, essa dimensão me atravessou de modo particular. Porque a história não me parece apenas sobre um segredo destruidor entre noivos, mas sobre como a sociedade reage à complexidade feminina quando ela escapa da figura da inocência. Há algo no modo como o filme expõe culpa, punição e vigilância moral, especialmente sobre o feminino, que me parece impossível ignorar.

Emma não é escrita para ser facilmente absolvida nem demonizada, e essa ambiguidade é o gesto mais interessante do filme.

Se há provocação em transformar um pensamento adolescente terrível em centro dramático, há também uma pergunta legítima sendo feita: somos definidos para sempre por nossos impulsos mais sombrios, mesmo aqueles não realizados?

Essa pergunta sustenta o filme muito mais do que o suspense.

Zendaya entrega Emma com uma contenção dolorosa, recusando qualquer caricatura da “mulher perigosa” ou da “mulher arrependida”. Já Robert Pattinson faz de Charlie um homem dilacerado entre amor e horror, e a tensão entre os dois sustenta o filme mesmo quando o roteiro se torna reiterativo.

Há fragilidade, contenção e violência emocional no trabalho dos dois impede que a obra colapse sob o peso de suas ambições. Mesmo quando o roteiro me parece excessivo, as performances nunca vacilam.

No fim, The Drama conquista justamente por permanecer irresolvido. Não porque responda muito, mas porque perturba o suficiente para continuar ecoando. Não pede concordância, pede enfrentamento.

Categorias
Editoriais Vol. 03 – Nº 06 – 2022

EDITORIAL: sobre antropofagias e outros sonhos…

A ideia inicial dessa edição era celebrar de alguma forma os 100 anos da Semana da Arte Moderna de 22. Mas as palavras seguem vivas e pulsantes na reta final de um (des)governo que, antes mesmo de assumir o controle do país, desvalorizava nossa História, nossa Cultura, nossa Arte e a importância de nossa complexidade enquanto brasileiros.

Por quatro anos, tudo que nos foi oferecido pelo governo vigente foi aquele mesmo conteúdo da bolsa de colonoscopia do início de mandato. Em vários formatos, conteúdos e texturas, todas as questões para as quais procuramos solução nos foram respondidas com uma enchurrada da mais fétida merda.

Agora, ao final dessa desgraça, o Palácio começa a ser esvaziado e vemos as obras de arte que de lá saem: é como presenciar a escatologia de um corpo já apodrecido por fora e por dentro, um “líder” que alimentava-se tanto de seu próprio ego que era capaz de cagá-lo (ainda que pela autoria de outros) em forma de quadros cafonas e esculturas patéticas.

Estamos todos cansados e, nessa onda, limitar a um tema seria contraproducente. Abrimos, então, a caixa dos sonhos.

Neste volume, Gustavo Guilherme imagina um paralelo entre dois sucessos de crítica e de público no cinema em 2022, os filmes Nope, de Jordan Peele, e Marte Um, da Gabriel Martins; Letícia Oliveira descreve a ideia de “gosto” como uma contrução social; Matheus Alvarenga revisita o Movimento Antropofágico com olhares voltados para os dias atuais; PH Martins observa o estilo de uma das cineastas mais relevantes da contemporaneidade e Renata Costa, em texto revisitado e republicado por nós especialmente para este volume, fala sobre o grande filme brasileiro da temporada, Marte Um.

Categorias
Vol. 03 – Nº 06 – 2022

Formas de olhar para cima

O Espaço Sideral, lugar de destino e fabulação no imaginário dos homens, ocupa certo lugar cativo no cinema. Assistimos guerras espaciais e aventuras estelares, sonhos que envolvem a existência de vida inteligente fora do planeta Terra, a ideia de outras civilizações, batalhas contra asteroides e alienígenas invasores, tecnologias extraterrestres, etc. O terreno da ficção científica, central ou plano de fundo das mais variadas narrativas, compõe o imaginário popular que se vale de criações elaboradas por incontáveis cineastas, de Andrei Tarkovski e seu drama existencialista em Solaris (1972) ao brasileiríssimo dedo na ferida de Branco Sai, Preto Fica (2014), de Adirley Queirós.

Aparentemente, gostamos de imaginar, daqui, os mistérios que estão além das estrelas.

