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A Densidade do Monstro

Vou começar logo pelo elefante na sala para tirá-lo do caminho o quanto antes. Assim que saíram as primeiras reações a Hope, de Na Hong-Jin, após sua estreia em Cannes 2026, uma coisa se destacava em todos os textos: a qualidade dos CGIs do filme, dos personagens feitos em animação digital. Se falava muito sobre a pobreza da animação, se equiparava até a criações digitais de jogos de Playstation 2, console lançado nos anos 2000.

Confesso que, ao ver essas reações, fiquei um pouco indignado. Pouco me importo com qualidade de CGIs em filmes ou de gráficos em jogos. Estou mais preocupado com o caminho sentimental pelo qual a narrativa e a encenação vão me levar. Mas, lógico, há casos e casos. Existem sim obras que conseguem me tirar desse caminho pela pobreza de sua arte digital, mas são raras. Hope quase conseguiu esse feito.

Há altos e baixos entre os momentos dos monstros do filme, tecnicamente falando, e o problema é que a distância entre o topo e o fundo do poço é enorme e não há um meio do caminho. Porém, ao decorrer do filme é possível perceber que o problema pode não ser tão técnico assim, mas sim uma escolha equivocada de planos e momentos por parte do diretor. Ao chegar no final de Hope, a sensação é de que os monstros estão o tempo todo na mesma qualidade de CGI do início ao fim, o que muda é como eles são mostrados em tela. Voltarei nisso daqui a pouco.

Até chegar em Hope, Na Hong-Jin havia feito três outros longas metragens. The Chaser (2008) é um thriller enérgico e muito bem escrito, dos filmes de serial killer mais consistentes daquele período; The Yellow Sea (2010) é mais um suspense, dessa vez inconstante e com um terceiro ato bem falho, mas com uma cena específica no meio que me faz pensar sempre no filme até hoje; e, por fim, The Wailing (2016), onde o diretor pula para o horror e entrega uma obra assustadora até os ossos, sua melhor obra. Com esse currículo, me tornei fã de Na Hong-Jin e estava a bastante tempo esperando por Hope. 

Ao encontrar uma vaca brutalmente morta numa estrada, o policial Beom Seok orienta o caçador Sung Ki a seguir os rastros da coisa que matou o animal até uma floresta, enquanto ele próprio volta até a cidade de Hope Harbor para alertar a população de um possível predador que pode atacar desavisados. Mas, ao chegar em Hope, Beom Seok encontra o local completamente destruído por um monstro que ele logo encontrará. 

Essa primeira hora de Hope, dividida entre a incursão na floresta e, principalmente, a descoberta da cidade arrasada, representa o melhor que o diretor sabe entregar desde seu primeiro filme. Criação de tensão a partir do mistério e das coisas escondidas, das esquinas viradas, do inexplicável e da sensação de perigo a cada passo que os personagens dão. Na Hong-Jin definitivamente não está preocupado com nenhuma construção de personagem ou desenvolvimento de arco, sua intenção é te chamar para uma jornada acelerada — Senta aqui, não faça muitas perguntas e confie no que vou te mostrar. Enquanto ele brinca com o desconhecido, o filme é brilhante. Esconder o monstro e sugeri-lo a partir da destruição, dos sons e do desespero da população de Hope é o que há de melhor nas duas horas e quarenta do filme. 

Aliás, até pouco depois que o monstro é revelado, ainda há muita qualidade até que o filme transite para o segundo ato. A entrada da personagem Sung Ae, outra policial e parceira de Beom Seok, dá um gás na reta final do primeiro ato e coroa toda a sequência de perseguição seguinte. 

Os problemas narrativos de Hope começam de fato quando ele pára para mostrar o que a partir daí acontece até o seu final. Se já não havia intenção de construir algum arco emocional, apostando apenas na ação e na tensão, os diálogos expositivos e piadas escatológicas poderiam ter sido repensados. Piadas essas que, confesso, ainda me arrancaram risadas, mas sei que contribuem bem pouco para a unidade fílmica. 

E se o monstro é revelado, é hora de voltar a falar do CGI. Nos primeiros momentos, pensei que as reações de Cannes tinham sido exageradas, que daria facilmente para abstrair e seguir com o filme. Mas esse sentimento se dá justamente nos primeiros momentos em que Na ainda segue escondendo o monstro ou usando outras estratégias para mostrá-lo pouco. O ideal seria seguir assim durante todo o filme, pois daí seguiríamos atrelados apenas à tensão da narrativa. Só que Na decide, em muitos momentos, mostrar a criatura por completo, em closes, em câmeras lentas. Esses enquadramentos servem apenas para destacar tanto uma má qualidade das texturas quanto também uma falta de noção de peso e velocidade enquanto o monstro corre por estradas e florestas. 

