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Críticas Vol. 03 - Nº 05 - 2022

Para Natara

Espero que esta te Encontre e que Estejas Bem (Natara Ney, 2020)

Querida Natara,

Escrevo este post ainda com o gosto do teu filme nos olhos: tremor nas pálpebras e resquícios de lágrima. É um sentimento doce.

Já te agradeci pessoalmente por escolher contar uma história de amor nestes dias tão feios, mas talvez devesse lhe dizer algo mais… ou talvez não. Talvez o filme, como um corpo dotado de sua própria alma, é o único que tenha algo realmente válido a ser dito. Às vezes penso que a crítica não tem nada a colaborar com determinada obra, mas sou um aquariano teimoso.

Quando tua voz, quente, empresta ao filme mais uma camada de memória, a tua memória, inventada ou não, meu peito estufa apavorado. As cartas de Lúcia e Oswaldo, por si só, já tinham feito seu papel: eu já estava desconcertado, gravemente sem jeito, incomodado por olhar tão intimamente para a alma impressa naquelas imagens. Sua voz (e o misterioso amor a quem ela se direciona) poderia soar como um palimpsesto, mas escapa da armadilha e me surpreende: revela-se cúmplice daquela história de amor.

Essa voz, tua e do próprio filme, você chamou de pacto – com Lúcia e suas cartas de amor, com as imagens e as memórias que elas evocam em si mesmas.

Imagem e memória habitando a tela em coexistência. Poesia.

Gosto de como o filme foge do saudosismo e prefere a saudade. Vibro quando corta da senhora saudosa de romantismo para a imagem dos carteiros, devidamente uniformizados sob um sol legitimamente carioca. Trabalhar cansa.

Fiquei com a ideia fixa de que aquelas cartas, celulose e tinta, eram o próprio cinema (tela e movimento). Letras são corpos que bailaram no papel e deixaram, ali, um rastro, uma imagem. O que esses corpos-letras traçaram em sua caligrafia dançada, é rastro, espírito – memória?

Tenho para mim que teu filme, que quer contar uma história de amor, encontrada uma feira tal qual uma antiguidade, constrói também sua declaração apaixonada: pelas cidades e sua arquitetura, pelas pessoas e suas histórias, saudades, destinos; pelas próprias imagens que carregam (e que carregam, em si, um mundo de significados possíveis). Carta que vira filme, que volta a ser carta, missiva de amor, monumento.

Não tem sido fácil acordar brasileiro e sei que, para você, o caminho nunca foi simples ou descomplicado. Decidir seguir o rastro de uma história de amor e transformar essa busca em filme é, como disse um personagem do teu filme, um ato de fé. Outra vez: obrigado.

Que outras histórias de amor te achem e, como os ventos de agosto, baguncem teus cabelos – e tuas ideias.

Espero que esta te encontre e que estejas bem.

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Vol. 03 - Nº 05 - 2022

Madame Satã: um corpo filmado

Madame Satã (Karim Aïnouz, 2002)

O corpo filmado em Madame Satã atravessou o meu próprio durante confuso percurso, passos vacilantes sobre incertezas cotidianas, pensamentos e sentimentos que brotaram e me fizeram refletir a respeito das sensações que o corpo em tela pode causar em mim. Um misto de admiração, fascínio, desejo e por que não, medo?

Madame Satã rompe com qualquer necessidade de aceitação social, e parte para o combate e quebra de normas socialmente construídas que ansiavam seu extermínio. O corpo é a peça que norteia o filme de Karim, uma vez que ele – o corpo – é seguido com muita proximidade por uma câmera que, hipnotizada, parece querer sentir e roçar na textura e no calor da pele da personagem: “o macho, a musa, a travesti e o marginal” (Rebeca Bussinger).

Logo nos primeiros minutos do longa de Karin, somos convidados a observar o corpo de Satã: negro, elegante, artista e transformista, ombros nus, Satã está enquadrada em primeiro plano. Observamos demoradamente a superfície da pele maltratada, ferida. Em off, a voz do delegado – ou de outrem com autoridade similar – nos apresenta “o desordeiro frequentador da Lapa nos anos 1932, do Rio de Janeiro”, “o pederasta que usa sobrancelhas raspadas e adota atitudes femininas”, “fuma e bebe”, “não gosta do convívio da sociedade, por ver que esta o repele dado os seus vícios”.

Observamos que o corpo é usado como agravante para qualquer que seja o delito que ela tenha cometido. Seu corpo negro, gay e fora-da-lei a torna culpada. Catalogado como aberração e marginalizado será, o corpo considerado desviante. E somente lhe será permitido existir, se abandonado, onde será garantida sua total ou parcial invisibilidade social: não o vejo na universidade, não o vejo no escritório, nunca nem mesmo o vi servindo mesas em bares ou restaurantes que frequento, logo, não existem ou pelo menos estou protegido e distante de suposta ameaça.

O diretor Karim Aïnouz nos presenteia com duas performances posicionadas no terço final do longa. Aïnouz opta por nos entregar um corpo em fragmentos filmados de maneira a transbordar do quadro. Uma câmera cheia de intenções a perseguir o corpo de Satã bem de perto. Um olhar háptico “que te convida a pequenos eventos, ao grão e a textura”.

O convite ao toque, que se relaciona com uma forma sensória de produzir conteúdo audiovisual, está presente em diversos momentos deste filme, o chamado cinema háptico, percebido tanto na fotografia quanto no som das texturas, possibilita ao espectador outra maneira de dar atenção à superfície de imagens. Um olhar mais demorado e hesitante sob os corpos e texturas filmados de perto.

O filme de Karim estará pairando em um possível desconforto, inquietações, identificação, vergonha, excitação, entre tantas possibilidades subjetivas ao ser espectatorial.

A câmera percorre as personagens, e o resultado que assistimos é uma valsa guiada pelo corpo, e não por enquadramentos milimetricamente organizados pelo que vê a câmera, como é de costume. O que interessa é o que está além do ótico.  Observamos em Madame Satã, no bailar do foco que se perde e se encontra novamente. As imagens são apresentadas em pedaços, que dentro da proposta do cinema sensorial, encorajam o espectador a convocar a imaginação, e completar os fragmentos, agregando memórias sensuais aos vestígios deixados.

Durante o longa, observamos Satã e seu processo de tomada do próprio corpo. Logo após a cartela que carrega o título do filme, bordada em lantejoulas onde se lê “Madame Satã”, estamos em um cabaré. Homens bem penteados e becados parecem ignorar o número sensual de Vitória, mulher branca, loira, bem maquiada de meia idade, que declama o famoso conto árabe das Mil e Uma Noites.

Satã acompanha com prazer a performance de Vitória, o texto já decorado indica que ela já viu aquela mesma apresentação uma porção de vezes. Saboreia cada gesto. Sua pele roça e sente as texturas das paredes, dos enfeites e dos tecidos. O toque está visível e audível, as texturas estão próximas à tela, para que o espectador também possa sentir o desejo carnal da personagem.

Os blocos de sequências iniciais se alternam entre convívio social de Satã no cabaré, e nas ruas escuras e bares da Lapa, Rio de Janeiro. No primeiro ambiente, Satã se relaciona diretamente com Vitória, a quem ele se dirige com respeito e admiração; e também o patrão. Na Lapa, Satã estará entre aqueles que ela mesma elegeu como sua família: Laurita, prostituta, amiga, e esposa; a filha de Laurita, Firmina; Tabu, amigo e cúmplice, e Renatinho, o amante.

Quando no cabaré, assistimos uma Madame Satã contida, subserviente e de fala mansa, que se abaixa para dar ouvidos à Vitória sentada no camarim. Vitória mal a olha nos olhos, e esnoba seus elogios. Para Vitória apenas interessa as mãos que a servem. Este parece ser um ambiente hostil para Satã, e seu portar refreado denuncia que ela o sabe.

