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Editoriais Vol. 03 - Nº 05 - 2022

EDITORIAL: de Corpo e Alma

Corpo. “Constituição ou estrutura física de uma pessoa ou animal, composta por, além de todas suas estruturas e órgãos interiores, cabeça, tronco e membros. Qualquer substância material, orgânica ou inorgânica: corpo sólido. Parte material do animal, especialmente do homem, por oposição ao espírito; materialidade.” Substantivo. Masculino?

É através do corpo que nos apresentamos ao mundo, a nós mesmos, aos outros corpos. O espelho, a morte e o sexo refletem nossa corporeidade, dizia Foucault, apontando o corpo como lugar e, antes, como utopia.

Através do corpo, instrumento de conexão com o ambiente que nos rodeia, aprendemos sobre outros corpos, e também sobre sua relação com o que os cerca.

Para as artes e para questões sociológicas mais profundas, o corpo representa quem somos e nos identifica como seres sociais: gênero, raça, orientação sexual, traços culturais que se desenvolvem de acordo com a vivência subjetiva e material, individual e coletiva.

Em seu texto de estreia, Wanderson Viana celebra os 20 anos do lançamento de Madame Satã, percebendo em seu próprio corpo o corpo filmado da protagonista de Aïnouz. Letícia Oliveira traça uma análise perspicaz entre o corpo e o som. Matheus Alvarenga, também em estreia, lança provocações sobre a série A Diarista. Gustavo Guilherme da Conceição entrega uma declaração de amor ao filme Espero que Esta te Encontre e que Estejas Bem, de Natara Ney. Além disso, por ocasião de seu lançamento, revisitamos um texto sobre Os Primeiros Soldados, de Rodrigo de Oliveira. Por fim, o Podcast Reimagem convida Suely Bispo para falar da arte do corpo e da alma: a atuação.

Nesta edição, consideramos o corpo como um território sensorial e social, (im)possível através da observação e experimentação de si enquanto ferramenta performática, social, emissora e propagadora de signos, receptora de julgamentos e críticas e, enfim, e por si só, como equipamento fundamental na constituição de sua própria existência.

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Editoriais Vol. 02 - Nº 04 - 2021

EDITORIAL: Listas de um ano sem fim

Para o ano que vem, se este acabar, esta revista pretende fazer muitas coisas. São tantos planos… O que esperávamos de 2021 pode ter acontecido, mas a impressão que temos é que esse ano sequer começou. 2020 nunca acaba. A pandemia é um ano só, um período, um momento, uma era.

Mas façamos nossas listas para os dias vindouros, listas de vontades, planos e desejos, ainda que alguns pesadelos recorrentes queiram cegar nossa visão de futuro, nossa projeção de Brasil e de mundo, e nossa esperança por dias melhores.

Tudo passa, e tomara que todos os males que nos rodeiam (e nos governam) sejam derrubados e fracassem, que tombem magistralmente do alto de seus paus pequenos. Que nosso futuro doa neles o que dói, agora, em nós, este presente.

E enquanto não vem o novo e imaginamos/construímos futuros possíveis e impossíveis, observamos o presente e o passado para formular outras listas: o que, enquanto imagem, nos atravessou nesse(s) ano(s) que nunca termina(m)?

Em sua primeira contribuição para a Reimagem, Erly Vieira Jr. traça um panorama de curtas-metragens realizados no Brasil em 2020 e 2021, com direito a bônus de dois longas importantíssimos, para pensar os futuros caminhos do audiovisual nacional. Gustavo Guilherme da Conceição elenca 11 produções nacionais e internacionais recentes que, de alguma maneira, conversam entre si em uma busca pelo direito à memória, à resistência e à vida. Waldir Segundo aposta em uma lista mais direta e comercial que observa tanto filmes e séries como jogos e outros projetos audiovisuais realizadas em 2021. PH Martins, em seu trajeto de textos didáticos sobre questões técnicas fundamentais ao cinema, entrega uma lista de músicas dos Racionais MC’s que poderiam facilmente ser parte de uma aula de roteiro cinematográfico. Por fim, os integrantes do podcast Terrorias da Conspiração elencam filmes, séries e videoclipes baseados, inspirados ou totalmente entregues ao terror.

São cinco listas que olham para esses dois últimos anos como se fossem um, apontando para produções que, de alguma forma, podem resistir a tudo isso e nos acompanhar no caminho que pretendemos trilhar de aqui para adiante.

Feliz depois-do-fim-do-mundo.

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Editoriais Vol. 02 - Nº 03 - 2021

EDITORIAL: Linguagens

Hoje (28/06/2021) é dia do orgulho LGBTQIA+. O tema desta edição, no entanto, parece distante das questões do orgulho, da vivência ou da luta dessa bandeira. É verdade, porém, que a maioria da equipe que compõe esta revista faz parte da comunidade LGBTQIA+ e vê, obviamente, a necessidade de abordar nossas temáticas em uma revista voltada para o audiovisual, um meio que, por muito tempo, não nos retratou com muita justiça e tampouco nos empregou ou nos deu as oportunidades certas para deixar, nas telas, as marcas de nossa existência.

