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Críticas Vol. 03 - Nº 05 - 2022

Para Natara

Espero que esta te Encontre e que Estejas Bem (Natara Ney, 2020)

Querida Natara,

Escrevo este post ainda com o gosto do teu filme nos olhos: tremor nas pálpebras e resquícios de lágrima. É um sentimento doce.

Já te agradeci pessoalmente por escolher contar uma história de amor nestes dias tão feios, mas talvez devesse lhe dizer algo mais… ou talvez não. Talvez o filme, como um corpo dotado de sua própria alma, é o único que tenha algo realmente válido a ser dito. Às vezes penso que a crítica não tem nada a colaborar com determinada obra, mas sou um aquariano teimoso.

Quando tua voz, quente, empresta ao filme mais uma camada de memória, a tua memória, inventada ou não, meu peito estufa apavorado. As cartas de Lúcia e Oswaldo, por si só, já tinham feito seu papel: eu já estava desconcertado, gravemente sem jeito, incomodado por olhar tão intimamente para a alma impressa naquelas imagens. Sua voz (e o misterioso amor a quem ela se direciona) poderia soar como um palimpsesto, mas escapa da armadilha e me surpreende: revela-se cúmplice daquela história de amor.

Essa voz, tua e do próprio filme, você chamou de pacto – com Lúcia e suas cartas de amor, com as imagens e as memórias que elas evocam em si mesmas.

Imagem e memória habitando a tela em coexistência. Poesia.

Gosto de como o filme foge do saudosismo e prefere a saudade. Vibro quando corta da senhora saudosa de romantismo para a imagem dos carteiros, devidamente uniformizados sob um sol legitimamente carioca. Trabalhar cansa.

Fiquei com a ideia fixa de que aquelas cartas, celulose e tinta, eram o próprio cinema (tela e movimento). Letras são corpos que bailaram no papel e deixaram, ali, um rastro, uma imagem. O que esses corpos-letras traçaram em sua caligrafia dançada, é rastro, espírito – memória?

Tenho para mim que teu filme, que quer contar uma história de amor, encontrada uma feira tal qual uma antiguidade, constrói também sua declaração apaixonada: pelas cidades e sua arquitetura, pelas pessoas e suas histórias, saudades, destinos; pelas próprias imagens que carregam (e que carregam, em si, um mundo de significados possíveis). Carta que vira filme, que volta a ser carta, missiva de amor, monumento.

Não tem sido fácil acordar brasileiro e sei que, para você, o caminho nunca foi simples ou descomplicado. Decidir seguir o rastro de uma história de amor e transformar essa busca em filme é, como disse um personagem do teu filme, um ato de fé. Outra vez: obrigado.

Que outras histórias de amor te achem e, como os ventos de agosto, baguncem teus cabelos – e tuas ideias.

Espero que esta te encontre e que estejas bem.

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Possessor, de Brandon Cronenberg

A direção de Brandon Cronenberg (Antiviral, 2012), Possessor (2020) segue a mesma premissa de mistério em aspectos práticos e táteis do filme, além de se tratar de um horror sci-fi futurista.

Lançada em Outubro de 2020, a narrativa acompanha uma agente que faz parte de uma organização secreta que possui um método tecnológico futurista para executar assassinatos encomendados: realiza a troca de consciência entre corpos, infiltrando agentes assassinos no corpo de executantes sequestrados que fazem parte de algum contexto da vida do alvo. 

A representação dos corpos do filme é quase sensorial, os enquadramentos são bastante orgânicos, sem muitos efeitos e, ainda assim, conseguem transmitir uma atmosfera perturbadora: são horríveis e incríveis. Crus. Há muita violência e sexualidade explícitas, mesmo que o diretor tenha cortado boa parte desse conteúdo do filme – estes cortes podem ser vistos na versão estendida do longa. Isso foi benéfico à história e ao plot, com violência na medida certa. Se houvesse mais, a experiência não seria tão satisfatória. O filme entrega o nível de perturbação ao qual a trama se propõe, equilíbrio que fez bem ao resultado final da produção.

