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Vol. 02 - Nº 04 - 2021

Racionais MC’s e o Roteiro Cinematográfico

Felizmente, descobri os Racionais MC’s bem cedo na vida. Negro Drama. Isso na adolescência, um menino da roça, cidade pequena, zero conhecimento de mundo ou de seus problemas mais cruciais. Então, a música batia mais pelo ritmo e pela raiva cantada do que pelo que estava sendo dito. Mas batia, ainda assim. 

Uma faculdade de cinema depois, ouço Racionais todos os dias. Me tornei um ouvinte assíduo nos últimos três anos, agora sim pelo que se dizia nas letras, pela forma com que se dizia, e pelo ritmo, pelas histórias…

Sou um roteirista aspirante, de alguma forma estudioso do roteiro cinematográfico e de suas teorias. Talvez por isso tenha percebido outra coisa em relação às músicas do grupo: algumas delas são puro cinema, roteiros perfeitos de tramas bem elaboradas e bem contadas. Se o roteiro de cinema é um modo de (d)escrever ações e imagens e saber selecionar tanto as partes tensas quanto amenas de uma vida para construir uma trama, então os Racionais, além de músicos, são cineastas.

Por isso apresento esta lista. Vou escrever, brevemente, sobre cinco músicas dos Racionais MC’s que deveriam ser usadas como estudo de roteiro cinematográfico. 

Então, vamos lá:

5 – Eu Sou 157

No livro “Sobrevivendo no Inferno”, que junta as letras do álbum de mesmo nome dos Racionais, há um prefácio escrito por Acauam Silverio de Oliveira onde o autor analisa toda a obra do grupo e pontua as mudanças de estilo com o passar do tempo. A parte mais interessante para mim é quando Acauam mostra que, nas primeiras músicas, o discurso falava dos problemas da favela com uma visão soberba, colocando as soluções diante dos olhos dos moradores das comunidades e julgando o fato de que eles não as viam. A partir de Sobrevivendo no Inferno isso muda. Toda a problemática agora é tratada de forma respeitosa, mesmo com as coisas mais violentas. A intenção não é mostrar para o restante da sociedade a vivência da favela, isso a MPB tentou fazer. O que os Racionais queriam e ainda querem é olhar para dentro e fortalecer a própria favela. Por isso, a mudança de postura.

Dentro disso se encontra Eu Sou 157, do álbum Nada Como Um Dia Após o Outro Dia. Aqui, Mano Brown conta um pouco da cabeça de um rapaz que já está completamente enraizado no crime. Na segunda estrofe, é apresentada uma situação que mostra essas raízes, em que o personagem é abordado por um outro homem querendo se enturmar, falando gíria, falando de drog…. Ele analisa essa pessoa, fala dos seus modos, de como chegou ali, e no fim descobre que era um policial sob disfarce. Sua experiência possibilitou esse reconhecimento e essa fuga. 

A música segue contando seus pensamentos internos até que surge um trabalho a fazer, um assalto planejado. Mas o crime dá errado, alguém os caguetou e um moleque morre. Então, vem a estrofe: 

O neguinho vinha vindo, do que vinha rindo?
O pesadelo do sistema não tem medo da morte
Dobrou o joelho e caiu como um homem
Na giratória, abraçado com o malote
Eu falei, porra! Eu não te falei?! Não ia dar!
Pra mãe dele, quem que vai falar, quando nóis chegar?
Um filho pra criar, imagina a notícia
Lamentável, vamo aí, vai chover de polícia

Em seguida, a música faz uma digressão. Por alguns segundos o beat para, ouvimos o som de uma televisão e de uma mulher chorando em desespero. É a mãe do menino morto. No meio da ação, Brown faz uma vírgula para contar brevemente sobre outra linha narrativa. E só precisa de um choro para isso.

Depois, outra estrofe, seguida do refrão:

A vida é sofrida, mas não vou chorar
Viver de quê? Eu vou me humilhar?
É tudo uma questão de conhecer o lugar
Quanto tem, quanto vem e a minha parte, quanto dá porque…

Hoje eu sou ladrão, artigo 157
As cachorra me ama, os playboy se derrete
Hoje eu sou ladrão, artigo 157
A polícia bola um plano, sou herói dos pivete

Foi triste, foi sofrido, mas essa é a vida dessa personagem. Agora, e o dinheiro? É o fim perfeito.