Em casa e nos bares que frequenta na Lapa, bairro onde vive, Satã é o macho, bravo, cafetão, protetor, autoritário e chefe de família. Conhecido pelos golpes de capoeira, e por não levar desaforos para casa. Ela vive duas personalidades, ambas as performances ainda utilizadas com a finalidade de proteção do próprio ser.

No cabaré Satã existe por um desejo. Nos diálogos está explicitado que ali ela não está pelo dinheiro, mas fascinada pelo micro espetáculo que é realizado todas as noites, há dois anos, por Vitória. As roupas e o brilho, os gestos delicados, o tom suave da voz, e a maquiagem, tudo encanta. E quando resolve externar o desejo, e veste o figurino da apresentação da patroa, amolece os gestos e o tom de voz, é que as relações de poder são escancaradas. Vitória irrita-se ao ver Satã em suas roupas e se vale de injúrias raciais para constrangê-la. Não seria muito atrevimento este preto querer ser artista? Ele só pode ser doido! E nesse movimento de opressor versus oprimida, que Satã se rebela. Seu corpo parece lhe impor uma existência submissa, a qual ela não pretende aderir. E se nascer preto é estar destinado à senzala e à inferioridade, e subverter a tal realidade imposta é levar uma vida marginalizada, e passível de castigos, então é a esta segunda alternativa a qual Satã vai se agarrar. “[…] nasci para ter vida de malandro, e vou levar é rasgada!”[1].

No filme de Karim Aïnouz, o espectador assiste ao momento exato em que Satã decide tomar para si por direito seu próprio corpo.

Em outra passagem do filme, na entrada do clube bacanudo “High Life”, Satã é barrada: vagabundo não entra! Episódio que faz Satã questionar se há este nome escrito em sua testa: Vagabundo. Ora, o que a torna um “vagabundo” aos olhos de outro? Quais são as características impressas no corpo de um vagabundo? O silêncio posterior da personagem no caminho de volta para casa, em sequência a revolta e o diálogo com Laurita, onde ela questiona as atitudes de Satã, ao que Satã responde que gostaria de se “endireitar”. Este é o onde acredito que a personagem toma consciência de seu próprio corpo. O conjunto de uma vida de injúrias, onde ela percebe que o seu corpo a condena. Mas aqui, Satã ainda é puro caos e não sabe o que fazer agora que descobriu que está nesse corpo. O que é “se endireitar”?

Satã se deixa prender injustamente. Como redenção, na tentativa de conter o “bicho” que habita dentro dela.

Anos depois, em liberdade, ela ainda parece presa. Contida embaixo do blazer e do cabelo bem escovado, permanece o corpo rebelde. Satã sabe que seu corpo existe, e que lhe pertence, e o fato de existir em evidência é uma afronta.

As coisas parecem as mesmas. Laurita e Tabu ainda vivem na mesma casa. Laurita, porém, é mensageira da novidade que abala Satã: a morte de seu amado, Renatinho.  A notícia da morte do amante enche Satã de vida. Buscando tomar para si seu próprio corpo, é que Satã põe em evidência tudo o que a torna abjeto socialmente. Veste o traje social do ridículo, viado, bicha e chupa-rola. A plenitude do ser que nasce com a subversão, com o rompimento da necessidade de aceitação social. Aquele corpo a pertence, e sua condição marginal imposta será celebrada.

Satã se agarra a sua primeira oportunidade, e graças a sua sagacidade adquirida, e os bons amigos, nasce “Madame Satã” nos palcos dos bares da Lapa.

“Vivia na maravilhosa China um bicho tubarão, bruto e cruel, que mordia tudo, e virava tudo em carvão. Pra acalmar a fera, os chinês fazia todo dia uma oferenda com sete gato maracajá que ele mordia antes do pôr do sol. No ímpeto de por fim a tal ciclo de barbaridades chegou Jamacy, uma entidade da floresta da Tijuca. Ela corria pelos matos e avoava pelos morro. E Jamacy virou uma onça dourada, de jeito macio, de gosto delicioso(grrr) e começou a brigar com o tubarão, por 1001 noites. No final, a gloriosa Jamacy e o furioso tubarão já estavam tão machucados que ninguém sabia mais quem era um,  quem era outro. E assim, eles viraram uma coisa só: a Mulata do Balacochê”[2]. João recita os versos em um momento chave do longa, segundos antes de subir ao palco para sua primeira apresentação. Seguro, erótico, e selvagem. Senhor de seu corpo, e disposto a leva-lo até a última consequência de sua existência.

A narrativa recitada em cena pela personagem captura e revela sua própria trajetória e seu embate interno, entre o lutador, em constante movimento e rebelião, apontado por Laurita como homem de atitudes semelhantes a bicho e um devir feminino, gracioso de voz mansa. Ele transitava entre a leveza e a rigidez de seu corpo.

Satã celebra seu corpo no palco, pintado e reluzente. Tudo nela goza em liberdade. Seus cabelos, seus movimentos corporais, sua voz e seus desejos. Aqui o cineasta exibe sua afeição e curiosidade por esse corpo. A câmera nos traz o suor, as rugas em sentidas expressões faciais, o foco que trabalha em função do corpo, em se perder e revelar. Tudo visto de muito perto, ao alcance do toque dos olhos do espectador.

O corpo do espectador é convidado ao arrebatamento de sensações, através de intensidades que transbordam dos sujeitos filmados. Em Madame Satã, o espectador antes que possa notar, se vê envolvido carnalmente na dança, independente da orientação sexual que norteia seu desejo.

De alguma maneira essa sensorialidade existente no filme de Karim, alinhada à narrativa guiada por esse corpo em processo de tomada de consciência existencial no mundo, proporciona ao espectador uma experiência carnal e erótica ao acompanhar o cotidiano de Madame Satã. A obra convida o espectador a experimentar ou minimamente compartilhar a sensação de consciência do próprio corpo.


[1] Trecho extraído do diálogo da personagem durante o filme de Karim Aïnouz.

[2] Trecho extraído do texto do filme de Karim Aïnouz, Madame Satã, pela Professora Geisa Rodrigues do Departamento de Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense. Madame Satã: A voz do corpo negro, teve publicação na Revista Universitária do Audiovisual, da mesma universidade em 2009.

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Críticas

Fragmentos de Batalha

Os Primeiros Soldados (Rodrigo de Oliveira, 2021)

XX

“…o soldado pensava que os primeiros sofrem de uma coragem de que ninguém nunca vai lembrar.”

Se narrar é costurar fragmentos, que tecido é esse que Os Primeiros Soldados tão intimamente tece em sua trama? Como transformar em narrativa cinematográfica uma história (ainda) não conhecida a respeito dos corpos afetados pela AIDS nos anos iniciais da crise da doença no Brasil? 

As imagens nos encaram de volta, versáteis em textura e formato, afirmando sua existência enquanto construção/fabulação de uma memória silenciada, seja através de uma feição emudecida atrás da fumaça de um cigarro, ou do seio de uma travesti exibido orgulhosamente em via pública.

XXIV

“Mente pra mim.”

Há uma frágil linha que separa estes gestos: atuar e mentir. Não é necessário estudar artes cênicas para se tornar um mentiroso, mas alguma noção de cena, sobretudo no que diz respeito aos mecanismos persuasivos do gesto e da fala, pode transformar qualquer mentira em manchete de jornal.