Ao mesmo tempo em que a narrativa se mostra absurda e incômoda, nos prende em muitas instâncias, como pelo teor de ficção científica, a maneira explícita com a qual os assassinatos acontecem e com a apatia demonstrada por Andrea Riseborough (Tasya Vos), além das emoções conflitantes muito bem representadas por Christopher Abbott (Colin Tate).

Os aparatos tecnológicos apresentados nos fazem questionar o que se passa e do que de  se tratam aquele lugar e os personagens que lidam com as máquinas, apesar de não haver explicação ou pretensão em tomar o tempo do espectador: entendemos superficialmente para que servem e as sequelas que causam, sem que nos seja explicado que tecnologia é essa e em qual universo a história se passa. A maneira como a tecnologia aparece segue plausível para um futuro próximo da nossa realidade – que não acontece ainda, mas é possível – e isso convence o espectador.

O filme se mantém em ritmo lento até o terceiro ato, quando os desdobramentos da narrativa tomam rumos inesperados; a parte gráfica compensa a espera e o teor do plot também, que é quando ganha mais velocidade e intensidade tanto nas cores quanto nos enquadramentos dos protagonistas, que aqui se mesclam entre antagonista e herói, e assim permanecem até o fim.

A originalidade dentro do contexto surpreende e, apesar de outras produções de mesmo teor (sci-fi horror) de  Brandon, o resgate de maneirismos e condução baseada nos clássicos dos anos 80 é bastante interessante, com muitos recursos gráficos nos enquadramentos e escolhas de cores – mais frias em cenas externas e quentes em cenas internas, bem como na tratativa dos corpos e efeitos práticos. 

Possessor não é e nem pretende ser agradável, certamente quem o assiste não sai ileso, seja positiva ou negativamente.

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Fragmentos de Batalha

Os Primeiros Soldados (Rodrigo de Oliveira, 2021)

XX

“…o soldado pensava que os primeiros sofrem de uma coragem de que ninguém nunca vai lembrar.”

Se narrar é costurar fragmentos, que tecido é esse que Os Primeiros Soldados tão intimamente tece em sua trama? Como transformar em narrativa cinematográfica uma história (ainda) não conhecida a respeito dos corpos afetados pela AIDS nos anos iniciais da crise da doença no Brasil? 

As imagens nos encaram de volta, versáteis em textura e formato, afirmando sua existência enquanto construção/fabulação de uma memória silenciada, seja através de uma feição emudecida atrás da fumaça de um cigarro, ou do seio de uma travesti exibido orgulhosamente em via pública.

XXIV

“Mente pra mim.”

Há uma frágil linha que separa estes gestos: atuar e mentir. Não é necessário estudar artes cênicas para se tornar um mentiroso, mas alguma noção de cena, sobretudo no que diz respeito aos mecanismos persuasivos do gesto e da fala, pode transformar qualquer mentira em manchete de jornal.

Não há mentira em Os Primeiros Soldados. Há invenção — no ritmo dos gestos e olhares de Suzano, na composição da imagem que alude a trincheiras e prisões no hospital da cidade ou no modo como os corpos se tocam levemente enquanto compartilham de um cigarro. Mas há também um desejo por reinvenção, seja explicitamente, como quando o coro melancólico de uma canção se converte em um trocadilho divertido às vésperas da meia-noite do réveillon de 83, ou de modo mais sutil, como na delicada reconstrução de outra época, conturbada e assustadora para a população LGBT no Brasil e no mundo.

Na voz de Rose, entretanto, mentir é reimaginar possibilidades de futuro, porque nesse contexto (re)imaginado pelo ato de “fazer cinema”, até mesmo a morte pode ser reconfigurada — ao ponto de caber em duas caixas de remédio —, seja pela montagem que traz de volta ao filme a personagem de Massaro, ou pela própria textura alterada da imagem que, quando convertida em VHS, nos aproxima definitivamente daqueles corpos que, outrora desaparecidos, persistem vivos.

XIX

“…se essa praga é gay, a mãe dela é travesti!”

