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Crônicas e Ensaios

Entre a projeção e o florescimento: duas formas de se libertar

Existe uma coisa que aproxima hate that i made you love me e petal mesmo que, à primeira vista, elas pareçam falar sobre coisas completamente diferentes.

Uma fala sobre ser desejada. A outra fala sobre sobreviver.

Mas, no fundo, as duas parecem partir da mesma pergunta: até que ponto aquilo que os outros colocam sobre nós precisa continuar pertencendo a nós?

Em hate that i made you love me, Ariana brinca com a ideia de ser responsabilizada pelo amor de alguém. Desde o título, ela assume uma culpa que não parece realmente acreditar que possui. “odeio ter feito você me amar” soa quase absurdo porque, conforme a música avança, fica evidente que ela não acredita ter feito nada para provocar tal sentimento. Ironia?

Alguém construiu, a partir de sua existência, uma versão imaginada de sua personagem.

A música fica ainda mais interessante quando Ariana menciona alguém que estudou sua imagem e tomou emprestado seu corpo. Há algo muito desconfortável nessa ideia: observar alguém, reunir fragmentos dela e transformá-los em uma personagem que passa a existir mais na imaginação do outro que na realidade em si.

A pessoa não necessariamente a ama. Ama aquilo que acredita que ela seja. E essa diferença é enorme.

O amor não deveria permitir que o outro permaneça contraditório, imperfeito, imprevisível? A projeção, por outro lado, exige que a pessoa permaneça inerte, exatamente como foi imaginada.

Nesse sentido, o sarcasmo da música funciona bem.

Ariana não parece interessada em pedir desculpas por não corresponder àquilo que esperavam dela. Quando pergunta se é realmente culpa dela que outras pessoas tenham entregado seus corações por vontade própria, existe quase uma devolução de responsabilidade.:

Você sentiu. Você escolheu. Isso também é seu.

E então o videoclipe transforma essa ideia em visualidade. Nele, Ariana se torna uma espécie de assombração. Ela é enterrada, desaparece e ressurge dos mortos. O personagem interpretado por Justin Long tenta se afastar, mas ela continua ressurgindo.

Existe humor no absurdo da situação, mas também há outra leitura possível: talvez não seja a personagem de Ariana quem está presa àquela história. Talvez seja ele. Ele tenta enterrá-la, mas não consegue matar o que criou dentro de si.

Se em hate that i made you love me Ariana questiona aquilo que alguém projetou sobre ela, em petal ela parece questionar outra prisão: a ideia de que precisa continuar pertencendo àquilo que a feriu.

A visão da flor crescendo entre rachaduras no concreto é emblemática justamente porque não ignora o cenário onde ela brotou: o asfalto continua sendo asfalto, as rachaduras continuam existindo.

petal parte dessa imagem para construir uma reflexão sobre sobrevivência e sobre a relação entre dor e criação. Existe uma expectativa, especialmente em torno de artistas, de que o sofrimento seja uma espécie de combustível. Como se uma pessoa precisasse continuar quebrada para continuar criando algo.

Ariana parece rejeitar essa ideia.

Uma coisa é transformar a dor em arte, outra é acreditar que precisa continuar doendo para continuar sendo artista.

Essa ideia também aparece na maneira como Ariana canta. Existe vulnerabilidade, mas sem a sensação de alguém se entregando completamente à própria fragilidade. Sua voz parece saber exatamente onde a delicadeza termina e onde começa a força.

Mas não se trata de um vigor construído pela dureza. É o contrário. É a possibilidade de ainda escolher a delicadeza sem a necessidade de continuar vulnerável àquilo que tentou destruí-la.

E talvez seja nesse ponto que as duas músicas realmente se encontram.

Em hate that i made you love me, Ariana se recusa a carregar sentimentos que pertencem ao outro. Em petal, ela  se recusa a prolongar a dor.

Uma música fala sobre não ser responsável pela projeção de alguém. A outra fala sobre não precisar ser definida pela própria ferida.

Talvez, amadurecer também tenha alguma coisa a ver com isto: aprender a separar aquilo que somos dos desejos e identidades que projetaram sobre nós.

Nem toda pessoa que nos ama conhece plenamente quem somos. Nem toda expectativa merece ser correspondida. Nem toda ferida precisa permanecer aberta. Nem toda dor que vivemos precisa continuar fazendo parte da nossa identidade.

Talvez por isso a imagem da assombração e da pétala funcionem tão bem juntas. Uma volta do túmulo, a outra renasce dele.

São, ambas, imagens de alguma coisa que deveria ter terminado, mas que não chegaram ao fim esperado.

A assombração retorna porque ainda existe algo que precisa ser visto.

A flor cresce porque já não precisa voltar para o lugar de onde veio.

Talvez seja essa a passagem entre as duas músicas: deixar de ser aquilo que os outros projetaram e descobrir quem somos depois daquilo que nos aconteceu.

No fim, liberdade não é deixar de ser desejada, lembrada ou de carregar cicatrizes. É poder existir sem precisar explicar nenhuma dessas coisas, ser amada sem pertencer ao outro, sobreviver sem ser definida pela própria dor e florescer sem precisar pedir licença ao lugar onde caiu. 

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Quando o amor deixa de ser escolha: a inquietante proposta de “Obsessão”

O terror sempre encontrou formas de explorar nossos medos mais profundos. Enquanto alguns filmes recorrem ao sobrenatural para assustar, outros utilizam o fantástico para revelar aspectos muito humanos. Obsessão (2025) pertence ao segundo grupo. Sob a aparência de um horror sobrenatural, o longa constrói uma reflexão sobre posse, consentimento e os limites entre o amor e a obsessão.

