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Possessor, de Brandon Cronenberg

A direção de Brandon Cronenberg (Antiviral, 2012), Possessor (2020) segue a mesma premissa de mistério em aspectos práticos e táteis do filme, além de se tratar de um horror sci-fi futurista.

Lançada em Outubro de 2020, a narrativa acompanha uma agente que faz parte de uma organização secreta que possui um método tecnológico futurista para executar assassinatos encomendados: realiza a troca de consciência entre corpos, infiltrando agentes assassinos no corpo de executantes sequestrados que fazem parte de algum contexto da vida do alvo. 

A representação dos corpos do filme é quase sensorial, os enquadramentos são bastante orgânicos, sem muitos efeitos e, ainda assim, conseguem transmitir uma atmosfera perturbadora: são horríveis e incríveis. Crus. Há muita violência e sexualidade explícitas, mesmo que o diretor tenha cortado boa parte desse conteúdo do filme – estes cortes podem ser vistos na versão estendida do longa. Isso foi benéfico à história e ao plot, com violência na medida certa. Se houvesse mais, a experiência não seria tão satisfatória. O filme entrega o nível de perturbação ao qual a trama se propõe, equilíbrio que fez bem ao resultado final da produção.

Ao mesmo tempo em que a narrativa se mostra absurda e incômoda, nos prende em muitas instâncias, como pelo teor de ficção científica, a maneira explícita com a qual os assassinatos acontecem e com a apatia demonstrada por Andrea Riseborough (Tasya Vos), além das emoções conflitantes muito bem representadas por Christopher Abbott (Colin Tate).

Os aparatos tecnológicos apresentados nos fazem questionar o que se passa e do que de  se tratam aquele lugar e os personagens que lidam com as máquinas, apesar de não haver explicação ou pretensão em tomar o tempo do espectador: entendemos superficialmente para que servem e as sequelas que causam, sem que nos seja explicado que tecnologia é essa e em qual universo a história se passa. A maneira como a tecnologia aparece segue plausível para um futuro próximo da nossa realidade – que não acontece ainda, mas é possível – e isso convence o espectador.

O filme se mantém em ritmo lento até o terceiro ato, quando os desdobramentos da narrativa tomam rumos inesperados; a parte gráfica compensa a espera e o teor do plot também, que é quando ganha mais velocidade e intensidade tanto nas cores quanto nos enquadramentos dos protagonistas, que aqui se mesclam entre antagonista e herói, e assim permanecem até o fim.

A originalidade dentro do contexto surpreende e, apesar de outras produções de mesmo teor (sci-fi horror) de  Brandon, o resgate de maneirismos e condução baseada nos clássicos dos anos 80 é bastante interessante, com muitos recursos gráficos nos enquadramentos e escolhas de cores – mais frias em cenas externas e quentes em cenas internas, bem como na tratativa dos corpos e efeitos práticos. 

Possessor não é e nem pretende ser agradável, certamente quem o assiste não sai ileso, seja positiva ou negativamente.

Por Letícia Oliveira

Musicista formada pela UFES e uma das idealizadoras do podcast "Terrorias da Conspiração".

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