Os tempos têm mudado? Talvez. Mas é impossível não olhar ao redor e ver, em todo canto, os reflexos e consequências da eleição de um LGBTfóbico como presidente de um país tão plural e diverso como o nosso. É nesse tempo, nesses dias incertos, encobertos por uma sombra de dúvidas e ameaças (visíveis e invisíveis), que enxergamos a necessidade de falar, HOJE, sobre arte, cultura, cinema, televisão, sendo assumidamente LGBTs. Viver com medo não é uma opção e, apesar de acreditarmos na urgência de demarcar as potências de nossas vidas, o (nem tão) simples gesto de manter uma publicação como esta, em dias como estes, com um expediente como o nosso, é também uma forma de afirmar nosso ORGULHO e nossa RESISTÊNCIA. Que nossa linguagem não seja apenas a da sobrevivência, pois estamos vivos e ativos, nos mantemos produtivos mesmo sob a atmosfera de tempos tão difíceis.

Nesta edição, Letícia Oliveira comenta a respeito do filme Estou Pensando em Acabar com Tudo (Charlie Kaufman, 2020) sob um viés existencialista; PH Martins se debruça sobre O Caso Evandro (Aly Muritiba e Michelle Chevrand, 2021), série de TV baseada no podcast do jornalista Ivan Mizanzuk; Gustavo Guilherme tenta traçar um panorama breve a respeito da metalinguagem no cinema contemporâneo a fim de assumir a importância do exercício da linguagem cinematográfica; e Leonardo Ribeiro dedica ao filme Histórias que Nosso Cinema (não) Contava (Fernanda Pessoa, 2017) um importante texto que nos relembra da fertilidade transgressora de nosso cinema.

Além disso, a Revista Reimagem entra em uma nova fase, ampliando-se para outras mídias: dois podcasts são veiculados aqui, um deles é o Olhos Fechados, produzido do Leonardo Ribeiro; o outro, uma produção independente da própria revista, apresentada por Gustavo Guilherme e Letícia Oliveira, é o podcast sobre terror e seus subgêneros Terrorias da Conspiração. Além disso, a revista estreia nessa edição a webserie S[c]inédoque, roteirizada e dirigida por Gustavo Guilherme, disponibilizada em seu canal no Youtube.

Como pessoas LGBTQIA+, temos orgulho em apresentar, nessa edição, a temática da Linguagem e suas divisões, seus movimentos, suas subversões, talvez a fim de ressoar, assim, a resistência de nossa própria linguagem.


EXPEDIENTE || Editor-chefe: Gustavo Guilherme da Conceição | Revisões: Gustavo Guilherme e Letícia Oliveira | Tradução e revisão (English version – coming soon): Letícia Oliveira | Mídias sociais: Luana Macedo Pereira || Assinam os textos desta edição: Gustavo Guilherme da Conceição, Letícia Oliveira, Leonardo Ribeiro e PH Martins ||| Agradecimentos especiais a Erly Vieira Jr.

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Editoriais Vol. 01 - Nº 02 - 2020

EDITORIAL: Passado-presente-futuro

Brasil, 2020. Uma pandemia de nível global nos colocou em isolamento. O novo cotidiano imposto pela Covid-19 nos condicionou a um estado de alerta interminável, reconfigurou nossos costumes e nossa percepção, alterou definitivamente nossa forma de olhar e perceber o mundo. O mais simples dos detalhes, imperceptível aos olhares apressados de outrora, agora obtém significado(s), adquirem forma, ganham vida, tornam-se importantes. Daqui, deste ponto nublado da história, é difícil enxergar algum futuro…

No presente, respiramos com alguma dificuldade, falamos com a voz abafada – por causa do temor ou do uso das máscaras, mas também porque percebemos que talvez estejamos mais solitários do que desejávamos, ou porque notamos (os que ainda não tinham se dado conta disto) que não há entidade, instituição ou tampouco um indivíduo de quem possamos esperar algum gesto de liderança. Não há presente. Não há futuro.

Durante o período de isolamento social, as ideias para uma segunda edição temática desta revista transmutavam-se a cada instante. Como se manter minimamente relevante nesses tempos? Ou, ainda: como pensar o Cinema neste momento histórico de impossibilidades e reconfigurações? A própria noção de tema (bem como a de prazos e limites) nos parecia irrelevante, egocêntrica, mesquinha. Acompanhamos o crescimento da produção (e reprodução) das imagens como ponto de fuga da realidade, mas também como ancoradouro de novas possibilidades e configurações desse novo olhar – confinado, inseguro, solitáro. Assim sendo, retiramos o subtítulo da revista e assumimos nossa vulnerabilidade. Não mais “Cinema e TV”, apenas Reimagem – para (nos) reconfigurar, reinventar, relembrar, reestabelecer, reconectar, reimaginar, ressignificar.