Renata Carvalho performa a própria vida. Um corpo travesti. Uma “corpa”, como diria Castiel Vitorino Brasileiro. Tão dona da própria palavra quanto das minúcias que compõem sua personagem — fragmentos de si mesma. Renata e Rose coabitam o mesmo corpo e entregam-se uma para a outra, em uma relação simbiótica que transgride os limites do plano cinematográfico e retribui o olhar de quem a observa. Uma existência que atravessa a superfície da imagem, seja cantando sobre um palco de boate ou quando nos encara de volta em um monólogo que se converte em diálogo com a câmera que, percebendo a dureza do semblante cansado de mulher, permite ser atravessada. 

Aqui, a travesti é a mãe de todas as imagens.

VII

“…eles tentam nos matar desde que o mundo é mundo, é isso o que eles fazem; e o que a gente faz é sobreviver sendo linda”

Para sobreviver em um mundo que trabalha incansavelmente pelo seu apagamento enquanto indivíduo, faz-se necessário roubar o controle de sua própria narrativa. 

Nas cenas-dentro-da-cena, na boate, ainda não se pode prever, mas a concepção das imagens em breve se reorganizará: Rose, Suzano e Humberto assumem, com identidade e linguagem próprias, a coautoria de sua própria história — um filme dentro do filme. Sobrevive-se, então, nessas imagens que atravessam outras imagens. 

Entre a inevitabilidade da morte e o desejo de manter-se vivo, Os Primeiros Soldados decide-se por “sobreviver sendo linda”. Pois se nos tentam matar desde que o mundo é mundo, nossa resposta está nos mínimos gestos de cada uma dessas personagens. A cada novo beijo apaixonado, sempre antecedido por um flerte delicioso (esse desejo de vislumbrar a própria vida refletida no olhar do outro), instaura-se uma declaração: entre beijos, baladas e fogos de artifício, permaneceremos vivas.

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Poema ao Tempo

Sento-me diante de uma página em branco.

Imagino um criador-criatura observando o vazio:

quero ser esse vazio, estar nele, habitá-lo…

Desejo escrever a respeito de um filme, mas não posso

porque ele me escapa…

Começo um poema que não saberei terminar.

Não compreendo minhas próprias palavras

elas me afogam.

Penso no tempo e na vida e na morte e nas coisas inevitáveis:

crescer, sonhar, amar, enlouquecer, perder, temer.

Entre viver e morrer,

há apenas um instante,

um segundo que perdura…

Quantas eternidades cabem em mim?

Tento.

Escrevo algumas palavras, mas as rejeito.

O poema, como uma criança sem cuidado, está morto.

Acendo um cigarro e me afeto por seu gosto de canela.

Três instantes eternos:

puxar, tragar e soltar

(viver, tragar o mundo e morrer)

Observo a fumaça: estou nela,

Deus está nela,

a vida e a morte estão nela.

Um filme inteiro se esvaindo depressa.

Dentro da fumaça, crianças crescem em uma cena torta

(desenquadramento)

Não percebi de onde vinha o vento que carregava a fumaça,

o mesmo vento que movimenta as ondas

do mar, da câmera, da encenação, da passagem dos anos.

A vida é um filme que se esvai em duas horas,

e cada hora corresponde a uma morte inteira,

e cada hora corresponde a uma noite inteira,

Deus, do alto de sua montanha,

filma os homens

escreve o Certo e Errado

em linhas tortas torpes tolas

porque o Homem é um tolo.

Uma criança com feições adultas interrompe o vento.

Não há futuro, porque tudo passou.

Tudo passou.

É o fim:

o recomeço de tudo.

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Homem-máquina, Máquina-homem

As ranhuras na película da TV usada que compramos há dois anos têm aumentado consideravelmente. O que antes eram só pequenos arranhões que deformavam de leve a imagem proposta pelos pixels, agora, apresentam uma extensa faixa branca que cobre boa parte da tela. De onde vejo, as imagens não são mais as mesmas.

Tem sido uma experiência curiosa a de ver filmes, acompanhar festivais, produzir e estudar cinema nestes tempos de isolamento. É que, em casa, as telas parecem brilhar um tanto mais, convocando uma atenção que nem sempre nos cabe e que, às vezes, nos desatina de nosso foco: um filme passa na tv enquanto engatilho o twitter como se fosse uma extensão de minha percepção. 