Não há mentira em Os Primeiros Soldados. Há invenção — no ritmo dos gestos e olhares de Suzano, na composição da imagem que alude a trincheiras e prisões no hospital da cidade ou no modo como os corpos se tocam levemente enquanto compartilham de um cigarro. Mas há também um desejo por reinvenção, seja explicitamente, como quando o coro melancólico de uma canção se converte em um trocadilho divertido às vésperas da meia-noite do réveillon de 83, ou de modo mais sutil, como na delicada reconstrução de outra época, conturbada e assustadora para a população LGBT no Brasil e no mundo.

Na voz de Rose, entretanto, mentir é reimaginar possibilidades de futuro, porque nesse contexto (re)imaginado pelo ato de “fazer cinema”, até mesmo a morte pode ser reconfigurada — ao ponto de caber em duas caixas de remédio —, seja pela montagem que traz de volta ao filme a personagem de Massaro, ou pela própria textura alterada da imagem que, quando convertida em VHS, nos aproxima definitivamente daqueles corpos que, outrora desaparecidos, persistem vivos.

XIX

“…se essa praga é gay, a mãe dela é travesti!”

Renata Carvalho performa a própria vida. Um corpo travesti. Uma “corpa”, como diria Castiel Vitorino Brasileiro. Tão dona da própria palavra quanto das minúcias que compõem sua personagem — fragmentos de si mesma. Renata e Rose coabitam o mesmo corpo e entregam-se uma para a outra, em uma relação simbiótica que transgride os limites do plano cinematográfico e retribui o olhar de quem a observa. Uma existência que atravessa a superfície da imagem, seja cantando sobre um palco de boate ou quando nos encara de volta em um monólogo que se converte em diálogo com a câmera que, percebendo a dureza do semblante cansado de mulher, permite ser atravessada. 

Aqui, a travesti é a mãe de todas as imagens.

VII

“…eles tentam nos matar desde que o mundo é mundo, é isso o que eles fazem; e o que a gente faz é sobreviver sendo linda”

Para sobreviver em um mundo que trabalha incansavelmente pelo seu apagamento enquanto indivíduo, faz-se necessário roubar o controle de sua própria narrativa. 

Nas cenas-dentro-da-cena, na boate, ainda não se pode prever, mas a concepção das imagens em breve se reorganizará: Rose, Suzano e Humberto assumem, com identidade e linguagem próprias, a coautoria de sua própria história — um filme dentro do filme. Sobrevive-se, então, nessas imagens que atravessam outras imagens. 

Entre a inevitabilidade da morte e o desejo de manter-se vivo, Os Primeiros Soldados decide-se por “sobreviver sendo linda”. Pois se nos tentam matar desde que o mundo é mundo, nossa resposta está nos mínimos gestos de cada uma dessas personagens. A cada novo beijo apaixonado, sempre antecedido por um flerte delicioso (esse desejo de vislumbrar a própria vida refletida no olhar do outro), instaura-se uma declaração: entre beijos, baladas e fogos de artifício, permaneceremos vivas.

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Editoriais Vol. 02 - Nº 04 - 2021

EDITORIAL: Listas de um ano sem fim

Para o ano que vem, se este acabar, esta revista pretende fazer muitas coisas. São tantos planos… O que esperávamos de 2021 pode ter acontecido, mas a impressão que temos é que esse ano sequer começou. 2020 nunca acaba. A pandemia é um ano só, um período, um momento, uma era.

Mas façamos nossas listas para os dias vindouros, listas de vontades, planos e desejos, ainda que alguns pesadelos recorrentes queiram cegar nossa visão de futuro, nossa projeção de Brasil e de mundo, e nossa esperança por dias melhores.

Tudo passa, e tomara que todos os males que nos rodeiam (e nos governam) sejam derrubados e fracassem, que tombem magistralmente do alto de seus paus pequenos. Que nosso futuro doa neles o que dói, agora, em nós, este presente.

E enquanto não vem o novo e imaginamos/construímos futuros possíveis e impossíveis, observamos o presente e o passado para formular outras listas: o que, enquanto imagem, nos atravessou nesse(s) ano(s) que nunca termina(m)?

Em sua primeira contribuição para a Reimagem, Erly Vieira Jr. traça um panorama de curtas-metragens realizados no Brasil em 2020 e 2021, com direito a bônus de dois longas importantíssimos, para pensar os futuros caminhos do audiovisual nacional. Gustavo Guilherme da Conceição elenca 11 produções nacionais e internacionais recentes que, de alguma maneira, conversam entre si em uma busca pelo direito à memória, à resistência e à vida. Waldir Segundo aposta em uma lista mais direta e comercial que observa tanto filmes e séries como jogos e outros projetos audiovisuais realizadas em 2021. PH Martins, em seu trajeto de textos didáticos sobre questões técnicas fundamentais ao cinema, entrega uma lista de músicas dos Racionais MC’s que poderiam facilmente ser parte de uma aula de roteiro cinematográfico. Por fim, os integrantes do podcast Terrorias da Conspiração elencam filmes, séries e videoclipes baseados, inspirados ou totalmente entregues ao terror.

São cinco listas que olham para esses dois últimos anos como se fossem um, apontando para produções que, de alguma forma, podem resistir a tudo isso e nos acompanhar no caminho que pretendemos trilhar de aqui para adiante.

Feliz depois-do-fim-do-mundo.

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Vol. 02 - Nº 04 - 2021

Os monstros, os medos (ou uma lista menos terrível que a realidade)

Em 2021, como parte integrante da nossa terceira edição, lançamos o podcast Terrorias da Conspiração, um programa bem humorado, dedicado aos filmes e séries de horror, onde a ideia central era refletir de modo leve sobre questões como vida e morte, céu e inferno, a fé e a religiosidade, e tantos outros temas comuns abordados pelo terror desde seus primeiros passos dentro da história do audiovisual. Estamos em hiato, reformulando ideias enquanto nos dedicamos a outro projeto.

Esta lista, em consonância com a proposta da atual edição, propõe enxergar dois anos em um: o ano da pandemia, do isolamento, da solidão forçada, no Brasil, por dois vírus: aquele que conhecemos como Covid-19, e o que provavelmente será lembrado como o pior governante brasileiro, o presidente Bolsonaro, cuja necropolítica fez brotar em nosso povo, em plena crise sanitária mundial, uma sensação de insegurança e desespero muito mais assustadora que a provocada por qualquer filme de terror já feito.

Formular uma lista que elenque (e indique, de certa forma) filmes/séries e outros produtos audiovisuais calcados no gênero pode parecer um gesto contraditório nesses tempos cabulosos, mas o fato é que alguns monstros e medos criados pela ficção, ultimamente, tem se tornado menos terríveis – e às vezes até mais agradáveis de se olhar – que os monstros e medos da vida real. Utilizar dessas expressões como refúgio da realidade assombrosa que vivemos – e que ainda tem um resto de caminho penoso em 2022 – foi e é, para muitos de nós, a única maneira de seguir em frente numa realidade de tantos absurdos evitáveis.

Eis nossa contribuição para este volume que a Reimagem nos propõe no fim desse tão cansado de… 2020? 2021?

Sem ordem de preferência, eis a lista:

Midnight Mass (Mike Flanagan, 2021)

Minissérie completa disponível no serviço de streaming Netflix.

In Your Eyes (The Weeknd, 2020) 

https://www.youtube.com/watch?v=dqRZDebPIGs

The Night House (David Bruckner, 2021)

Malignant (James Wan, 2021)

Filme disponível no serviço de streaming HBOMax

Censor (Prano Bailey-Bond, 2021)

Relic (Natalie Erika James, 2020)

Menarca (Lillah Halla, 2020)

A Queda (Gloria Groove, 2021)

https://www.youtube.com/watch?v=BpxrvcYDnf4

 Sound of violence (Alex Noyer, 2021)

Fear Street (Leigh Janiak, 2021)

A trilogia está disponível integralmente no serviço de streaming Netflix.