Como temática, a princípio, queríamos deflagrar o flerte do governo brasileiro com os ideais do mais descarado fascismo como tema central da edição, olhando para o passado na expectativa de reconhecer nele algum traço do presente para que, a partir disso, pudéssemos imaginar alguma possibilidade de futuro. No entanto, sucumbindo a corrente de reformulações sob a qual o próprio mundo parece estar implicado a partir de agora, afrouxamos os limites do tema, ainda que ele permaneça por lá, nos rondando de longe – um olhar que ainda considera traços e sombras de opressões, passadas e presentes, para resistir ao caos que nos foi imposto.

Nesta edição: PH Martins traça, em uma análise concisa sobre a figura do narrador-persongem, um paralelo entre O Cremador (Juraj Herz, 1969) e a figura emblemática de um aspirante a ditador; Luciana GB reflete sobre fronteiras e urbanidades na América Latina a partir do documentário Terras (Maya Da-rin, 2009); na Seção Painel, o artigo de Letícia Oliveira analisa a narrativa sonora do confronto final do filme Nós (2019), de Jordan Peele. Além disso, a realizadora Jo Serfaty fala sobre o fazer cinematográfico, linguagem, resistência e realização em uma conversa sobre seu premiado longa-metragem Um filme de verão.

As imagens do mundo foram irremediavelmente reconfiguradas. Reconfiguremo-nos, então.


EXPEDIENTE || Editor-chefe: Gustavo Guilherme da Conceição | Revisão: Gustavo Guilherme da Conceição e Letícia Oliveira | Tradução e revisão (English version): Letícia Oliveira | Mídias sociais: Luana Macedo Pereira || Assinam os textos desta edição: Gustavo Guilherme da Conceição, Letícia Oliveira, Luciana GB e PH Martins ||| Agradecimentos especiais a Jo Serfaty e Luana Cabral.

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Editoriais Vol. 01 - Nº 01 - 2020

Reimaginar…

Refilmagens, recomeços, sequências, atualizações, novas versões das histórias mais contadas, dos mais antigos personagens. Perseguindo constantemente um objetivo de reinvenção, a TV e o Cinema parecem cada vez mais interessados em revisitar e/ou atualizar velhas imagens. Termos como remake e reboot tornaram-se populares e rendem discussões e teorias das mais variadas, além de terem se transformado em fontes muito rentáveis de entretenimento. Nesse sentido, até mesmo questões políticas muito caras ao nosso tempo podem ser engolidas pela lógica de mercado da indústria audiovisual para que possam ser devidamente embaladas para consumo fácil do faminto espectador contemporâneo. Dessa forma, conceitos como representatividade ou subjetividade podem ser esvaziados e/ou mascarados a fim de assumirem formatos mais palatáveis.

Talvez, portanto, seja necessário observar com cautela essa figura que se (re)desenha no mapeamento desse audiovisual hegemônico contemporâneo, questionar e ressignificar o que está posto a fim de apregoar a existência (e resistência) de outros olhares, outras percepções, outras vivências.

Como, dentro dessa lógica, corpos, vidas e culturas não hegemônicas tem sido representadas? Como essa tendência audiovisual contemporânea atualiza (ou não) as questões que propõe revisitar – cinematográficas, dramáticas, estéticas, narrativas, mas também sociológicas, filosóficas, políticas, psicológicas – e de que maneira isso pode (ou não) influenciar o imaginário coletivo? É possível traçar outra cartografia dessa tendência a fim de apontar alternativas que, apesar de fazerem parte desse tempo, acenam com alguma originalidade e potência para outras propostas e possibilidades?

O objetivo dessa primeiríssima edição é (re)pensar filmes, séries, novelas, etc. que se propõem a revisitar histórias já contadas, personagens já representados, dilemas já abordados ou memórias e abordagens muito presentes no imaginário coletivo por causa do audiovisual; é analisar a potencialidade desse processo de revisitar e atualizar imagens, reconhecendo ou desconfiando da popularidade dessas produções; é, também, questionar as hegemonias de produção que permitem que, mesmo quando se prestam a reimaginar uma obra, permanecem propagando conceitos envelhecidos e ultrapassados.

Nesta edição: novas propostas de encenação apontam para possibilidades de renovação no cinema contemporâneo; velhas fábulas se atualizam a fim de contar a história oculta da opressão de um povo; uma desconfiança inicial a respeito da representação do negro na televisão brasileira e o surgimento do mito do herói branco; provocações a respeito do documentário político (ou a política no documentário) brasileiro contemporâneo. Além disso, sessões livres de fluxo contínuo recebem textos sobre a relação dos leitores com o audiovisual e de profissionais da área e sua experiência no mercado; críticas de cinema e tv e um artigo especial sobre o prolongamento da experiência cinematográfica na estreia da Seção Painel.

Reimaginar é, também, duvidar, reconstruir, atualizar. Reimaginemos, então.