Tuíto, logo existo.

Carro Rei foi o primeiro filme que me chamou atenção na programação do 49º Festival de Cinema de Gramado – carros falantes e algum tipo de complô político já eram anunciados no trailer, coisas que têm minha atenção garantida desde muito cedo. Culpa do Carpenter e de sua Christine, que conheci em alguma noite do passado, quando minha atenção ainda se dedicava totalmente aos emissores de luz daquela TV antiga na casa dos meus tios… me encantei pela Christine do Carpenter muito antes de saber que existia uma Christine do King – a literatura viria a ser foco maior da minha atenção na adolescência, quando tudo que me interessava no cinema eram as sequências de terror juvenil americanas pós-Pânico.

Carro Rei começa com uma crônica ágil sobre uma mulher que dá a luz a um menino dentro de um automóvel. Essa criança cresce com o estranho dom de se comunicar com os carros. Carros serão também um negócio de família que o menino precisará levar adiante, mesmo que tenha outros planos de vida. 

Na tela muito arranhada da minha TV, os rostos dos atores se desconfiguram dependendo de sua posição no enquadramento das cenas. Me sinto um tanto traído pelo aparelho, já que não recebo daqui o que o filme me envia de lá. O filme ainda é o mesmo?

Uma vez tocaram saxofone aos pés da minha janela enquanto assistia, pela primeira vez, um dos filmes do Decálogo, do Kieslowski. Era uma serenata para o vizinho. Não Amarás ganhou uma trilha sonora que mais soava como uma sessão do antigo Cine Privé, do canal Bandeirantes, e aquilo mudou para sempre minha percepção a respeito do filme. 

Lembro de ter feito um post sobre isso.

Como daquela vez, o filme que me chega agora parece alterado por condições extra fílmicas. Não só pelo defeito na película da minha TV, mas principalmente pelo modo como as coisas se dão no filme da Renata Pinheiro: a tecnologia como extensão do corpo e da mente humana – ou seria o contrário?

Em Carro Rei, tudo surge com vontade de se assumir simbiótico: do filtro azulado aos nomes das personagens; o nascimento do menino Uno/Ninho e sua capacidade de se comunicar com os carros; a breve e divertida alusão à cena final de Holy Motors; ou o modo como o filme nos apresenta a personagem Mercedes (que, com uma espécie de farol acoplado em sua calcinha, traça um caminho vertical vermelho entre os carros mortos de um ferro velho): tudo grita por uma união perene entre homem e máquina.

Esse desejo encontra sua melhor expressão na figura de Zé Macaco, personagem interpretado por um Matheus Nachtergaele inspirado que, infelizmente, sofre demais na tela arranhada da minha sucata. Amo-o desde seu primeiro aparecimento, mas minha televisão me prega peças e o rosto do ator é repartido ao meio pelo cansaço de minha tv defeituosa.  

Zé Macaco é uma espécie de evolução humana às avessas, um Homo Sapiens que evoluiu para macaco; o bicho, por causa do jeito que fala e se comporta, mas também o instrumento de trabalho. Poderia se chamar “Zé Macaco Hidráulico”, que tudo continuaria fazendo sentido. Uma evolução homem-ferramenta no processo de involução homem-bicho. Até o movimento de seu corpo regride do autoconhecimento adquirido pela prática do pole dance para uma dureza mecânica de um corpo devotado servilmente ao trabalho, dominado pela tecnologia inteligente batizada de “carro rei”. 

Anotei uma palavra no meu celular enquanto via uma das cenas: “autômato”. 

As tecnologias e seu modo de usar são, aqui, propositalmente invertidas: quem deveria controlar e manipular as máquinas é subserviente às suas vontades de máquina. Deste modo, torna-se impossível pensar a tecnologia como extensão de si, pois ela já não nos serve como instrumento ou ferramenta. 

