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Vol. 02 - Nº 03 - 2021

“Estou Pensando em Acabar com Tudo” e o existencialismo físico do pensamento

A personagem de Jessie Buckley está à espera de Jake, seu namorado, no que seria o início de uma viagem para que ela conheça os pais dele. Aparentemente estão no início do namoro e o entusiasmo do que deveria ser este momento é substituído por um pensamento que nos acompanha durante todo o filme: “estou pensando em acabar com tudo. A partir daí, as indagações e comparações que a jovem mulher faz em sua mente são voltadas para o peso de continuar ou não com Jake, sobre suas qualidades e defeitos e a maneira como os dois se complementam em pensamentos e ações.  

As nuances de humor são bastante peculiares e a profundidade dos diálogos também nos intriga: a cumplicidade e estranhamento que habitam mutuamente – e de maneira bastante efusiva – nessa relação chegam a ser perturbadoras. A primeira reação que o filme nos traz é a de confusão, o que não está distante de outras obras dirigidas ou escritas por Kaufman, que tem sua composição baseada em camadas sobrepostas que se somam como um quebra-cabeças intencionalmente embaralhado, onde todas as peças tendem a significar alguma coisa, mesmo que não sejam percebidas em suas minúcias – daí a graça em se analisar estas obras: a falta de sentido gera sentidos por si só. 

A paisagem que permeia a viagem é sempre a mesma, com um detalhe ou outro que – mais tarde percebemos – na verdade compõem uma mistura das coisas que Jake vive no presente com o que seriam memórias e assimilações do que já assistiu ou leu, numa mistura de realidades. Existe uma satirização das interações sociais, que exibem personagens com maneirismos exagerados e, ainda, a apresentação visual dos componentes que constroem a narrativa: o fato de o filme não ser em widescreen – o que nos lembra o formato quadrado exigido em postagens de algumas redes sociais, as cores que mudam com bastante frequência – apresentando tonalidades que se assemelham aos filtros de imagem disponibilizados nestas mesmas redes: tudo isso intensificado na casa da fazenda, lugar-memória – onde tudo é mais acentuado, as interações são desconexas e extremamente embaralhadas. A vivacidade expressada nas cenas de dentro da casa é diferente de todo o resto da narrativa. 

No monólogo inicial, a personagem de Jessie Buckley faz uma espécie de resumo sobre o que se daria na trama, citando paisagens vazias, diálogos acerca da existência humana, viagens longas em estradas rurais e sorvete. Fica explícito o incômodo sobre mesmice da rotina dos parâmetros sociais nos quais estamos inseridos, nossas memórias, quem somos e qual lugar ocupamos em relação ao tempo. Durante toda a viagem, nota-se a contemplação da jovem mulher sobre acabar com tudo e, mesmo que implicitamente pensemos que isto se trata do relacionamento com Jake, não fica claro ao que esse “tudo” de facto se refere. Percebemos então que o que se passa na viagem e o que sucede essa parte da narrativa é, na verdade, uma fantasia de Jake – não o jovem que dirige o carro, mas o outro – mais velho, presente – que aparece em alguns cortes como zelador de uma escola, a observar tudo e todos a sua volta enquanto trabalha, aproveitando-se de sua invisibilidade para questionar o verdadeiro sentido dos papéis e interações sociais, de sua existência e da existência humana em si. Várias pessoas com as quais o Jake-presente cruza em sua rotina na escola tornam a aparecer em diferentes papéis durante sua fantasia-memória.

A maneira como a família de Jake é representada diz muito sobre como se deu a construção dos vínculos afetivos dele com sua mãe e com seu pai – o que fica evidente na discrepância de tratamento entregue por ele a cada um deles. A visita também nos faz repensar a existência da jovem mulher, que parece ser fruto de Jake: uma projeção menos dolorosa do que ele gostaria de ter sido em vários momentos de sua vida. O facto de ela ser apresentada com vários nomes, a absorção dos maneirismos de sua família por ela – algo que Jake parece ter como repulsivo e desagradável, visto que na representação de si mesmo não há tais comportamentos – e, ainda, as várias profissões – distintas entre si – atribuídas a ela em diversos momentos da narrativa, sempre em períodos onde alguma informação nova sobre o passado de Jake era posta. Quando menciona o cachorro, ele logo aparece. Ao lembrar de poemas, quadros e filmes, a narrativa a traz como poetisa, pintora, crítica de cinema… Quando a mãe de Jake menciona problemas causados por seu envelhecimento, a jovem mulher prontamente se torna gerontóloga, a fim de sanar aquelas atribulações. Isto nos remete ao esforço falido do rapaz em querer ser tudo o que fosse necessário para acabar com os sofrimentos causados pelas adversidades da vida – que muitas vezes não tinham solução, e que contribuíram para o acúmulo de frustrações do Jake-presente.