Inseridos nesse universo, Não! Não Olhe! (Jordan Peele) e Marte Um (Gabriel Martins), ambos lançados em 2022, compartilham, cada um a seu modo, esse interesse pelo extra-terreno: no primeiro, como um mistério que se impõe sobre as personagens centrais e o lugar no qual estão inseridas; no segundo, como a motivação central do protagonista e, consequentemente, como força dramática que costura toda a narrativa. Duas formas de olhar (ou não) para cima.

Jordan Peele vem de duas obras muito celebradas. Corra! (2017) e Nós (2019) receberam bastante atenção na época de seus lançamentos, sendo que seu filme de estreia lhe garantiu, entre outros reconhecimentos, um Oscar que fez dele o primeiro homem negro a ganhar o prêmio na categoria de roteiro original. Logo de cara, um marco que colocaria sobre ele os olhos e a atenção de muita gente. Nós, seu filme seguinte, pode ter dividido a opinião de alguns aqui e ali, mas a mão do autor era, ainda, plenamente visível. Nessa toada, bastou que fosse lançado o trailer de sua mais nova empreitada para que inúmeras especulações começassem a rondar as redes. Nope, título aqui traduzido para Não! Não Olhe!, já entrou em cartaz sob uma áurea de excitação e altas expectativas por boa parte do público.

Por sua vez, o diretor mineiro Gabriel Martins, o Gabito, chegaria sozinho na condução de Marte Um após parcerias interessantes em co-direções de filmes como O Nó do Diabo (2017) e No Coração do Mundo (2019), este último em uma colaboração que já vinha de outros projetos com o também mineiro Maurílio Martins. Com a etiqueta da produtora Filmes de Plástico, formada pelos próprios Gabriel e Maurílio, e também por André Novais Oliveira (outro grande nome do cinema mineiro contemporâneo) e o produtor Thiago Macêdo Correia, Marte Um ganhou o público rapidamente, chamou a atenção da crítica especializada e, quando tudo já parecia perfeito em sua carreira comercial, foi selecionado para representar o Brasil na mesma premiação* que catapultou a carreira de Jordan Peele, o Oscar.

Outro fator que aproxima esses dois realizadores é o fato de serem ambos homens negros realizando filmes em uma indústria majoritariamente branca. Não por acaso, lá está o slogan da empresa familiar que protagoniza o filme americano, “since the moment pictures could move, we had skin in the game” (algo como “desde quando as imagens passaram a se mover, tínhamos a pele no jogo”), frase que toma para si o protagonismo de uma conhecida imagem de Eadweard Muybridge (abaixo), em uma invocação de ancestralidade que o próprio Gabito já havia recorrido em seu curta-metragem Rapsódia para um Homem Negro (2015), filme construído sob as nuances da relação entre Ogum e Oxossi, para dar texto e subtexto aos seus protagonistas, os irmãos Luiz e Odé.

Não! Não Olhe! acompanha o cotidiano de uma família negra de criadores/treinadores de cavalo (eles mesmos destacam: os únicos proprietários negros de cavalos em toda Hollywood) que se veem diante do desafio de manter a empresa funcionando após a morte do patriarca Otis, fatalmente atingido por um objeto misterioso que caiu do céu. Dentre as estratégias para manter tudo em pleno funcionamento, o filho mais velho, Otis Jr., ou apenas OJ (Daniel Kaluuya), e sua irmã Emerald (Keke Palmer, elétrica como nunca) chegam a vender um de seus cavalos para um rancho vizinho, onde funciona um parque temático cujo dono é um ex-ator mirim, interpretado por Steven Yeun, cujo show fora, muitos anos antes, encerrado por causa de uma tragédia brutal ocorrida no set de filmagens. De repente, eventos inexplicáveis começam a acontecer nos céus da Califórnia, sobre a região dos ranchos de OJ e Ricky (Yeun), mistérios que, por um lado, causam horror aos ocupantes daquele lugar, mas que, por outro viés, podem ser a oportunidade que eles precisavam para manterem-se vivos naquele caos.

Na lógica dos acontecimentos de Não! Não Olhe!, é coerente que, em certa altura, um dos personagens teorize a respeito do “monstro” que os assombra: talvez seja melhor não olhar diretamente para ele, já que isso o torna mais agressivo, mais perigoso. É como se o tal monstro fosse uma espécie de espelho cujo reflexo devolve ao seu observador o medo, o mais puro pavor, em uma sensação de morte iminente.