O discurso que perpassa o filme de Renata Pinheiro e serve de motivação para suas personagens, humanas ou não (já não faz diferença), talvez esteja em algum lugar entre: 1) uma crítica ao uso das tecnologias como um condicionamento decisivo da visão e da experimentação do mundo em detrimento de uma experiência mais direta, menos mediada pelas máquinas, com a vida e; 2) um discurso que busque um viés mais harmonioso e menos conservador, que vislumbre e viabilize possibilidades para essa convivência inevitável com o universo tecnológico que habita nosso cotidiano. 

Alguém tuitou sobre o filme.

Achei anotado no celular assim que a exibição terminou: “…no filme tem essa planta que se alimenta dos resíduos da máquina e, na contracorrente do senso comum, brota e encontra um jeito de evoluir”. 

A simbiose, afinal?

tuitar (para não esquecer): preciso consertar a tv.

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Clausura narrativa em Oxygen, de Alexandre Aja

Na verdade eu queria dizer narrativa em clausura. Talvez eu esteja confuso.

Oxygen, produção recente da Netflix dirigida pelo cineasta francês Alexandre Aja, promete, desde seu primeiríssimo plano, uma narrativa condicionada à claustrofobia: em um gigantesco labirinto, um rato de laboratório perambula perdido; o animalzinho, tenso, obviamente não sabe para onde deve ir. Essa condição de clausura logo se revelará um fator indispensável para o desenvolvimento da trama e, para tanto, se fará necessário associar essa natureza claustrofóbica a uma figura central.

Elizabeth Hansen (Mélanie Laurent) passará praticamente um filme inteiro, seja lá quanto isso dure, presa dentro de uma cápsula tecnológica programada para levar seu corpo a outro planeta a fim de colonizá-lo, já que a vida humana na Terra foi fatalmente comprometida. Nada de novo no front.

Despertada do sono por causa de problemas técnicos em sua cápsula, tudo que ela precisará para escapar dessa minúscula prisão é acessar sua própria memória, que fora completamente desestruturada por causa dos anos em que passou adormecida em um sono profundo proporcionado pela máquina que, agora, aprisiona seu corpo. Parece que enveredaremos para o campo da memória…

Códigos, mecanismos, programações: tal como na metáfora do rato perdido no labirinto, sua salvação está registrada em si mesma, em algum lugar de difícil acesso dentro de sua mente (que sabe-se lá por quais motivos se revelará obcecada por outro objetivo até os minutos finais da trama).

Esse cenário, apesar de minúsculo, guarda algumas surpresas, armadilhas programadas, alucinações, mecanismos que vão desde sedativos a injeção letal, caso seja necessário. Se devia ser uma alusão aos processos de memória, talvez coubesse também um indicativo patológico. Tudo isso poderia servir como amplificador da tensão necessária para que o filme, enquanto narrativa claustrofóbica, de fato funcione em sua completude, mas o roteiro lança mão de todo esse recurso com tamanha rapidez e superficialidade que fica difícil esperar alguma nova ameaça para além das limitações geométricas da cápsula (barreira que já entendemos desde os primeiros minutos de filme, oras).

Todo esse esquema narrativo criado a partir do claustro, portanto, parece imobilizar também o desenvolvimento da trama, engessá-lo ao previsível, como um rato que corre atrás do próprio rabo; principalmente quando se adiciona a ela um fator importantíssimo que, inclusive, dá nome ao filme: o que resta de oxigênio dentro da cápsula é o que Elizabeth ainda tem de tempo de vida. Cinema, tempo, movimento… uma armadilha.

Mas o que para muitos pode soar como um jogo interessante dentro da dinâmica espaço/tempo (cápsula/oxigênio), pode, por outro lado, parecer um tanto mórbido para outros olhares – afinal, qual seria a graça de se observar, durante quase duas horas, a imagem de um rato eternamente preso em um labirinto, emitindo sons inteligíveis de agonia?

O modus operandi do desenvolvimento narrativo acaba se deixando enclausurar pelo próprio mecanismo que propõe, porque tudo que é turvo se revela depressa e o que era mistério se elucida com tamanha obviedade que pouco resta ao espectador mais sedento.

