
Vi algumas pessoas falando que Obsessão tinha o macabro de Cure (1997) e o cômico de Evil Dead (1981), misturado na medida certa. O filme de Curry Barker, diretor norte-americano que veio à tona a partir de filmes independentes lançados no YouTube (além de também fazer vários vídeos no TikTok), talvez vá além de uma mistura desses dois sentidos do cinema de horror.
Em Obsessão, Bear (Michael Johnston) tem uma paixão platônica por sua amiga Nicky (Inde Navarrette). Ao comprar um presente para Nicky numa loja meio suspeita, um souvenir que diz realizar o seu desejo se você quebrar o pedaço de carvalho que tem dentro dele, Bear deseja que a amiga o ame mais do que tudo no mundo. Bom, isso acontece. Nicky passa a pensar somente em Bear, eles ficam juntos, começam a namorar, e o amor da garota passa a se tornar, como diz o título, uma obsessão.
O filme realmente transita muito bem entre o horror e a piada, como nos comentários que vi pela internet, como herança direta do cinema clássico. Alfred Hitchcock prezava que seus suspenses tivessem momentos descontraídos para que a tensão tivesse um contraponto nos sentimentos do espectador. Intriga Internacional (1959) traz duas das cenas mais tensas que já vi, e ao mesmo tempo conta as melhores piadas que sua história poderia contar. Mas essa lógica não se aplica só ao suspense. Rio Bravo (1959), um dos grandes westerns de Howard Hawks, que também fala sobre a redenção de um homem perdido na vida, conta ótimas piadas visuais durante toda sua narrativa, inclusive com a famosíssima primeira cena que presta homenagem ao cinema mudo. Grande parte do poder de emocionar alguém com um gênero fílmico é saber balanceá-lo com seu “oposto”. O horror pode ficar muito mais assustador se souber incluir uma pequena risada momentos antes ou depois do medo.

Obsessão é repleto disso. Em uma festa de amigos, Nicky e Bear estão participando de uma espécie de jenga misturado com “verdade e desafio”, e o filme brinca com a possibilidade do rapaz ter que dar um selinho em uma amiga em contraponto com o que Nicky fará se isso acontecer. Quando Bear realmente pega esse desafio, o que Nicky faz vai muito além do que se espera, arrancando risadas tortas e suspiros profundos.
A sessão em que eu assisti ao filme estava completamente na mão de Curry Barker. As pessoas compraram todas as batidas do filme, todas as suas curvas e desvios. O que parece estar acontecendo no mundo todo, visto o sucesso comercial que está fazendo. O ânimo do público parece crescer junto com a espiral de tensão que Nicky e Bear causam um ao outro, e nos outros personagens, durante o filme.
Há também um charme na discussão sobre relacionamentos tóxicos que o filme traz. Isso porque você olha para a sinopse e pensa que o óbvio será dito, que pessoas tóxicas podem destruir vidas, que é complicado alguém se livrar de uma situação dessas. Mas Obsessão vai além. Há uma sutileza em como ele inverte essa questão, apostando em uma representação visual da coisa e um roteiro muito afiado. Infelizmente seria muito spoiler se eu fosse mais a fundo nessa virada, mas saibam que o discurso de Obsessão é inesperadamente mais profundo e macabro do que parece. Afinal, não seria errado você aceitar um amor que você sabe que é forçado? O quão disposto Bear realmente está em acabar com aquela situação? Há um momento em que ele deixa Nicky dormindo sozinha, e ela diz algumas coisas para Bear ao vê-lo saindo; as coisas ditas e não ditas nessa cena, todo seu sentido e revelações que ela traz, estão grudadas na minha cabeça desde que o filme acabou.
Preciso também tirar algumas linhas para falar de dois outros aspectos. O primeiro é que Curry Barker é um tremendo contador visual de histórias nesse filme. Há um baita esmero em cada plano, em cada jogada de luz (e são muitas), em cada encenação e enquadramento. Em um primeiro momento, esconder Nicky nas sombras serve para criar o medo em relação a personagem, depois serve para nos contar o quão em profundas trevas está o que seria a verdadeira Nicky. E a inventividade de Barker para criar cenas bizarras com coisas muito simples é louvável. Tem um momento envolvendo um plano em velocidade reversa que me tirou o riso mais nervoso que eu poderia dar. E eu não sou fã de referências em filmes, mas a que ele faz com o próprio Cure, que citei no começo do texto, é de arrepiar.

O que nos traz diretamente a Nicky, ou a sua atriz Inde Navarrette. Não tem ninguém mal em Obsessão, todos os atores cumprem muito bem seus papéis. Mas a distância em que Navarrette se encontra dos demais é tão assustadora quanto as próprias atitudes obsessivas de Nicky. Ela nos faz acreditar, aos poucos, que Nicky foi substituída por uma outra pessoa. Quando a vemos pela primeira vez, antes do desejo de Bear, Nicky é uma amiga bondosa, bem humorada, carinhosa. E o que Inde Navarrete faz é ir sumindo com esses aspectos e os substituindo por coisas inexplicáveis. E ela nos faz sentir saudades da personagem do começo do filme, o que traz junto uma melancolia, pois a história segue por caminhos tão inesperados que você sabe que nunca mais verá a verdadeira personagem. Já saí da sessão ansioso para ver um próximo trabalho da atriz, sabendo que poderia estar vendo o primeiro destaque de um talento geracional.
Vão ver Obsessão, é bom para um cacete.