4 – Capítulo 4, Versículo 3

A terceira faixa de Sobrevivendo no Inferno é uma das maiores canções da história da música brasileira. Ela abre exatamente com o discurso que citei acima. Não adianta falar da criminalidade, da pobreza e da fome como se a solução fosse fácil. Ela não é. E se há um lugar por onde começar a encontrá-la, esse lugar não está fora da favela, não está em Brasília. Está dentro da própria comunidade. Esse trecho famoso fala exatamente sobre isso: 

Colou dois mano, um acenou pra mim
De jaco de cetim, de tênis, calça jeans
Ei, Brown, sai fora, nem vai, nem cola
Não vale a pena dar ideia nesse tipo aí
Ontem à noite eu vi na beira do asfalto
Tragando a morte, soprando a vida pro alto
Ó os cara, só o pó, pele e osso
No fundo do poço, mó flagrante no bolso
Veja bem, ninguém é mais que ninguém
Veja bem, veja bem, e eles são nossos irmãos também
Mas de cocaína e crack, uísque e conhaque
Os mano morre rapidinho, sem lugar de destaque
Mas quem sou eu pra falar de quem cheira ou quem fuma?
Nem dá, nunca te dei porra nenhuma

Por isso, Capítulo 4, Versículo 3 funciona como essa grande reflexão, intercalando diálogos internos com histórias pontuais. Funciona como Magnólia, do Paul Thomas Anderson, ou Amores Brutos, do Alejandro González Iñarritu. 

Em seguida, segue a história de vários anos de um personagem que foi do céu ao inferno. 

Em poucas linhas, os Racionais falam da vitória e da desgraça, falam de todos os problemas que esse personagem passou ao mesmo tempo em que também falam de questões “menores”. E isso é roteiro, saber fazer perceber, às vezes, que o que vemos de um personagem também pode ser algo que já se deu anteriormente, ou que vai se repetir no futuro. O que diz muito sobre tal personagem. O pulo do gato, no entanto, é saber contar isso sem soar artificial:

Você vai terminar tipo o outro mano lá
Que era um preto tipo A, ninguém tava numa
Mó estilo de calça Calvin Klein, tênis Puma, é
Um jeito humilde de ser, no trampo e no rolê
Curtia um Funk, jogava uma bola
Buscava a preta dele no portão da escola
Exemplo pra nós, mó moral, mó Ibope
Mas começou a colar com os branquinho do shopping (aí já era)
Ih, mano, outra vida, outro pique
Só mina de elite, balada, vários drinques
Puta de boutique, toda aquela porra
Sexo sem limite, Sodoma e Gomorra
Faz uns nove anos
Tem uns quinze dias atrás eu vi o mano
Cê tem que ver, pedindo cigarro pros tiozinho no ponto
Dente tudo zuado, bolso sem nenhum conto
O cara cheira mal, as tias sentem medo
Muito loco de sei lá o quê, logo cedo
Agora não oferece mais perigo
Viciado, doente, fudido, inofensivo

3 – Jesus Chorou

Talvez eu vá longe demais agora, mas a introdução de Jesus Chorou, também do Nada Como Dia Após o Outro Dia me lembra a introdução de Persona, do Ingmar Bergman. Persona é um dos maiores filmes de todos os tempos e sua primeira sequência, da primeira vez em que se vê, parece completamente deslocada do resto do filme. Ela mostra diversas imagens de arquivo até chegar no quarto onde uma criança dorme. Essa criança acorda e vê, numa tela, talvez a mesma tela em que as imagens de arquivo estavam passando, o rosto da personagem de Liv Ulmann, Elisabet. Há algumas teorias sobre essa introdução de Bergman, a principal delas é que essa criança é uma representação do filho de Elisabet, que (ela mesma é quem conta) ela não foi capaz de criar.

A primeira estrofe de Jesus Chorou é uma reflexão sobre a angústia, e faz isso ao falar sobre a lágrima:

O que é, o que é?
Clara e salgada,
Cabe em um olho e pesa uma tonelada
Tem sabor de mar,
Pode ser discreta
Inquilina da dor,
Morada predileta
Na calada ela vem,
Refém da vingança,
Irmã do desespero,
Rival da esperança
Pode ser causada por vermes e mundanas
E o espinho da flor,
Cruel que você ama
Amante do drama,
Vem pra minha cama,
Por querer, sem me perguntar me fez sofrer
E eu que me julguei forte,
E eu que me senti,
Serei um fraco quando outras delas vir
Se o barato é louco e o processo é lento,
No momento,
Deixa eu caminhar contra o vento
Do que adianta eu ser durão e o coração ser vulnerável?
O vento não, ele é suave, mas é frio e implacável
(E quente) Borrou a letra triste do poeta
(Só) Correu no rosto pardo do profeta
Verme sai da reta,
A lágrima de um homem vai cair,
Esse é o seu BO pra eternidade
Diz que homem não chora,
Tá bom, falou,
Não vai pra grupo irmão aí,
Jesus chorou!