Marte Um é outra história, outro filme, mas também observa de perto o cotidiano de uma família negra. Essa, no caso, vive na região periférica de Contagem, Minas Gerais, em um tempo que agora podemos chamar de passado e, finalmente, olhar com alguma distância (ainda que inicial): o tempo da eleição de um governo que destruiu o Brasil nos últimos quatro anos. Pai, mãe, filha e filho, cada um deles uma constelação inteira. Deivinho (Cícero Lucas), o caçula da família, sonha em se tornar astrofísico, mas o pai, Wellington (Carlos Francisco), quer que o filho siga a carreira de jogador profissional de futebol, já que o garoto tem talento para isso. Tércia (Rejane Faria), a mãe, deixa-se contaminar por certo mau agouro após um evento traumático, reimaginando seu cotidiano sob a sombra dessa maldição enquanto Eunice (Camilla Damião), a filha mais velha, descobre a si mesma ao conhecer o amor sapatônico.

Resumidamente, é um filme que cobre eventos do cotidiano dos integrantes dessa família negra e periférica, com entrelinhas que comentam a vivência da negritude sem apelar para estereótipos fáceis ou velhos costumes (geralmente racistas) do cinema brasileiro mainstream.

Se em Não! Não Olhe! o monstro que assombra aqueles corpos é um mistério que se revelará entre as nuvens, movimentando-se nos céus da Califórnia, em Marte Um o inimigo é o próprio “tempo presente” da narrativa, o tempo da eleição de Bolsonaro e da sombra maligna de seus ideais projetada sobre os indivíduos brasileiros marginalizados — a sensação da mãe de estar amaldiçoada é, de várias maneiras, um sintoma comum daquele momento, daqueles corpos, daquele Brasil. Se a ameaça nos céus californianos mantém as personagens cabisbaixas enquanto planejam estratégias para vencer o inimigo, aqui, a névoa bolsonarista faz com que os olhos de Deivinho enxerguem, em uma futura missão de colonização do planeta Marte, um sonho, um projeto de vida, um destino possível, bem longe daqui.

Em outro filme bem falado este ano, Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental, de Radu Jude, um dos atos se configura como uma espécie de glossário ilustrado. Nele, há uma definição curiosa sobre o que seria o Cinema: entre os presentes oferecidos pelos deuses para derrotar a Medusa, está o escudo de Perseu, através do qual o herói foi capaz de observá-la através do reflexo, indiretamente, e derrotá-la, cortando sua cabeça com cabelos de cobra; para Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental, o Cinema é o Escudo de Perseu, através do qual se pode olhar para a realidade sem encará-la diretamente.

Talvez essa não seja a definição perfeita (e alguma é?) sobre o que é o Cinema, mas parece propícia aqui. Observar, através das lentes de uma câmera ou de um telescópio construído em casa — gesto ao qual recorrem tanto a família Haywood (Nope) quanto os Martins (Marte Um) —, permite a essas personagens não apenas ver através de um reflexo, mas também observar o universo e as possibilidades de mundo que estão além dos limites impostos pelas circunstâncias do tempo e do espaço.


*apenas um dia após a publicação deste texto, a Academia anunciou os pré-selecionados para a próxima fase na categoria de filme internacional e, infelizmente, Marte Um já não constava na lista.

Categorias
Vol. 03 – Nº 06 – 2022

O estilo Jane Campion

Filmes devem ficar na sua memória. E muitas vezes ficam por um aspecto específico ou outro, o que ainda é bom, mas a melhor sensação é quando ele gruda na sua mente pela sua totalidade, pelo que te faz sentir, pensar, refletir, etc. Os filmes que marcaram a história conseguiram reproduzir esse efeito nos espectadores de modo perene, prolongado. Desde que eu o assisti em 2021, Ataque dos Cães, de Jane Campion, entrou na minha mente dessa maneira.

Meu primeiro contato com os trabalhos da diretora neozelandesa foi com a série Top of the Lake, em 2013. Um trabalho que, junto com Bom Trabalho de Claire Dennis, me fez conhecer um outro tipo de narrativa para além dos filmes mega populares que minha versão mais jovem gostava de ver. Top of the Lake foi, para mim, uma introdução ao estilo que viria a ser trabalhado em Ataque dos Cães. Depois de assistir ao filme, senti vontade de rever a série e engatar em sua segunda temporada, China Girl, e tive o que me proporcionou, ainda, uma nova experiência.