Lovecraft Country (Misha Green, 2020)

Primeira temporada completa no serviço de streaming HBOMax.

Tapuru (Getúlio Abelha, 2021)

https://www.youtube.com/watch?v=NERqu-p2NQQ

Chucky (Don Mancini, 2021)

Série distribuída no Brasil pelo serviço de streaming STAR+

Old (M. Night Shyamalan, 2021)

Nem um Pouquinho (Duda Beat, 2021)

https://www.youtube.com/watch?v=qGZgSnJBilE

Menção desonrosa (ou menção horrorosa)

Assim como tudo nessa vida não passa de uma grande piada horrorosa, o Terrorias da Conspiração segue essa filosofia e, para ilustrar toda essa (des)graça, separamos esta seção da lista para nossas Menções Horrorosas, que vão para: Oxygen (Alexandre Aja, 2021); Host (Rob Savage, 2020); os dois filmes baseados no crime Richthofen (O Menino/A Menina que Matou meus/os Pais) e a série Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado, ambos da Amazon Prime Video (2021).

Essa lista foi elaborada por integrantes (reais ou imaginários) do podcast Terrorias da Conspiração. Você pode discordar, mas não pode nos matar. Afinal, já estamos todxs mortxs.

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Vol. 02 - Nº 04 - 2021

Para além do “pandêmico”

Dois mil e vinte nunca acabou. Dois anos em um. Até agora. “A Pandemia”: assim chamamos um período inteiro de caos na saúde pública regido por um (des)governo inegavelmente irresponsável. Adotamos um adjetivo e até o utilizamos para nomear alguns projetos, algumas ideias: “pandêmico”. 

Nesse momento conturbado, porém, muita gente produziu filmes, séries, videoclipes, vídeos ensaios, webséries e toda uma complexidade de registros audiovisuais muito diversa, boa parte a fim de capturar alguma coisa desse período específico. Isolados, aqui ou em qualquer parte do mundo, produzimos como nunca e, produzindo, dissemos (ou não) muitas coisas.

Penso que, nesse instante interminável, um tema nos sobrevoa. Falamos de vivências e de morte, de lutas e resistências; destruímos e (re)construímos imagens com nossos corpos, com nossas dores, com nossas angústias e, também, com mistérios que redesenham e/ou redescobrem imaginários, que fabulam sobre passados, presentes e futuros (im)possíveis.

Somos, portanto, talvez mais do que sempre fomos, agentes de memória. Eis nosso tema “pandêmico” por excelência. A memória do que fomos e do que estamos sendo e do que poderemos ser em um futuro próximo.

Sobre as imagens que, nesse tempo, tecemos em tela, pode-se dizer então que costuramos um memorial atemporal. Afirmamos a vida através de nossos corpos, filmamos nosso cotidiano mais banal, ou nosso desejo mais abissal, nossas insignificâncias e nossos atravessamentos. Em nossos corpos traspassados, renegados, marginalizados, traçamos velhos e novos imaginários. Repudiamos um país que nos agride e inventamos outras pátrias, outros mundos, outros universos, outros futuros. Revisitamos ruínas e perscrutamos escombros, escavando e redescobrindo histórias que, um dia, foram roubadas de nossos ancestrais. Sobrevivemos e vivemos… e como vivemos! Ressuscitamos nossos mortos, viajamos no tempo e através dos espaços, sobretudo desses espaços espúrios que nos reservaram, adentramos suas portas e derrubamos suas paredes com a violência das nossas imagens-memórias, porque esse registro memorial não se detém aos limites impostos, não necessita de máscaras e obstáculos; tudo quer e pode ser visto.

É sob o prisma deste registro desmedido da memória e do direito à memória que penso essa lista, não numerada e sem ordem de preferência, desejoso que ela se encontre – e seja encontrada – em um território capaz de observá-la com algum carinho, sabendo que essa lista/memorial não se contenta em ser “pandêmica”, apesar do tempo em que foi construída. Uma lista de filmes e séries deste tempo, deste agora interminável, mas que também inventa outros tempos (ontens, hojes, amanhãs):

Uma Noite Sem Lua (Castiel Vitorino Brasileiro, 2020)

Pode ser visto aqui: https://telatrans.com.br/filme/uma-noite-sem-lua/

Voltei! (Ary Rosa e Glenda Nicácio, 2020)

Inabitável (Enock Carvalho e Matheus Farias, 2020)

Petite Maman (Céline Sciama, 2021)

Manhãs de Setembro (Luis Pinheiro e Dainara Toffoli, 2021)

Primeira temporada disponível no serviço de streaming Prime Video.

Madres Paralelas (Pedro Almodóvar, 2021)

The Underground Railroad: Os Caminhos para a Liberdade (Barry Jenkis, 2021)

Série completa disponível no serviço de streaming Prime Video.

Memória (Apichatpong Weerasethakul, 2021)

Noche de Fuego (Tatiana Huezo, 2021)

República (Grace Passô, 2020)

Pode ser visto aqui: https://vimeo.com/423769303

Crash (Juçara Marçal, 2021)

https://www.youtube.com/watch?v=zhgmtLuEJq0
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Vol. 02 - Nº 04 - 2021

Racionais MC’s e o Roteiro Cinematográfico

Felizmente, descobri os Racionais MC’s bem cedo na vida. Negro Drama. Isso na adolescência, um menino da roça, cidade pequena, zero conhecimento de mundo ou de seus problemas mais cruciais. Então, a música batia mais pelo ritmo e pela raiva cantada do que pelo que estava sendo dito. Mas batia, ainda assim. 

Uma faculdade de cinema depois, ouço Racionais todos os dias. Me tornei um ouvinte assíduo nos últimos três anos, agora sim pelo que se dizia nas letras, pela forma com que se dizia, e pelo ritmo, pelas histórias…

Sou um roteirista aspirante, de alguma forma estudioso do roteiro cinematográfico e de suas teorias. Talvez por isso tenha percebido outra coisa em relação às músicas do grupo: algumas delas são puro cinema, roteiros perfeitos de tramas bem elaboradas e bem contadas. Se o roteiro de cinema é um modo de (d)escrever ações e imagens e saber selecionar tanto as partes tensas quanto amenas de uma vida para construir uma trama, então os Racionais, além de músicos, são cineastas.

Por isso apresento esta lista. Vou escrever, brevemente, sobre cinco músicas dos Racionais MC’s que deveriam ser usadas como estudo de roteiro cinematográfico. 

Então, vamos lá:

5 – Eu Sou 157

No livro “Sobrevivendo no Inferno”, que junta as letras do álbum de mesmo nome dos Racionais, há um prefácio escrito por Acauam Silverio de Oliveira onde o autor analisa toda a obra do grupo e pontua as mudanças de estilo com o passar do tempo. A parte mais interessante para mim é quando Acauam mostra que, nas primeiras músicas, o discurso falava dos problemas da favela com uma visão soberba, colocando as soluções diante dos olhos dos moradores das comunidades e julgando o fato de que eles não as viam. A partir de Sobrevivendo no Inferno isso muda. Toda a problemática agora é tratada de forma respeitosa, mesmo com as coisas mais violentas. A intenção não é mostrar para o restante da sociedade a vivência da favela, isso a MPB tentou fazer. O que os Racionais queriam e ainda querem é olhar para dentro e fortalecer a própria favela. Por isso, a mudança de postura.

Dentro disso se encontra Eu Sou 157, do álbum Nada Como Um Dia Após o Outro Dia. Aqui, Mano Brown conta um pouco da cabeça de um rapaz que já está completamente enraizado no crime. Na segunda estrofe, é apresentada uma situação que mostra essas raízes, em que o personagem é abordado por um outro homem querendo se enturmar, falando gíria, falando de drog…. Ele analisa essa pessoa, fala dos seus modos, de como chegou ali, e no fim descobre que era um policial sob disfarce. Sua experiência possibilitou esse reconhecimento e essa fuga. 