Uma curiosidade talvez escape, um fator que confirmaria a ideia de claustrofobia como aposta central da narrativa: a escolha de Mathieu Almaric como ator responsável pela voz onipresente do robô M.I.L.O (a voz dentro da cápsula) muito provavelmente por causa de seu papel ontológico em um drama radicalmente claustrofóbico, O Escafandro e a Borboleta (Julian Schnabel, 2007). Lá, a ousadia do dispositivo fílmico mantinha mesmo tudo em clausura, tensionando limites e experimentando uma linguagem áspera e única que, aqui, não chega nem perto.

Trocadilhos à parte, falta ar em Oxygen.

Previsível, o filme parece cada vez menor e menos interessante à medida que se aproxima de seu desfecho. É como se, a partir de pouco mais da metade, nada mais lhe restasse a não ser uma coletânea cafona de ângulos e sequências melancolicamente masoquistas, um repertório pobre e pouco inovador deveras distinto do que o mesmo Alexandre Aja conseguiu elaborar em sua obra anterior, o igualmente claustrofóbico, mas muito mais inteligente e eficaz Predadores Assassinos (2019).

Sufoco.

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Uma comédia brasileira

Quando Cine Holliúdy, comédia regional dirigida por Halder Gomes, caiu nas graças do público, o contexto político e social dos brasileiros era inegavelmente outro. Se apenas no ano seguinte o país romperia em manifestações numerosas que mudariam completamente os rumos de nossa história política, exigindo da arte, a partir daí, uma postura outra diante do mundo, nosso cinema mais popular podia ainda respirar tranquilamente os ares de uma liberdade imaginativa que, naquele momento, gozava de carta branca para aparentar altos níveis de ingenuidade. 

De lá para cá, o Brasil mudou bastante. E isso inclui nosso cinema como um todo, já que a última década foi dominada por filmes politicamente engajados que vão desde obras mundialmente reconhecidas, como Democracia em Vertigem ou Bacurau, à comédias pop, de elenco e estilo manjados, como a O Candidato Honesto, por exemplo. A questão é que, provavelmente por servirem como uma possibilidade agradável e simples de escape da realidade, nossas comédias sempre estiveram no gosto do público, desde as chanchadas carnavalescas dos anos 30, passando pelas pornochanchadas, até chegar aos filmes de humor da atualidade. Afinal, não foi à toa que o mais recente dos filmes da franquia Minha Mãe é uma Peça destronou todos os recordes e tornou-se a maior bilheteria nacional de todos os tempos.

Engana-se, porém, quem acredita que tais filmes se abstenham do teor político tão explícito em outros gêneros no cinema brasileiro da última década. Em Histórias que Nosso Cinema (Não) Contava, a diretora Fernanda Pessoa consegue revelar entrelinhas da Pornochanchada através de uma remontagem que, por si só, traz à luz a subversão de um gênero que muitas vezes se opunha, ainda que cautelosamente, à opressão da ditadura em curso. Ou como não perceber a complexa força que reside no fato de um filme protagonizado por uma drag queen tornar-se recorde de popularidade em um país ainda tão preconceituoso? O viés político, enfim, para o bem ou para o mal, passou a fazer parte de nossos discursos e de nosso cotidiano, o que aplica no Cinema (e na arte como um todo) um xeque-mate: deste ponto em diante, é impossível se fingir inocente.

Dias atrás, pouco mais de um ano depois do início da pandemia, a comédia Cabras da Peste estreou repleta de atualizações de clichês de gênero que, reconfigurados de modo a caber nos moldes de um estilo específico (muito semelhante ao dos filmes do Halder Gomes, que aqui assina apenas como produtor), podem fazê-lo soar como mais uma comédia descartável de fim de tarde. Mas o modo como o filme constrói e dispõe os elementos básicos que compõem a narrativa é, por si só, uma afirmação política: o policial nordestino, Bruceuilis Nonato, recém chegado em São Paulo, encontrará auxílio e alguma esperança no parceiro improvável, um completo desajustado ou, como se diz no próprio filme, o oposto do que se espera de um “policial de verdade”; juntos, essas duas figuras atrapalhadas, ligadas pelo paradeiro de uma cabra, precisarão encarar um vilão que, na ordem cronológica da narrativa, ganha contornos antagônicos após, literalmente, roubar o doce de uma criança, mas que acabará por se revelar um antagonista autoconsciente de sua monstruosidade, desses que veste a máscara da honestidade e do patriotismo para passar ileso por um caminho de corrupção e ilegalidades. Não é por acaso, por exemplo, que esse vilão se gaba de direitos adquiridos com seu cargo político e parafraseia jargões de determinados figurões da política brasileira. É possível, inclusive, enxergar na escolha do ator que personifica o vilão como um sofisticado comentário político: ser brega, em um sentido menos estético e mais comportamental, é vestir-se das mentiras mais cafonas, a fim de disfarçar a cretinice de uma personalidade cruel e vazia. 