Quando Hope entra em seu ato final e volta ao ritmo frenético do começo, as coisas melhoram novamente, mas os enquadramentos que apenas evidenciam esses defeitos continuam. Há também uma sensação de cansaço na ação final, de que você está vendo a mesma perseguição novamente, os tiros que não acabam, a criatura que não alcança nunca os personagens. Se tivéssemos vendo essa cena pela primeira vez, ela certamente teria um efeito melhor, pois realmente é tensa, bem construída e bem feita. Mas esse não é o caso. 

Hope é um intenso filme de ação, preocupado somente em conduzir o espectador em uma maratona de tensão, que sabe contar seu mistério por meio da furtividade e deixa as coisas desandarem quando resolve se expor para os olhos do público e de seus próprios personagens. Continuarei aguardando o próximo filme de Na Hong-Jin assim como esperei por Hope. O diretor já expressou a vontade de fazer uma continuação, e o próprio filme é construído para isso. Se for isso mesmo, estarei sentado para assistir assim que puder.

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Quando o amor deixa de ser escolha: a inquietante proposta de “Obsessão”

O terror sempre encontrou formas de explorar nossos medos mais profundos. Enquanto alguns filmes recorrem ao sobrenatural para assustar, outros utilizam o fantástico para revelar aspectos muito humanos. Obsessão (2025) pertence ao segundo grupo. Sob a aparência de um horror sobrenatural, o longa constrói uma reflexão sobre posse, consentimento e os limites entre o amor e a obsessão.

A premissa é simples e eficaz: um desejo aparentemente inocente desencadeia uma força capaz de transformar a paixão em dependência. A partir daí, o filme abandona qualquer idealização romântica e conduz o espectador por uma narrativa em que o afeto deixa de existir no instante em que a liberdade é retirada. O resultado é um terror que incomoda menos pelos acontecimentos sobrenaturais e mais pelo que eles representam.

Um dos maiores acertos do longa está justamente na maneira como utiliza o horror como metáfora narrativa. Em vez de construir apenas uma sequência de sustos, o filme convida o público a refletir sobre uma questão desconfortável: ainda podemos chamar de amor um sentimento que precisa ser imposto? A resposta nunca é dada de forma didática.

O elenco sustenta boa parte da tensão emocional, especialmente nos momentos em que a história exige uma mudança gradual entre vulnerabilidade, desejo e medo. As interpretações conseguem transmitir essa transformação de maneira convincente, tornando os personagens mais humanos e fazendo com que o terror psicológico tenha um impacto maior do que qualquer elemento sobrenatural.

A atmosfera sombria contribui para criar uma sensação constante de desconforto. Mesmo quando a narrativa desacelera, a direção consegue preservar certa inquietação, induzindo o espectador a um estado de alerta.

Em alguns momentos, o desenvolvimento da trama parece apressado e determinadas escolhas sacrificam um aprofundamento maior dos personagens. Algumas situações pareciam pedir por mais tempo, a fim de amadurecerem, e poderiam ter potencializado ainda mais o impacto dramático .

Obsessão lembra que a linha entre amar e possuir é muito mais delicada do que costumamos admitir. O verdadeiro horror do filme não nasce da maldição ou do sobrenatural, mas da perda da liberdade. Porque, quando alguém não o pode escolher, o amor já não existe. O que permanece é apenas obsessão.

Obsessão é uma reflexão sobre o lado mais sombrio dos relacionamentos humanos. E talvez seja justamente por isso que suas cenas continuam ecoando mesmo depois dos créditos finais.

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Obsessão, de Curry Barker

Vi algumas pessoas falando que Obsessão tinha o macabro de Cure (1997) e o cômico de Evil Dead (1981), misturado na medida certa. O filme de Curry Barker, diretor norte-americano que veio à tona a partir de filmes independentes lançados no YouTube (além de também fazer vários vídeos no TikTok), talvez vá além de uma mistura desses dois sentidos do cinema de horror. 

Em Obsessão, Bear (Michael Johnston) tem uma paixão platônica por sua amiga Nicky (Inde Navarrette). Ao comprar um presente para Nicky numa loja meio suspeita, um souvenir que diz realizar o seu desejo se você quebrar o pedaço de carvalho que tem dentro dele, Bear deseja que a amiga o ame mais do que tudo no mundo. Bom, isso acontece. Nicky passa a pensar somente em Bear, eles ficam juntos, começam a namorar, e o amor da garota passa a se tornar, como diz o título, uma obsessão. 