A música segue contando seus pensamentos internos até que surge um trabalho a fazer, um assalto planejado. Mas o crime dá errado, alguém os caguetou e um moleque morre. Então, vem a estrofe: 

O neguinho vinha vindo, do que vinha rindo?
O pesadelo do sistema não tem medo da morte
Dobrou o joelho e caiu como um homem
Na giratória, abraçado com o malote
Eu falei, porra! Eu não te falei?! Não ia dar!
Pra mãe dele, quem que vai falar, quando nóis chegar?
Um filho pra criar, imagina a notícia
Lamentável, vamo aí, vai chover de polícia

Em seguida, a música faz uma digressão. Por alguns segundos o beat para, ouvimos o som de uma televisão e de uma mulher chorando em desespero. É a mãe do menino morto. No meio da ação, Brown faz uma vírgula para contar brevemente sobre outra linha narrativa. E só precisa de um choro para isso.

Depois, outra estrofe, seguida do refrão:

A vida é sofrida, mas não vou chorar
Viver de quê? Eu vou me humilhar?
É tudo uma questão de conhecer o lugar
Quanto tem, quanto vem e a minha parte, quanto dá porque…

Hoje eu sou ladrão, artigo 157
As cachorra me ama, os playboy se derrete
Hoje eu sou ladrão, artigo 157
A polícia bola um plano, sou herói dos pivete

Foi triste, foi sofrido, mas essa é a vida dessa personagem. Agora, e o dinheiro? É o fim perfeito.

4 – Capítulo 4, Versículo 3

A terceira faixa de Sobrevivendo no Inferno é uma das maiores canções da história da música brasileira. Ela abre exatamente com o discurso que citei acima. Não adianta falar da criminalidade, da pobreza e da fome como se a solução fosse fácil. Ela não é. E se há um lugar por onde começar a encontrá-la, esse lugar não está fora da favela, não está em Brasília. Está dentro da própria comunidade. Esse trecho famoso fala exatamente sobre isso: 

Colou dois mano, um acenou pra mim
De jaco de cetim, de tênis, calça jeans
Ei, Brown, sai fora, nem vai, nem cola
Não vale a pena dar ideia nesse tipo aí
Ontem à noite eu vi na beira do asfalto
Tragando a morte, soprando a vida pro alto
Ó os cara, só o pó, pele e osso
No fundo do poço, mó flagrante no bolso
Veja bem, ninguém é mais que ninguém
Veja bem, veja bem, e eles são nossos irmãos também
Mas de cocaína e crack, uísque e conhaque
Os mano morre rapidinho, sem lugar de destaque
Mas quem sou eu pra falar de quem cheira ou quem fuma?
Nem dá, nunca te dei porra nenhuma

Por isso, Capítulo 4, Versículo 3 funciona como essa grande reflexão, intercalando diálogos internos com histórias pontuais. Funciona como Magnólia, do Paul Thomas Anderson, ou Amores Brutos, do Alejandro González Iñarritu. 

Em seguida, segue a história de vários anos de um personagem que foi do céu ao inferno. 

Em poucas linhas, os Racionais falam da vitória e da desgraça, falam de todos os problemas que esse personagem passou ao mesmo tempo em que também falam de questões “menores”. E isso é roteiro, saber fazer perceber, às vezes, que o que vemos de um personagem também pode ser algo que já se deu anteriormente, ou que vai se repetir no futuro. O que diz muito sobre tal personagem. O pulo do gato, no entanto, é saber contar isso sem soar artificial:

Você vai terminar tipo o outro mano lá
Que era um preto tipo A, ninguém tava numa
Mó estilo de calça Calvin Klein, tênis Puma, é
Um jeito humilde de ser, no trampo e no rolê
Curtia um Funk, jogava uma bola
Buscava a preta dele no portão da escola
Exemplo pra nós, mó moral, mó Ibope
Mas começou a colar com os branquinho do shopping (aí já era)
Ih, mano, outra vida, outro pique
Só mina de elite, balada, vários drinques
Puta de boutique, toda aquela porra
Sexo sem limite, Sodoma e Gomorra
Faz uns nove anos
Tem uns quinze dias atrás eu vi o mano
Cê tem que ver, pedindo cigarro pros tiozinho no ponto
Dente tudo zuado, bolso sem nenhum conto
O cara cheira mal, as tias sentem medo
Muito loco de sei lá o quê, logo cedo
Agora não oferece mais perigo
Viciado, doente, fudido, inofensivo

3 – Jesus Chorou

Talvez eu vá longe demais agora, mas a introdução de Jesus Chorou, também do Nada Como Dia Após o Outro Dia me lembra a introdução de Persona, do Ingmar Bergman. Persona é um dos maiores filmes de todos os tempos e sua primeira sequência, da primeira vez em que se vê, parece completamente deslocada do resto do filme. Ela mostra diversas imagens de arquivo até chegar no quarto onde uma criança dorme. Essa criança acorda e vê, numa tela, talvez a mesma tela em que as imagens de arquivo estavam passando, o rosto da personagem de Liv Ulmann, Elisabet. Há algumas teorias sobre essa introdução de Bergman, a principal delas é que essa criança é uma representação do filho de Elisabet, que (ela mesma é quem conta) ela não foi capaz de criar.

A primeira estrofe de Jesus Chorou é uma reflexão sobre a angústia, e faz isso ao falar sobre a lágrima:

O que é, o que é?
Clara e salgada,
Cabe em um olho e pesa uma tonelada
Tem sabor de mar,
Pode ser discreta
Inquilina da dor,
Morada predileta
Na calada ela vem,
Refém da vingança,
Irmã do desespero,
Rival da esperança
Pode ser causada por vermes e mundanas
E o espinho da flor,
Cruel que você ama
Amante do drama,
Vem pra minha cama,
Por querer, sem me perguntar me fez sofrer
E eu que me julguei forte,
E eu que me senti,
Serei um fraco quando outras delas vir
Se o barato é louco e o processo é lento,
No momento,
Deixa eu caminhar contra o vento
Do que adianta eu ser durão e o coração ser vulnerável?
O vento não, ele é suave, mas é frio e implacável
(E quente) Borrou a letra triste do poeta
(Só) Correu no rosto pardo do profeta
Verme sai da reta,
A lágrima de um homem vai cair,
Esse é o seu BO pra eternidade
Diz que homem não chora,
Tá bom, falou,
Não vai pra grupo irmão aí,
Jesus chorou!

Eu entendo Jesus Chorou como uma das músicas mais pessoais de Mano Brown, e também vejo nela uma ligação com o momento que os Racionais viviam, o da fama absoluta. 

Depois dessa introdução, a música segue contando de um personagem que é acordado por uma ligação. Um amigo lhe conta de um encontro que teve ontem com um cara que começou a falar que esse personagem era uma pessoa mesquinha e que não se importava com os seus (seus manos da favela), depois que ficou bem de vida. Ela funciona como um longo diálogo interno, o personagem não está psicologicamente bem de saúde. A música não conta uma história completa como as outras que já apresentei, mas gosto como ela apresenta angústias, medos e pensamentos do personagem. Como neste trecho: 

Vermelho e azul, “Hotel”, pisca só no,
Cinza escuro do céu
Chuva cai lá fora e aumenta o ritmo,
Sozinho eu sou agora o meu inimigo íntimo
Lembranças más vem, pensamentos bons vai,
Me ajude, sozinho penso merda pra caralho
Gente que acredito, gosto e admiro,
Brigava por justiça e paz levou tiro:
Malcom X, Ghandi, Lennon, Marvin Gaye,
Che Guevara, 2Pac, Bob Marley e
O evangélico Martin Luther King
Lembrei de um truta meu falar assim:
“Não joga pérolas aos porcos irmão,
Joga lavagem eles prefere assim,
‘Cê tem de usar piolhagem!”