Ao contrário de Cine Holliúdy, no qual a antagonização da chegada da televisão em detrimento da preservação da exibição cinematográfica pode dar ao mote central da narrativa um ar conservador, Cabras da Peste aposta em encontros improváveis (somando a essa equação uma cabra sequestrada, uma motorista de aplicativo hiper prestativa e um típico político corrupto) para formular uma história que, por mais que não assuma seus comentários políticos explicitamente como tantos outros filmes nacionais recentes, tem em sua composição criativa mais fundamental uma compreensão astuta das urgências do Brasil do tempo presente e a personificação precisa de uma iconografia inconfundivelmente brasileira.

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O Homem Invisível (Leigh Whannel, 2020)

Com o lançamento de “A Múmia” em 2017, a Universal Studios pretendia criar o que chamou de Dark Universe, um universo cinematográfico nos moldes dos filmes de super-heróis da Marvel, mas usando suas franquias de horror. Um catálogo com clássicos como “Drácula”, “Frankenstein”, “O Lobisomem” entre outros. Já haviam alguns filmes agendados e atores escolhidos para viver os personagens. Mas “A Múmia” se mostrou um fracasso de crítica e bilheteria, fazendo com que a Universal interrompesse seus planos. Algum tempo depois, o estúdio resolveu reformular os planos para seu universo cinematográfico e fez nascer “O Homem Invisível”, em 2020, dirigido por Leigh Whanell.

Sendo um remake de outro clássico, o filme faz parte da nova estratégia da Universal de espalhar as suas propriedades por produtoras independentes para que ideias originais sejam agregadas à histórias já conhecidas em filmes de horror de baixo orçamento. Desse modo, a história de “O Homem Invisível” foi cair dentro da Blumhouse, provavelmente a produtora de filmes de terror mais popular da atualidade, responsável por “Corra!” (2017), “A visita” (2015) e “Uma noite de crime” (2013), etc. Leigh Whannel ficou responsável por argumento e roteiro, com uma visão atualizada para a história clássica.

Depois de planejar os mínimos detalhes, Cecília Cass foge da casa de seu abusivo e rico marido, Adrian Griffin. Mesmo longe dele, entretanto, Cecília sofrerá com crises de ansiedade e pânico. Alguns dias depois, Adrian se suicida, mas ela suspeita que sua morte foi uma armação e desconfia que, de algum modo, Adrian ainda a persegue, sem que ninguém consiga vê-lo.

A história agora deixará de lado a frustração de um homem que torna-se invisível e não consegue reverter essa condição, para ficar ao lado de uma mulher que foge do companheiro abusivo, que preferirá assumir a invisibilidade para se manter perseguindo e oprimindo a protagonista após ser rejeitado por ela. Uma completa atualização temática, levando em consideração o ano em que estamos e a importância de colocar em pauta temas como abuso físico/psicológico, violência doméstica e a suposta “paranóia” feminina. Uma atualização que não serve só ao discurso, mas também ao que o filme se propõe como gênero e roteiro: uma clássica história de suspense.