O filme realmente transita muito bem entre o horror e a piada, como nos comentários que vi pela internet, como herança direta do cinema clássico. Alfred Hitchcock prezava que seus suspenses tivessem momentos descontraídos para que a tensão tivesse um contraponto nos sentimentos do espectador. Intriga Internacional (1959) traz duas das cenas mais tensas que já vi, e ao mesmo tempo conta as melhores piadas que sua história poderia contar. Mas essa lógica não se aplica só ao suspense. Rio Bravo (1959), um dos grandes westerns de Howard Hawks, que também fala sobre a redenção de um homem perdido na vida, conta ótimas piadas visuais durante toda sua narrativa, inclusive com a famosíssima primeira cena que presta homenagem ao cinema mudo. Grande parte do poder de emocionar alguém com um gênero fílmico é saber balanceá-lo com seu “oposto”. O horror pode ficar muito mais assustador se souber incluir uma pequena risada momentos antes ou depois do medo. 

Obsessão é repleto disso. Em uma festa de amigos, Nicky e Bear estão participando de uma espécie de jenga misturado com “verdade e desafio”, e o filme brinca com a possibilidade do rapaz ter que dar um selinho em uma amiga em contraponto com o que Nicky fará se isso acontecer. Quando Bear realmente pega esse desafio, o que Nicky faz vai muito além do que se espera, arrancando risadas tortas e suspiros profundos.

A sessão em que eu assisti ao filme estava completamente na mão de Curry Barker. As pessoas compraram todas as batidas do filme, todas as suas curvas e desvios. O que parece estar acontecendo no mundo todo, visto o sucesso comercial que está fazendo. O ânimo do público parece crescer junto com a espiral de tensão que Nicky e Bear causam um ao outro, e nos outros personagens, durante o filme. 

Há também um charme na discussão sobre relacionamentos tóxicos que o filme traz. Isso porque você olha para a sinopse e pensa que o óbvio será dito, que pessoas tóxicas podem destruir vidas, que é complicado alguém se livrar de uma situação dessas. Mas Obsessão vai além. Há uma sutileza em como ele inverte essa questão, apostando em uma representação visual da coisa e um roteiro muito afiado. Infelizmente seria muito spoiler se eu fosse mais a fundo nessa virada, mas saibam que o discurso de Obsessão é inesperadamente mais profundo e macabro do que parece. Afinal, não seria errado você aceitar um amor que você sabe que é forçado? O quão disposto Bear realmente está em acabar com aquela situação? Há um momento em que ele deixa Nicky dormindo sozinha, e ela diz algumas coisas para Bear ao vê-lo saindo; as coisas ditas e não ditas nessa cena, todo seu sentido e revelações que ela traz, estão grudadas na minha cabeça desde que o filme acabou.

Preciso também tirar algumas linhas para falar de dois outros aspectos. O primeiro é que Curry Barker é um tremendo contador visual de histórias nesse filme. Há um baita esmero em cada plano, em cada jogada de luz (e são muitas), em cada encenação e enquadramento. Em um primeiro momento, esconder Nicky nas sombras serve para criar o medo em relação a personagem, depois serve para nos contar o quão em profundas trevas está o que seria a verdadeira Nicky. E a inventividade de Barker para criar cenas bizarras com coisas muito simples é louvável. Tem um momento envolvendo um plano em velocidade reversa que me tirou o riso mais nervoso que eu poderia dar. E eu não sou fã de referências em filmes, mas a que ele faz com o próprio Cure, que citei no começo do texto, é de arrepiar. 

O que nos traz diretamente a Nicky, ou a sua atriz Inde Navarrette. Não tem ninguém mal em Obsessão, todos os atores cumprem muito bem seus papéis. Mas a distância em que Navarrette se encontra dos demais é tão assustadora quanto as próprias atitudes obsessivas de Nicky. Ela nos faz acreditar, aos poucos, que Nicky foi substituída por uma outra pessoa. Quando a vemos pela primeira vez, antes do desejo de Bear, Nicky é uma amiga bondosa, bem humorada, carinhosa. E o que Inde Navarrete faz é ir sumindo com esses aspectos e os substituindo por coisas inexplicáveis. E ela nos faz sentir saudades da personagem do começo do filme, o que traz junto uma melancolia, pois a história segue por caminhos tão inesperados que você sabe que nunca mais verá a verdadeira personagem. Já saí da sessão ansioso para ver um próximo trabalho da atriz, sabendo que poderia estar vendo o primeiro destaque de um talento geracional. 