Então, o personagem foge um pouco da situação que lhe tirou da zona de conforto e conta sobre outra coisa que lhe tira o sono. Expõe que pode estar pensando em coisas muito ruins, como o suicídio. 

Jesus Chorou é uma aula de como mostrar problemas internos de uma personagem de várias formas diferentes, sendo que elas estão interligadas. E isso traz o sentimento e a veracidade, coisas essenciais para um roteiro ser triunfante na hora de contar sua história.

2 – Diário de um Detento

Essa é clássica e fácil de colocar numa lista como esta. Aliás, Diário de um Detento já é filme. Carandiru, de Héctor Babenco, é uma adaptação do livro de Dráusio Varella, mas também está intrinsecamente ligado à música dos Racionais.

Escrita por Mano Brown junto de um detento que sobreviveu ao massacre do Carandiru, Jocenir, a história da música se passa em 3 dias. Um antes do massacre, o massacre em si e o dia seguinte a ele. É um roteiro clássico. Há a apresentação dos vários elementos que constituem a história já no primeiro ato:

[…]
Na muralha, em pé, mais um cidadão José
Servindo o Estado, um PM bom
Passa fome, metido a Charles Bronson
Ele sabe o que eu desejo
Sabe o que eu penso
O dia ‘tá chuvoso o clima ‘tá tenso
Vários tentaram fugir, eu também quero
Mas de um a cem, a minha chance é zero
[…]
Tirei um dia a menos ou um dia a mais, sei lá
Tanto faz, os dias são iguais
Acendo um cigarro, e vejo o dia passar
Mato o tempo pra ele não me matar
Homem é homem, mulher é mulher
Estuprador é diferente, né?
Toma soco toda hora, ajoelha e beija os pés
E sangra até morrer na rua 10
Cada detento uma mãe, uma crença
Cada crime uma sentença
Cada sentença um motivo, uma história de lágrima
Sangue, vidas e glórias, abandono, miséria, ódio
Sofrimento, desprezo, desilusão, ação do tempo
Misture bem essa química
Pronto, eis um novo detento

Temos a virada do primeiro para o segundo ato (antes de um grande momento de reflexão sobre o que é ser um presidiário):

[…]
Amanheceu com sol, dois de outubro
Tudo funcionando, limpeza, jumbo
De madrugada eu senti um calafrio
Não era do vento, não era do frio
Acertos de conta tem quase todo dia
Tem outra logo mais, eu sabia
Lealdade é o que todo preso tenta
Conseguir a paz, de forma violenta
Se um salafrário sacanear alguém
Leva ponto na cara igual Frankestein
Fumaça na janela, tem fogo na cela
Fudeu, foi além, se pã, tem refém
Na maioria, se deixou envolver
Por uns cinco ou seis que não têm nada a perder
Dois ladrões considerados passaram a discutir
Mas não imaginavam o que estaria por vir

O segundo ato, no caso, é todo o massacre. Para então chegar ao ato final, aqui descrito em 4 versos:

[…]
Ratatatá, Fleury e sua gangue
Vão nadar numa piscina de sangue
Mas quem vai acreditar no meu depoimento?
Dia 3 de Outubro, diário de um detento

Se eu fosse professor de roteiro (algo que tenho desejo, confesso), proporia o seguinte exercício aos alunos: “tente escrever três dias de um personagem, vamos ver em quantas páginas você faz isso. Esses dias precisam ter conflitos, ideias, e a premissa precisa estar presente”.

Óbvio, um roteiro não tem a duração de uma música, mas é inegável a habilidade dos Racionais MC’s em falar muito com poucas palavras e tudo ainda fazer sentido. 

1 – Tô Ouvindo Alguém Me Chamar

Essa, para mim, é a melhor música do grupo e a maior e melhor canção da música brasileira. Ainda não ouvi nada que tivesse a complexidade narrativa de Tô Ouvindo Alguém Me Chamar. Ela valeria um texto só, e eu ainda devo algum dia esboçar algo assim. 

A música conta sobre dois amigos de vida e de crime. O principal é quem narra, o outro é o Guina, um ladrão conhecido, violento, temido. Ela vai e vem no tempo, faz digressões psicológicas no meio de cenas importantíssimas, que contam mais sobre os personagens, reforçam características ou justificam ações. Tudo isso em 8 minutos de música.

O Guina, como falei, é apontado como alguém a se ter medo:

[…]
Todo ponta firme, foi professor no crime
Também mó sangue frio, não dava boi pra ninguém
[…]
O Guina não tinha dó:
Se reagir, Bum!, vira pó
[…]
Eu tava bem de perto e acertei uns seis
O Guina foi e deu mais três

Logo depois desse último trecho, Brown entra com a história do Guina, começando da sua infância, passando pela adolescência e chegando na vida adulta. Ele conta de possíveis ações que o fizeram ficar assim. E ainda fala um pouco do destino de todos da favela, de como a vida acaba sendo muito cruel mesmo com quem consegue expressar suas potências:

[…]
Lembro que um dia o Guina me falou
Que não sabia bem o que era amor
Falava quando era criança
Uma mistura de ódio, frustração e dor
De como era humilhante ir pra escola
Usando a roupa dada de esmola
De ter um pai inútil, digno de dó
Mais um bêbado, filho da puta e só
Sempre a mesma merda, todo dia igual
Sem feliz aniversário, Páscoa ou Natal
Longe dos cadernos, bem depois
A primeira mulher e o 22
Prestou vestibular no assalto do busão
Numa agência bancária se formou ladrão
Não, não se sente mais inferior
Aí neguinho, agora eu tenho o meu valor
Guina, eu tinha mó admiração, ó
Considerava mais do que meu próprio irmão, ó
Ele tinha um certo dom pra comandar
Tipo, linha de frente em qualquer lugar
Tipo, condição de ocupar um cargo bom e tal
Talvez em uma multinacional
É foda…
Pensando bem que desperdício
Aqui na área acontece muito disso
Inteligência e personalidade
Mofando atrás da porra de uma grade
A outra digressão é composta de apenas uma linha. 

O personagem principal fala muito de sua família, de como saiu de casa e, principalmente, da relação com seu irmão, um cara que não foi para o crime, que conseguiu estudar e formar uma família. Sentimos muita angústia do personagem ao contar essa histórias, até porque a música, no fim, é sobre seu desejo de viver tranquilamente. Por isso, em um momento, ele reflete sobre os crimes que cometeu e sonha com a própria morte:

[…]
Agora é tarde, eu já não podia mais
Parar com tudo, nem tentar voltar atrás
Mas no fundo, mano, eu sabia
Que essa porra ia zoar a minha vida um dia
Me olhei no espelho e não reconheci
Estava enlouquecendo, não podia mais dormir
Preciso ir até o fim
Será que Deus ainda olha pra mim?
Eu sonho toda madrugada
Com criança chorando e alguém dando risada
Não confiava nem na minha própria sombra
Mas segurava a minha onda
Sonhei que uma mulher me falou, eu não sei o lugar
Que um conhecido meu (quem?) ia me matar
Precisava acalmar a adrenalina
Precisava parar com a cocaína
Não to sentindo meu braço
Nem me mexer da cintura pra baixo
Ninguém na multidão vem me ajudar?
Que sede da porra, eu preciso respirar!
Em seguida ele solta essa frase:
Cadê meu irmão?