Existe uma fatia da crítica que classifica Ataque dos Cães como “filme de arte” no vício de tentar justificar seu ritmo lento, seu tipo de roteiro elipsado e sua direção profunda. Parece que só assim, sob essa etiqueta, podem falar bem do filme. Primeiramente, a expressão “filme de arte” pode soar completamente imbecil quando serve apenas para diminuir ou condicionar a arte cinematográfica em determinada linha de produção, determinada grife. Ora, os domínios do cinema, que o fazem ser entendido como uma arte, deveriam bastar para qualquer tipo de filme. Me parece que falta a esse tipo de crítico uma mínima bagagem menos generalista e superficial, mais aprofundada, a fim de fugir da pretensão de classificar um filme dentro de uma vertente que ele mesmo criou em sua cabeça. Basta carregar sua bagagem minimamente e verá que não há nada de “difícil” em Ataque dos Cães. O que existe é um trabalho de roteiro, encenação, direção – e de todos os outros aspectos – muito bem elaborado e planejado nos mínimos detalhes.

Ataque dos Cães começa quando Phil, um fazendeiro durão, trava uma guerra de ameaças contra Rose, a nova esposa do irmão, George, e seu filho adolescente chamado Peter. Há, em todo o filme, uma forte influência do cinema clássico e até do auge do cinema mudo. A história será contada para quem foi fisgado e está dedicado a ela. Todas as entrelinhas são apresentadas na primeira metade e, em seguida, são desenvolvidas lenta e detalhadamente, até cada uma delas chegar ao seu objetivo dramático final, umas com mais força narrativa do que outras. A questão do antraz, a relação dos irmãos e suas lembranças de seu antigo mentor, a sexualidade de Phil, as intenções de Peter, esses desenvolvimentos poderiam até ser feitos de modo seguro dentro do roteiro: apresentar personagens, vagar de uma cena a outra e ir crescendo, fazendo disso o próprio andamento do filme. Mas não é essa a intenção ou o estilo de Jane Campion. Nessa narrativa, seu objetivo principal não é nos entregar respostas, mas nos guiar através das dúvidas.

O que significa Peter procurar animais mortos pela região? Qual a real intenção de Phil ao se aproximar de Peter mesmo após atormentar o menino? Onde o alcoolismo de Rose a levará? Ela vai fazer algo contra Phil, que parece ameaçá-la silenciosamente vinte e quatro horas por dia? Como Jane Campion faz isso?

Para mim, é como se ela soubesse de toda a história e conduzisse seu roteiro através de cada ato que dê conta das relações dos personagens. Em alguns casos, ela consegue alcançar e desenvolver bem; mas, em outros, as personagens parecem correr mais que a escrita da autora e se distanciam, como se tivessem vida própria. É difícil descrever isso com precisão teórica.

E então, Campion mostra o que vem depois. Elipse e, sem seguida, lá está o personagem, ou lá estão as relações que definem esses personagens depois de seu desenvolvimento ter atingido um novo patamar. No caso de Ataque dos Cães, a principal marca dessa estratégia é a impossível amizade entre Phil e Peter.

Quando o garoto chega na fazenda com seu estilo afeminado e seu corpo magrelo, ele logo vira alvo das provações de Phil e de seus subordinados. A aproximação acontece após Peter descobrir um pequeno segredo de Phil. O cowboy depois não o confronta mais, não o ameaça, mas é mostrado sempre buscando uma aproximação e se surpreendendo com o espírito corajoso do menino. Phil encontra em Peter o que perdeu com o irmão George. Um tipo de companheirismo e amizade que cresce a partir do que cada um mostra ao outro e de como essas coisas se traduzem em respeito.

Foi ótimo rever Top of the Lake e perceber esse tipo de artifício sendo usado também em uma outra história, anterior e mais longa. Um estilo que reforça aquilo que realmente te faz lembrar de um filme: o sentimento, o pensamento, a reflexão. É esse mesmo estilo faz de Ataque dos Cães uma obra que traça, desde a primeira voz que ouvimos, a de Peter, suas intenções, mas que também nos diz “calma, espere, a resposta virá na hora certa, enquanto isso deixa eu te mostrar isso aqui…”.

Por fim, um apelo: talvez não seja um bom caminho validar um filme pela sua lentidão ou ritmo diferenciado, dê uma chance e tente senti-lo. Se a coisa realmente não “bater”, é vida que segue. Mas, se bater, é quase certo que a experiência será maravilhosa. Filmes são, também, como as melhores coisas da vida. Só se tornam as melhores se dermos chance a elas.