Suspense clássico pois “O Homem Invisível” se encaixa perfeitamente em duas “regras” dos filmes de um mestre do gênero, o britânico Alfred Hitchcock. Primeiro: “mostre, não conte” (uma ideia que pode ser entendida como essencial para qualquer produto cinematográfico). Um exemplo disso é que nós não vemos os primeiros abusos sofridos por Cecília, e tampouco é preciso, já que vemos as marcas disso nas ações da mulher (sua fuga planejada), no seu psicológico (a ansiedade causada só de pensar em sair de casa) e em suas expressões faciais e corporais. Segundo, o modo como Hitchcock entendia o suspense, como a tensão gerada entre as ações da protagonista e do vilão, ambas vistas por nós, sem saber qual será o final delas uma vez que se opõem.

Logo no começo do segundo ato, revela-se que Adrian, de alguma forma, está realmente invisível e perseguindo Cecília. Se, por um lado, essa revelação põe fim à discussão do público se Cecília está ou não vendo coisas, por outro, é um elemento poderosíssimo de suspense, pois sabemos que ele está em todo lugar sem que possamos vê-lo. O plano do homem invisível é desacreditá-la e fazê-la passar por alguém instável e violenta como vingança por ter terminado o relacionamento. 

A partir disso, o roteiro irá propor duas viradas (sendo a segunda completamente inesperada) que oxigenam a narrativa e estabelecem novas camadas ao psicológico de Cecília. Um grande furo que acontece pouco antes da primeira virada poderia comprometer toda a história não fosse a habilidade de Whannel na condução de seu roteiro. Sua câmera segue as ações de Cecília a média distância, como se antecipasse o modus operandi do narrador a partir do segundo ato. Um corte específico faz essa transição quando Cecília presenteia James e sua filha Sidney, que a deixaram morar em sua casa para se esconder de Adrian. O plano muda da sala para o fundo do corredor, uma transição imagética e sonora que não representa só uma dinâmica de enquadramento, mas marca a inauguração de um ponto de vista que confirma a presença do homem invisível no quadro, silencioso, observando Cecília. Foi apenas com um corte, algo simples, mas extremamente eficiente e apurado.

Com isso, os enquadramentos se dividem entre o narrador ao lado de Cecília e de dentro do ponto de vista de Adrian. Movimentos que pensamos ser apenas panorâmicas ou tracking shots comuns são, na verdade, o olhar de Adrian, invisível, acompanhando sua ex-companheira. Aí o suspense, a tensão. Sonoramente, o filme faz um eficiente trabalho nos sons diegéticos (que fazem parte da narrativa), acompanhando essas mudanças de enquadramento e distância, entre o que é ouvido por Cecília e o que é escutado por Adrian. Já a trilha musical encontra um lugar comum de filmes de horror, acentuando momentos de tensão e sustos. Seu melhor uso é quando não está presente, respeitando os momentos de silêncio que a narrativa pede. 

A intérprete de Cecília, a mundialmente conhecida Elisabeth Moss, praticamente carrega o filme ao lado de outras atuações que estão ligadas no piloto automático não pela qualidade dos atores, mas pelo roteiro que não lhe dá muitas oportunidades. Moss mostra em seu rosto, no modo de falar e nas expressões corporais, de maneira eficiente, a imagem de alguém que está muito machucada, física e mentalmente, com os abusos do ex. E desse mesmo modo ela transmite bem a mudança entre alguém assustada com a possibilidade de estar sendo assombrada por um fantasma opressor para uma pessoa decidida a provar que está certa.

Se a Universal Studios queria recomeçar o seu Dark Universe depois de um fracasso de bilheteria, ela pode ter encontrado a solução em “O Homem Invisível”: apostar em produções de baixo orçamento entregando-as nas mãos de pessoas talentosas que possam acrescentar originalidade à histórias já tão conhecidas. E, para além disso, criar bons filmes. “O Homem Invisível” é um eficiente suspense hitchockiano em sua essência narrativa e no modo como os personagens são apresentados. As poucas deficiências ou furos de roteiro são barrados pela tensão bem construída pelo diretor Leigh Whannel e pela ótima atuação de Elisabeth Moss. 

“O Homem Invisível” acaba se tornando um importante meio de discussão para os temas que aborda, fundamentando-os sobre um ótimo e clássico suspense, um tipo de filme que faz falta aos cinemas dos dias de hoje em todos os aspectos.