Pode não parecer nada, mas para mim isso é um toque de mestre. Isso atesta todo o discurso. A vida lhe puxou até esses acontecimentos, ele teve poucas opções de escolha. E, mesmo nas piores turbulências, o seu desejo de sair desse mundo se resume a essa pergunta. 

Cadê meu irmão? 

Já chorei com essa música algumas vezes. Hoje em dia, sempre que preciso lembrar como uma história deve ser escrita, faço duas coisas: vou ver filmes antigos e/ou escuto Tô Ouvindo Alguém Me Chamar.

Além de entrar em questões de vestibulares pelo país afora, os Racionais MC’s deveriam entrar nos currículos de cinema. Há outros exemplos dentro da discografia dos caras. Há outros exemplos mesmo dentro dessas músicas que apresentei. Trechos e mais trechos que podem contribuir com toda teoria de roteiro cinematográfico que existe. Há filmes clássicos, filmes modernos, planos sequências, flashbacks, sonhos, fantasia… cinema!

Viva os Racionais.

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Vol. 02 - Nº 04 - 2021

2021, um ano plural

Dois mil e vinte e um foi um ano complicado, principalmente de conteúdo. Passamos um ano inteiro com vários adiamentos de diversas formas, as indústrias todas pararam para repensar ou retrabalhar obras pós-Covid. O que pensar? Inserir a pandemia na narrativa das obras audiovisuais ou não? Tivemos exemplos de ambos, mas o resultado é difícil de descrever, o que resultou em um 2021 muito confuso.

Nesse contexto gostaria de comentar um pouco sobre as experiencias audiovisuais que se sobressaíram nessa confusão. Por algum motivo, a safra de cinema foi excelente, principalmente nos melodramas: Obras como  Ataque dos Cães de Jane Campion e Madres Paralelas de Pedro Almodovar chegaram em um destaque incrível, mas no quesito cinema, pra mim, a melhor obra de 2021 foi:

O Último Duelo, de Ridley Scott

©2021 20th Century Studios. All Rights Reserved.

Ridley Scott trabalha muito. Um homem de 84 anos que filma duas megaproduções juntas nessa energia é admirável. Ele filmou The Last Duel e, na sequência, The House of Gucci. Ainda não tive o prazer de ver o segundo, mas The Last Duel é uma das suas melhores obras. Imagine Gladiador, mas com uma atenção melhor ao roteiro e na direção. É complicado discutir mais sobre o filme sem entrar nos tais “spoilers”, mas The Last Duel é a obra máxima de Ridley Scott: conseguimos ver todas as interações de uma direção madura no decorrer do filme, que ainda atiça atuações incríveis de atores que muita gente imagina que não tem mais nada a oferecer, como Matt Damon e Ben Affleck. Infelizmente vai passar em branco nas premiações pois flopou nas bilheterias e foi eclipsado por House of Gucci, mas se você tiver a oportunidade de assistir, não perca tempo.

Pensando em obras eclipsadas, penso agora no meu curta favorito do ano:

Magnético

Magnético, Cassemiro Vitorino e Ilka Goldschmidt

O documentário de Cassemiro Vitorino e Ilka Goldschmidt, quando começa, passa a impressão de ser um mockumentary (documentário falso), sobre uma cidade que sofre de incidentes de agroglifos (marcações nas fazendas, semelhantes ao que rolava no filme Sinais), em cidades do interior de Santa Catarina. Quando você percebe que os relatos são reais e que as pessoas daquelas pequenas cidades estão compartilhando seu novo folclore, o filme cresce imensamente. Pessoas simples compartilhando histórias e a direção sabendo exatamente a linha do que é sério e do que seria considerado como galhofa, caso fosse uma mão mais pesada da direção, faz para mim um dos melhores documentários do ano. Pensar e viabilizar esse storytelling sem pesar no tema de ufologia, que é alvo fácil de chacota em qualquer contexto, não é para qualquer um.

Ainda pensando no contexto espacial, ao meu ver, um dos melhores jogos desse ano foi:

Metroid Dread

Metroid Dread: veja lançamento e gameplay do jogo para Nintendo Switch |  Jogos de ação | TechTudo

Dread, que por algum motivo bizarro nos faz pensar primeiro no corte de cabelo, significa medo ou temor. Metroid é uma franquia que trabalha muito a solidão: em quase todas as instâncias, a protagonista (Samus Aran) é jogada em um planeta desolado, somente com inimigos focados em barrar seu progresso. Nessa jornada solitária, Metroid Dread é o 5º jogo da série e encerra sua cronologia de forma magistral, onde o principal destaque são os EMMIs, que são seres robóticos que te perseguem e te matam em um hit só, diretamente inspirados no filme Alien, onde o xenomorfo é uma força imparável; além disso, o game tem uma das melhores batalhas de chefes do ano.

Impossível não citar também, agora em questão de série:

Chucky (Don Mancini)

O boneco não para! Em sua obsessão de destruir a maior quantidade de vidas possível, agora o vemos atuando em um pequeno subúrbio americano: sua cidade natal. Retornando depois de um arco narrativo de 7 filmes, Chucky agora chega em uma nova linguagem, a de tele-série. Em seus últimos capítulos, as produções cinematográficas se encaminhavam para uma finalização épica que acabou deixando muita coisa em aberto. Transformada em uma narrativa serializada, entretanto, houve espaço para um desenvolvimento maior e mais intrigante do boneco assassino mais famoso do mundo, além da inclusão de novos personagens que só enriqueceram o lore da série, isso sem deixar de mencionar especificamente os novos protagonistas, adolescentes LGBTQIA+, o que espelha uma persona do seu criador, Don Mancini, que vê na identificação algo muito importante para o entretenimento atual. Trazendo personagens queridos de volta (se tem algo que vende bem agora é essa nostalgia), mas dividindo bem o espaço com os novos elementos, Chucky foi uma grata surpresa, principalmente por vir de um canal que tem a fama de exibir produções de baixa qualidade. 

A PLURALIDADE DE 2021

Diversas obras poderiam ser mencionadas nessa lista, como a experiência virtual KID A MNSEIA do Radiohead, que comemora os 20 anos de seus álbuns icônicos em uma exploração audiovisual única dentro dos videogames. Também o esforço de Taylor Swift de regravar e relançar seus álbuns roubados, principalmente o álbum Red , repensando a narrativa do álbum e seus singles e lançando o curta água-com-açúcar de All Too Well.

No cinema, o fantástico não para: obras como Titane (Julia Ducournau) e The Night House (David Bruckner) refletem a dor e a confusão do que foi 2021 para a grande maioria das pessoas.

Se 2022 for tão confuso quanto, que seja nessa qualidade. 

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Vol. 02 - Nº 04 - 2021

20 curtas-metragens: 20 caminhos possíveis para o cinema brasileiro dos próximos anos

Esta seleção surge em meio às safras de 2020 e 2021 (dois anos que para mim foram um único), com obras marcantes, que circularam pelos festivais online durante a pandemia e atingiram públicos bem mais amplos do que as salas exibidoras dos festivais – um momento ímpar na difusão do curta-metragem brasileiro,  e que espero ter sido capaz de proporcionar trocas e questionamentos que gerem frutos interessantes no decorrer desta década.

Temos aqui vinte modos distintos de se compreender e conhecer o Brasil contemporâneo e suas tensões, a partir dos instigantes discursos, estéticas e éticas trazidos pelxs novxs sujeitxs que têm reinventado o audiovisual brasileiro em anos recentes. Nesse conjunto, o curta-metragem traça uma radiografia do momento presente, ao mesmo tempo que aponta possíveis caminhos a serem trilhados, entre necessários fins de mundos (acontecendo e por acontecer) e urgentes fundações de outros, desta vez pautados por uma constelação de imagens mais focadas em libertar do que em reiterar os sempre mesmos traumas e silenciamentos coloniais que ainda abundam no “sagrado” cânone do cinema brasileiro.