Categorias
Críticas

Aftersun, de Charlotte Wells

É complicado filmar memórias. Dentro do universo cinematográfico, em mais de cem anos de cinema, artifícios de tudo quanto é jeito já foram pensados e realizados por diretoras e diretores para materializar em tela o que é uma memória. E falo de memória como algo que os personagens se recordam, uma lembrança que está ligada às suas motivações, sentimentos, ações. Pois, em uma história, uma memória não deve ser exposta de modo gratuito. Seja com o mais simples e poderoso recurso do flashback convencional, como usado em Lost (TV, 2004-2010); passando pelos planejadíssimos flashbacks de Cidadão Kane (Orson Welles, 1941) ou Bom Trabalho (Claire Denis, 1999); nas misturas de passado, presente e futuro de A Chegada (Denis Villeneuve, 2016); ou no recurso do falso found footage como em Lake Mungo (Joel Anderson, 2008).

Pois em 2022 surge uma obra capaz de trazer novas discussões sobre este recurso narrativo. Aftersun é o primeiro longa-metragem da escocesa Charlotte Wells e conta sobre Sophie, uma mulher que remexeu em gravações de uma antiga câmera digital para encontrar filmagens dela com seu pai, Calum, durante férias que aconteceram 20 anos antes. Mas o filme não se demora no que seria o “atual”, nas cenas de Sophie adulta. Aliás, para entender que ela está revendo as imagens há apenas um plano, bem no comecinho do filme. Estamos vendo imagens de uma das gravações e, de repente, percebemos o reflexo de Sophie na tela da TV, se levantando. Essa cena, aliada aos efeitos imagéticos e sonoros de manuseio de uma câmera digital, são gatilhos mais que suficientes para sacar que, a partir de agora, vamos entrar nos fios de memória muito particulares da protagonista.

Alternando entre cenas que são as gravações e cenas filmadas a modo convencional, rapidamente dá para entender porque Sophie está buscando rever essas memórias. Há um tipo muito especial de relação dela com seu pai. Apesar da típica história do pai que não mora com seus filhos, Calum se mostra alguém ressentido e nem um pouco orgulhoso dessa distância, o que faz com que cada momento passado com Sophie se multiplique por modo de seu carinho, de sua atenção e de sua cumplicidade. E Sophie, como é uma criança, não pensa muito nisso, ela apenas vive os momentos. E é quase palpável a influência de Calum sobre Sophie. A menina parece emular, a seu próprio modo, os jeitos e os pensamentos do pai, ao mesmo tempo que confronta alguns e estabelece novos e originais. A Sophie escrita por Charlotte Wells é uma persona em desenvolvimento, construindo sua própria personalidade.

A conexão entre pai e filha nos parece tão forte que, vinte anos depois, Sophie parece se lembrar minuto a minuto daquelas férias. Não há aqui uma dúvida do que era o relacionamento dos dois, há certezas. As dúvidas ficam para os momentos que ela, quando criança, não consegue ver, nos problemas pessoais e psicológicos que Calum aparenta ter. E, quando conseguimos ter algum vislumbre dessas dúvidas, é quando Sophie apenas imagina o que aconteceu. Mesmo no momento de maior rompimento entre os dois, o dia seguinte mostra que provavelmente não foi a primeira vez que eles se separaram assim e que Sophie já entende boa parte do que deve fazer. Ainda assim, há as desculpas, os arrependimentos. Se o roteiro costura essas memórias, Paul Mescal e Frankie Corio, os atores protagonistas, as materializam. É um trabalho sensível e muito apurado dos dois. A melancolia se mistura com a felicidade em Aftersun a partir de suas atuações.

O filme propõe a inversão do que é presente e passado em um filme. O passado é, em grande parte das histórias, um fator subordinado ao presente, mesmo que sua importância seja tão grande quanto os fatos que decorrem no tempo presente do filme. Já em Aftersun, o presente é que é acessório do passado. Pois essas memórias de Sophie se tornam elemento fílmico palpável, são gravações que se tornam a vida, que retornam a ser gravações, e voltam novamente a vida, ligando-se à Sophie vinte anos mais velhas, uma Sophie que tem saudades, remorsos e felicidades ao rever suas férias com o pai. A memória escrita e filmada por Charlotte Wells é mais do que um longo filme em flashback. Ela é o desejo da protagonista, sua vontade de viver e reviver.