Mostras e Festivais

Cine Callejero

(Temporada 2026 do Cineclube El Caracol)

Diferente das demais sessões do Cine Callejero, que se debruçam sobre contornos mais materiais da experiência latino-americana — o trabalho, a cidade, a sobrevivência —, “Além do(s) Concreto(s)” propõe certo deslocamento. Aqui, o concreto deixa de ser apenas aquilo que ergue muros e paredes para tornar-se matéria porosa: superfície atravessada por rotinas, rituais, gestos, ruídos e imaginações. 

Os oito curtas-metragens da sessão investigam uma América Latina que pulsa para além da objetividade documental ou da representação tradicional. Em alguns deles, a câmera adentra estruturas urbanas e encontra a intimidade silenciosa de seus habitantes, revelando corpos que vibram e bailam, insistentes. Em outros, a experiência latino-americana emerge através de certa abertura à experimentação: imagens fragmentadas do capitalismo moderno nas grandes cidades, arquivos que desnudam metrópoles, performances corporais, texturas sonoras e movimentos que recusam uma linguagem estável para inventar novas formas de perceber o cotidiano urbano.

Mujeres de Urdiembre (Neysa Rivadineira, Bolívia)

Entre a ruína e a dança, entre a arquitetura e o sonho, “Além do(s) Concreto(s)” reúne filmes que compreendem a imagem como território de/em invenção constante. Obras que não apenas observam o sul do mundo, mas o embaralham, na tentativa de reinventá-lo. Filmes que buscam maneiras de acessar aquilo que escapa às estruturas rígidas — sejam elas urbanas, políticas ou cinematográficas.

Mais do que um recorte sobre cidades ou espaços, esta sessão é um convite para atravessar as fissuras do concreto, perceber e celebrar uma latinoamérica que pulsa por completo, até mesmo em seus movimentos mais subcutâneos. Uma América Latina que insiste em (re)criar imagens de si para continuar existindo, sempre em movimento.

Gustavo Guilherme da Conceição, curador


Tomei a liberdade de batizar essa primeira sessão do Cine Callejero de “Tipos de Chão”. Minha intenção, enquanto curador, era pensar em outras paragens que poderiam ser consideradas, também, um fundamento. Queria desviar os olhos do asfalto quente das grandes cidades, pensar em outras organizações coletivas, mas também desejava olhar para outros lugares onde fosse possível pisar com outras partes do corpo que não os pés — a memória, a infância, as imagens, a ancestralidade e o próprio cinema.

Testemunho (Leonardo Amaral e Roberto Cotta)

Nessa primeira sessão, os filmes se organizam como variações de um mesmo gesto: tatear aquilo que sustenta a vida, seja matéria ou memória. De uma nave que paira sobre um quilombo no sertão — deslocando o eixo entre céu e terra — ao corpo errante de um homem que carrega imagens descartadas e faz do próprio cinema um território possível, o chão aqui nunca é só uma superfície. Ele se desdobra na persistência de uma camponesa que tenta salvar a linhagem de sua última galinha, inventando modos de incubar os derradeiros ovos; na infância que dilata o tempo ao escapar da aula rumo a um casarão mal assombrado; na travessia íntima de quem retorna a um passado roubado pela violência política; e na fabulação de si que reinscreve ancestralidade, culpa e desejo.

A Invenção de Orum (Paulo Sena)

Os filmes dessa sessão afirmam que é possível habitar muitos territórios — alguns que se atravessam com os pés, outros apenas pelas imagens — e que todos eles, à sua maneira, também podem ser chão.

Gustavo Guilherme da Conceição, curador


Nas ruas do Centro de Vitória, tudo passa — corpos, sonhos, rotinas, surpresas, silêncios, ruídos. Nesse lugar de passagem, que é também instância de permanência teimosa, onde boemia e cultura se entrelaçam, decidimos fixar uma tela, exibir filmes e contar histórias.

Trata-se de uma pirraça em via de mão dupla: devolver imagens ao espaço que nos transpassa e nos agride cotidianamente, fazer com que elas respirem o ar quente e impuro da cidade, que se percam em meio ao concreto, à umidade, ao sal, às vozes e aos corpos apressados que transitam pelas ruas e vielas.

Os filmes que compõem a curadoria do Cine Cellejero vêm de diferentes pontos da América Latina, atravessados por uma mesma questão: quem somos? Ou: como imaginamos que somos?

A Nave que Nunca Pousa (Ellen Morais)

Há algo que nos une, desmontando fronteiras — memórias compartilhadas de violência e invenção, de apagamento e reconstrução contínua, de resistência e festa em meio ao descaso. Se a história oficial tantas vezes nos organiza como marginais, nosso cinema responde com imagens que recusam (ou abraçam) esse lugar, em filmes que nascem de certa precariedade, mas também de uma imaginação radical capaz de transformar arquivo em afeto, ruína em linguagem, ausência em presença. Há, em todos eles, uma pulsação que não é apenas estética, mas também política. Porque somos teimosos.

Fixar uma tela no meio de praças, ruas, quadras e viadutos, que será observada por corpos que, ainda que apenas por alguns instantes, não obedecerão à programação que lhes foi dada, também é um gesto político. É inventar um convite para ficar, respirar e se perceber na janela/espelho do cinema; é propor ao outro um caminho para converter a cidade em lugar de construção de memória, afeto e identidade.

O que se propõe aqui, portanto, é uma verdadeira arruaça.

Gustavo Guilherme da Conceição
(Curador da temporada Cine Callejero do Cineclube El Caracol)