República (Grace Passô, 2020)

Pode ser visto aqui: https://ims.com.br/convida/grace-passo/

A Morte Branca do Feiticeiro Negro (Rodrigo Ribeiro, 2020)

A cambonagem e o incêndio inevitável (Castiel Vitorino Brasileiro e Roger Ghil, 2021)

Pode ser visto aqui: https://vimeo.com/572278333

Perifericu (Vita Pereira, Rosa Caldeira, Stheffany Fernanda e Nay Mendl, 2020)

Uma paciência selvagem me trouxe até aqui (Érica Sarmet, 2021)

Inabitável (Enock Carvalho e Matheus Farias, 2020)

Inabitáveis (Anderson Bardot, 2020)

Egum (Yuri Costa, 2020)

Sem título # 7 – Rara (Carlos Adriano, 2021)

Nascente (Safira Moreira, 2020)

Disponível aqui: https://ims.com.br/convida/safira-moreira/

Morde e Assopra (Stanley Albino, 2021)

Usina – Desejo Contra a Indústria do Medo (Amanda Seraphico, Clarissa Ribeiro e Lorran Dias, 2021)

Per Capita (Lia Letícia, 2021)

Ser feliz no vão (Lucas H. Rossi dos Santos, 2020)

Abjetas 288 (Júlia da Costa e Renata Mourão, 2020)

Puxadinho (Fredone, 2020)

Menarca (Lillah Halla, 2020)

Até a data de publicação desta lista, o filme estava disponível na plataforma MUBI.

Sideral (Carlos Segundo, 2021)

4 Bilhões de Infinitos (Marco Antônio Pereira, 2020)

Pode ser visto aqui: https://www.periferica.art/4bilhoesdeinfinitos

A gente acaba aqui (Everlane Moraes, 2021)

Disponível em https://ims.com.br/convida/everlane-moraes/

BONUS TRACKS

Dois longa-metragens fundamentais:

Nuhu yãgmu yõg hãm: essa terra é nossa! (Isael Maxakali, Sueli Maxakali, Carolina Canguçu, Roberto Romero, 2020)

Yãmĩyhex, as mulheres-espírito (Isael Maxakali, Sueli Maxakali, 2019)

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Críticas

Homem-máquina, Máquina-homem

As ranhuras na película da TV usada que compramos há dois anos têm aumentado consideravelmente. O que antes eram só pequenos arranhões que deformavam de leve a imagem proposta pelos pixels, agora, apresentam uma extensa faixa branca que cobre boa parte da tela. De onde vejo, as imagens não são mais as mesmas.

Tem sido uma experiência curiosa a de ver filmes, acompanhar festivais, produzir e estudar cinema nestes tempos de isolamento. É que, em casa, as telas parecem brilhar um tanto mais, convocando uma atenção que nem sempre nos cabe e que, às vezes, nos desatina de nosso foco: um filme passa na tv enquanto engatilho o twitter como se fosse uma extensão de minha percepção. 

Tuíto, logo existo.

Carro Rei foi o primeiro filme que me chamou atenção na programação do 49º Festival de Cinema de Gramado – carros falantes e algum tipo de complô político já eram anunciados no trailer, coisas que têm minha atenção garantida desde muito cedo. Culpa do Carpenter e de sua Christine, que conheci em alguma noite do passado, quando minha atenção ainda se dedicava totalmente aos emissores de luz daquela TV antiga na casa dos meus tios… me encantei pela Christine do Carpenter muito antes de saber que existia uma Christine do King – a literatura viria a ser foco maior da minha atenção na adolescência, quando tudo que me interessava no cinema eram as sequências de terror juvenil americanas pós-Pânico.

Carro Rei começa com uma crônica ágil sobre uma mulher que dá a luz a um menino dentro de um automóvel. Essa criança cresce com o estranho dom de se comunicar com os carros. Carros serão também um negócio de família que o menino precisará levar adiante, mesmo que tenha outros planos de vida. 

Na tela muito arranhada da minha TV, os rostos dos atores se desconfiguram dependendo de sua posição no enquadramento das cenas. Me sinto um tanto traído pelo aparelho, já que não recebo daqui o que o filme me envia de lá. O filme ainda é o mesmo?

Uma vez tocaram saxofone aos pés da minha janela enquanto assistia, pela primeira vez, um dos filmes do Decálogo, do Kieslowski. Era uma serenata para o vizinho. Não Amarás ganhou uma trilha sonora que mais soava como uma sessão do antigo Cine Privé, do canal Bandeirantes, e aquilo mudou para sempre minha percepção a respeito do filme. 

Lembro de ter feito um post sobre isso.

Como daquela vez, o filme que me chega agora parece alterado por condições extra fílmicas. Não só pelo defeito na película da minha TV, mas principalmente pelo modo como as coisas se dão no filme da Renata Pinheiro: a tecnologia como extensão do corpo e da mente humana – ou seria o contrário?

Em Carro Rei, tudo surge com vontade de se assumir simbiótico: do filtro azulado aos nomes das personagens; o nascimento do menino Uno/Ninho e sua capacidade de se comunicar com os carros; a breve e divertida alusão à cena final de Holy Motors; ou o modo como o filme nos apresenta a personagem Mercedes (que, com uma espécie de farol acoplado em sua calcinha, traça um caminho vertical vermelho entre os carros mortos de um ferro velho): tudo grita por uma união perene entre homem e máquina.

Esse desejo encontra sua melhor expressão na figura de Zé Macaco, personagem interpretado por um Matheus Nachtergaele inspirado que, infelizmente, sofre demais na tela arranhada da minha sucata. Amo-o desde seu primeiro aparecimento, mas minha televisão me prega peças e o rosto do ator é repartido ao meio pelo cansaço de minha tv defeituosa.  

Zé Macaco é uma espécie de evolução humana às avessas, um Homo Sapiens que evoluiu para macaco; o bicho, por causa do jeito que fala e se comporta, mas também o instrumento de trabalho. Poderia se chamar “Zé Macaco Hidráulico”, que tudo continuaria fazendo sentido. Uma evolução homem-ferramenta no processo de involução homem-bicho. Até o movimento de seu corpo regride do autoconhecimento adquirido pela prática do pole dance para uma dureza mecânica de um corpo devotado servilmente ao trabalho, dominado pela tecnologia inteligente batizada de “carro rei”. 

Anotei uma palavra no meu celular enquanto via uma das cenas: “autômato”. 

As tecnologias e seu modo de usar são, aqui, propositalmente invertidas: quem deveria controlar e manipular as máquinas é subserviente às suas vontades de máquina. Deste modo, torna-se impossível pensar a tecnologia como extensão de si, pois ela já não nos serve como instrumento ou ferramenta. 

O discurso que perpassa o filme de Renata Pinheiro e serve de motivação para suas personagens, humanas ou não (já não faz diferença), talvez esteja em algum lugar entre: 1) uma crítica ao uso das tecnologias como um condicionamento decisivo da visão e da experimentação do mundo em detrimento de uma experiência mais direta, menos mediada pelas máquinas, com a vida e; 2) um discurso que busque um viés mais harmonioso e menos conservador, que vislumbre e viabilize possibilidades para essa convivência inevitável com o universo tecnológico que habita nosso cotidiano. 

Alguém tuitou sobre o filme.

Achei anotado no celular assim que a exibição terminou: “…no filme tem essa planta que se alimenta dos resíduos da máquina e, na contracorrente do senso comum, brota e encontra um jeito de evoluir”. 

A simbiose, afinal?

tuitar (para não esquecer): preciso consertar a tv.