A premissa é simples e eficaz: um desejo aparentemente inocente desencadeia uma força capaz de transformar a paixão em dependência. A partir daí, o filme abandona qualquer idealização romântica e conduz o espectador por uma narrativa em que o afeto deixa de existir no instante em que a liberdade é retirada. O resultado é um terror que incomoda menos pelos acontecimentos sobrenaturais e mais pelo que eles representam.

Um dos maiores acertos do longa está justamente na maneira como utiliza o horror como metáfora narrativa. Em vez de construir apenas uma sequência de sustos, o filme convida o público a refletir sobre uma questão desconfortável: ainda podemos chamar de amor um sentimento que precisa ser imposto? A resposta nunca é dada de forma didática.

O elenco sustenta boa parte da tensão emocional, especialmente nos momentos em que a história exige uma mudança gradual entre vulnerabilidade, desejo e medo. As interpretações conseguem transmitir essa transformação de maneira convincente, tornando os personagens mais humanos e fazendo com que o terror psicológico tenha um impacto maior do que qualquer elemento sobrenatural.

A atmosfera sombria contribui para criar uma sensação constante de desconforto. Mesmo quando a narrativa desacelera, a direção consegue preservar certa inquietação, induzindo o espectador a um estado de alerta.

Em alguns momentos, o desenvolvimento da trama parece apressado e determinadas escolhas sacrificam um aprofundamento maior dos personagens. Algumas situações pareciam pedir por mais tempo, a fim de amadurecerem, e poderiam ter potencializado ainda mais o impacto dramático .

Obsessão lembra que a linha entre amar e possuir é muito mais delicada do que costumamos admitir. O verdadeiro horror do filme não nasce da maldição ou do sobrenatural, mas da perda da liberdade. Porque, quando alguém não o pode escolher, o amor já não existe. O que permanece é apenas obsessão.

Obsessão é uma reflexão sobre o lado mais sombrio dos relacionamentos humanos. E talvez seja justamente por isso que suas cenas continuam ecoando mesmo depois dos créditos finais.

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Críticas

Mentira, intimidade e a desproporção da culpa em “The Drama”

[ESTE TEXTO CONTÉM SPOILERS]

Há algo profundamente inquietante em The Drama, algo que transforma a mentira em matéria de erosão. O que se deteriora aqui não é somente a confiança entre duas pessoas, mas a própria percepção do que é verdade dentro de um vínculo amoroso. Sob esse olhar, o filme me parece menos um thriller psicológico e mais um estudo sobre intimidade sob tensão.

O filme parece começar como um drama conjugal sobre segredos e termina operando em outra camada: a do julgamento moral.

A grande revelação, de que Emma, personagem de Zendaya, na adolescência cogitou um ataque à escola após sofrer bullying e isolamento, treinou para isso e depois desistiu, poderia ser tratada apenas como um choque narrativo. Mas o filme tenta fazer mais do que isso. Ele desloca a questão de “o que ela pensou em fazer” para algo mais incômodo: o que significa condenar alguém eternamente por uma violência nunca cometida, sobretudo quando essa pessoa transformou esse passado em outra ética de vida?

O filme  por vezes prolonga excessivamente o desenrolar das mentiras que cercam o casal, insistindo em revisitar o conflito central até o limite da exaustão. Há momentos em que o roteiro parece girar em torno da mesma ferida, como se hesitasse em avançar. Mas me parece que essa repetição não é apenas um problema estrutural; ela reproduz a própria obsessão do julgamento, esse movimento de revisitar a culpa até esvaziar qualquer possibilidade de redenção.

The Drama não parece interessado em oferecer um julgamento simples. Pelo contrário, ele desestabiliza a lógica confortável da culpa. Ao fim, o que permanece é uma pergunta desconfortável: por que certos erros são tratados como imperdoáveis enquanto violências talvez maiores, cometidas por outros, parecem absorvidas com mais facilidade?

Há outros personagens operando formas de violência, afetiva, ética e simbólica, que parecem receber menos condenação que Emma. E o filme sabe disso. A questão nunca é apenas o segredo revelado, mas a escala de punição que se constrói ao redor dele.

Como mulher, essa dimensão me atravessou de modo particular. Porque a história não me parece apenas sobre um segredo destruidor entre noivos, mas sobre como a sociedade reage à complexidade feminina quando ela escapa da figura da inocência. Há algo no modo como o filme expõe culpa, punição e vigilância moral, especialmente sobre o feminino, que me parece impossível ignorar.

Emma não é escrita para ser facilmente absolvida nem demonizada, e essa ambiguidade é o gesto mais interessante do filme.

Se há provocação em transformar um pensamento adolescente terrível em centro dramático, há também uma pergunta legítima sendo feita: somos definidos para sempre por nossos impulsos mais sombrios, mesmo aqueles não realizados?

Essa pergunta sustenta o filme muito mais do que o suspense.

Zendaya entrega Emma com uma contenção dolorosa, recusando qualquer caricatura da “mulher perigosa” ou da “mulher arrependida”. Já Robert Pattinson faz de Charlie um homem dilacerado entre amor e horror, e a tensão entre os dois sustenta o filme mesmo quando o roteiro se torna reiterativo.

Há fragilidade, contenção e violência emocional no trabalho dos dois impede que a obra colapse sob o peso de suas ambições. Mesmo quando o roteiro me parece excessivo, as performances nunca vacilam.

No fim, The Drama conquista justamente por permanecer irresolvido. Não porque responda muito, mas porque perturba o suficiente para continuar ecoando. Não pede concordância, pede enfrentamento.