Vão ver Obsessão, é bom para um cacete.

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Seção Painel

Interview: Adrian Țofei

Romanian actor and director, Adrian Țofei wrote, directed and starred in the controversial horror foundfootage “Be my cat: A film for Anne”, whose plot revolves around a filmmaker that wants to direct a film starring Anne Hathaway that, after a long preparation, will perform role-playing simulations with local substitutes of the Hollywood star, in order to show her his direction abilities.

We, from Reimagem, had a good time with Țofei, talking about cinema, his career and future projects.

Be My Cat: A Film for Anne

RR: Metalanguage, inside arts in general, is a way to explore possibilities of renewal, updating or reconstruction of its own language. In your creative process, what is the metalanguage’s importance?

AȚ: Great question – do you know that I never really had a deep discussion with myself to find the roots of my love for meta? I think it has to do with educating audiences in an indirect way, without being preachy. I always loved to expose my creative process, to teach and inspire people about the art of filmmaking and acting, to make them engaged in a way beyond them being just audiences. I think I see them as potential future filmmakers or actors. Filmmaking or acting is not thought in schools or high schools as a compulsory subject like math or physics. So, when someone has talent in filmmaking or acting – how can they become aware of that talent? Movies show you the final product, they don’t show you the creative process. Except for meta films. They can show the process of their own making and on top of entertaining audiences, can also inspire them to venture into a creative path in life and get in touch with their potential talents.

RR: If we sum up the synopsis of Be My Cat: A Film for Anne, your first feature film, we could say that it is a pseudo-documentary that aims to propose the making of another film, starring Anne Hathaway. It is a film that exists and is registered in those images, but which reflects the desire to make another film that only exists in the protagonist’s imagination. How do movies, generally speaking, influence your way of seeing, thinking and producing cinema?

AȚ: Honestly there are so so so many ways that movies and acting performances influenced me that I literally can’t synthesize this in a couple of phrases. I’d have to write a novel, haha. I used to have a list of top 250 films that impressed and influenced me the most on my website, and was planning to detail the way every film influenced me, but when I realised that work would take forever, I deleted everything and just kept 100 films in the list without any explanation, haha. I went though in details back in 2012 in my Found Footage Manifesto.

RR: Since the release of Be My Cat, has Anne Hathaway given some kind of response to your movie?

AȚ: No, no sign from Anne Hathaway yet. My guess is that she at least heard about the movie, or maybe even watched the trailer, but that’s just a guess. Who knows. I used to dream that she’d be asked about Be My Cat by some late night show host, but that never happened. And herself saying something by her own initiative – I don’t see that happening anytime soon. I am sure at some point I’ll learn one way or another her opinion about the film, but that might not be public – just learning via word of mouth from industry people.

RR: In your “Found Footage Manifesto”, you also address the issue of realism, but in a more self-conscious way due to the explicit presence of the camera. In your opinion, what is the relationship between found footage and the idea of realism in cinema?

AȚ: Found footage and the Dogme 95 movement came as close as possible to the ultimate cinematic realism in terms or fictional narrative. I’d say found footage even more than Dogme 95 because in Dogme 95 you can still ask yourself: how come I see everything I see? obviously someone filmed everything and that someone is not part of the reality depicted in the film, therefore what I see is staged, is not real. Found footage removes even this last element that reminds audiences that what they see is not real by justifying the existence of the camera and the person filming within the reality depicted in the film. 

We Put the World to Sleep

RR: What can you already tell us about your next movie?

AȚ: We shot We Put the World to Sleep over a period of 5 years in over 12 cities, villages and remote locations in Romania, Turkey and Ukraine. My filmmaking method usually consists of working for months (years in this case) on an alternative psychological reality for the actors including myself, partially living in character, so that when we start improvising, I mainly need to record the unfolding events and to make sure the improvisation goes in the right direction. There is usually no detailed script, only plot points. I shoot tens of hours of footage guerrilla style (about 200 hours for We Put the World to Sleep), and then I watch the footage like a documentary filmmaker would and I create the details of the story in post-production during the editing process. But I think this time I might have went too far. If Be My Cat was 50% planned and 50% improvised, We Put the World to Sleep was only 25% planned and 75% improvised. I pushed to extremes the limits of improvisational filmmaking. Sometimes it worked, other times it didn’t. One thing is sure though, it’s going to be damn crazy!

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PORTUGUESE VERSION HERE

(Translated by Letícia Santos de Oliveira)