O tempo é tópico de todos os diálogos entre o casal, ora denso, ora metafórico, ora visual, mas sempre ali, assim como citações e referências literárias, visuais e musicais, que estão a ser discutidas e questionadas o tempo inteiro – o que nos faz entender sobre o que de facto trata o filme: envelhecimento, perspectivas e o próprio tempo em si. Isto fica mais evidente em momentos como quando Buckley define o tempo como um vento que passa por nós, que somos passivos a sua ação, e quando Jake diz que o jovem é melhor, mais saudável e admirável, sendo a única instância a ser realmente lembrada com gozo.

Vários elementos nos trazem essa questão de diferentes ângulos e pontos de vista: quando chegam na fazenda, Jake insiste em mostrar os arredores para sua convidada e, ao chegarem no celeiro, existem corpos mortos de cordeiros e a história do porco que estava a ser comido por larvas enquanto ainda vivo. Observações sobre a miséria que deve ser a vida de uma ovelha, que existe imersa no tédio de ciclos que não mudam; a morbidez à qual estamos suscetíveis.

A maneira como a comida é representada nos traz a sensação de que o tempo aqui não é e nem pretende ser linear: antes de chegarem, Jake menciona que não devem esperar grande coisa do jantar, visto que sua mãe não estava bem de saúde. Quando apresentada, a fazenda não parece ser mais um lugar prolífico mas, quando sentam-se para comer, a mesa é farta e a mãe frisa que tudo ali é fruto da fazenda, com alimentos perfeitamente consumíveis. Ainda assim, o jantar começa e termina com a mesa cheia: aqui ocorre a primeira contradição temporal envolvendo comida. A segunda é quando vão para a sala de estar para aproveitar a sobremesa, que é um bolo explicitamente velho, provavelmente de meses atrás, mas que comem com bastante apetite; a terceira é com o sorvete que buscam na Tulsey Town, pelo qual perdem logo o apetite e então começa a derreter, explicitando a ação do tempo de forma mais direta.

Kaufman nos traz a ideia de que tudo ao nosso redor é imortal – o que também é representado em Synecdoche, New York (EUA, 2008), mas, aqui, a atmosfera parece mais claustrofóbica em quase todos os aspectos. Os enquadramentos de Buckley, a discussão sobre as artes que ela cria, os poemas que ela escreve, a confusão sobre o que são de facto memórias que ela tem e o que é apenas projeção de sua mente, quem é ela, quem é Jake, quem são os dois enquanto casal… O questionamento sobre o que de facto nos define, o que fica disso depois que morremos, a falta de controle sobre as lembranças e referências que absorvemos e vivenciamos durante nossas vidas – que começam a mudar e a ser esquecidos com o passar do tempo. O alzheimer que o pai de Jake parece vivenciar, o saudosismo da juventude e a veneração de obras artísticas, que fazem com que seus criadores sejam imortalizados; todos os elementos visuais, a narrativa sonora e os contextos nos quais os personagens estão inseridos nos fazem questionar tudo o tempo todo: o que é a existência humana? quem somos nós em relação aos outros, ao que queremos, ao que fazemos e ao que é certo? O que é certo? O que é válido? O que é o tempo e o que podemos controlar em relação a tudo isso? Somos fruto do que vivemos e consumimos, ou o que vivemos e consumimos é que é fruto de nós?

Estou Pensando em Acabar com Tudo, ao que parece, é querer apagar todos esses questionamentos; frear a mente desse caos que é se descobrir, se entender, saber-se em local e função, a importância de todas as coisas que permeiam o sistema social no qual estamos inseridos, sobre tudo o que consumimos e qual de fato é o nosso papel (papel de Jake, no ponto de vista do protagonista da trama) e qual o sentido geral de tudo e todos. Acabar com tudo é acabar com o pensamento em si. Desistir de pensar.

Por Letícia Oliveira

Musicista formada pela UFES e uma das idealizadoras do podcast "Terrorias da Conspiração".

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