Eu entendo Jesus Chorou como uma das músicas mais pessoais de Mano Brown, e também vejo nela uma ligação com o momento que os Racionais viviam, o da fama absoluta. 

Depois dessa introdução, a música segue contando de um personagem que é acordado por uma ligação. Um amigo lhe conta de um encontro que teve ontem com um cara que começou a falar que esse personagem era uma pessoa mesquinha e que não se importava com os seus (seus manos da favela), depois que ficou bem de vida. Ela funciona como um longo diálogo interno, o personagem não está psicologicamente bem de saúde. A música não conta uma história completa como as outras que já apresentei, mas gosto como ela apresenta angústias, medos e pensamentos do personagem. Como neste trecho: 

Vermelho e azul, “Hotel”, pisca só no,
Cinza escuro do céu
Chuva cai lá fora e aumenta o ritmo,
Sozinho eu sou agora o meu inimigo íntimo
Lembranças más vem, pensamentos bons vai,
Me ajude, sozinho penso merda pra caralho
Gente que acredito, gosto e admiro,
Brigava por justiça e paz levou tiro:
Malcom X, Ghandi, Lennon, Marvin Gaye,
Che Guevara, 2Pac, Bob Marley e
O evangélico Martin Luther King
Lembrei de um truta meu falar assim:
“Não joga pérolas aos porcos irmão,
Joga lavagem eles prefere assim,
‘Cê tem de usar piolhagem!”

Então, o personagem foge um pouco da situação que lhe tirou da zona de conforto e conta sobre outra coisa que lhe tira o sono. Expõe que pode estar pensando em coisas muito ruins, como o suicídio. 

Jesus Chorou é uma aula de como mostrar problemas internos de uma personagem de várias formas diferentes, sendo que elas estão interligadas. E isso traz o sentimento e a veracidade, coisas essenciais para um roteiro ser triunfante na hora de contar sua história.

2 – Diário de um Detento

Essa é clássica e fácil de colocar numa lista como esta. Aliás, Diário de um Detento já é filme. Carandiru, de Héctor Babenco, é uma adaptação do livro de Dráusio Varella, mas também está intrinsecamente ligado à música dos Racionais.

Escrita por Mano Brown junto de um detento que sobreviveu ao massacre do Carandiru, Jocenir, a história da música se passa em 3 dias. Um antes do massacre, o massacre em si e o dia seguinte a ele. É um roteiro clássico. Há a apresentação dos vários elementos que constituem a história já no primeiro ato:

[…]
Na muralha, em pé, mais um cidadão José
Servindo o Estado, um PM bom
Passa fome, metido a Charles Bronson
Ele sabe o que eu desejo
Sabe o que eu penso
O dia ‘tá chuvoso o clima ‘tá tenso
Vários tentaram fugir, eu também quero
Mas de um a cem, a minha chance é zero
[…]
Tirei um dia a menos ou um dia a mais, sei lá
Tanto faz, os dias são iguais
Acendo um cigarro, e vejo o dia passar
Mato o tempo pra ele não me matar
Homem é homem, mulher é mulher
Estuprador é diferente, né?
Toma soco toda hora, ajoelha e beija os pés
E sangra até morrer na rua 10
Cada detento uma mãe, uma crença
Cada crime uma sentença
Cada sentença um motivo, uma história de lágrima
Sangue, vidas e glórias, abandono, miséria, ódio
Sofrimento, desprezo, desilusão, ação do tempo
Misture bem essa química
Pronto, eis um novo detento

Temos a virada do primeiro para o segundo ato (antes de um grande momento de reflexão sobre o que é ser um presidiário):

[…]
Amanheceu com sol, dois de outubro
Tudo funcionando, limpeza, jumbo
De madrugada eu senti um calafrio
Não era do vento, não era do frio
Acertos de conta tem quase todo dia
Tem outra logo mais, eu sabia
Lealdade é o que todo preso tenta
Conseguir a paz, de forma violenta
Se um salafrário sacanear alguém
Leva ponto na cara igual Frankestein
Fumaça na janela, tem fogo na cela
Fudeu, foi além, se pã, tem refém
Na maioria, se deixou envolver
Por uns cinco ou seis que não têm nada a perder
Dois ladrões considerados passaram a discutir
Mas não imaginavam o que estaria por vir

O segundo ato, no caso, é todo o massacre. Para então chegar ao ato final, aqui descrito em 4 versos:

[…]
Ratatatá, Fleury e sua gangue
Vão nadar numa piscina de sangue
Mas quem vai acreditar no meu depoimento?
Dia 3 de Outubro, diário de um detento

Se eu fosse professor de roteiro (algo que tenho desejo, confesso), proporia o seguinte exercício aos alunos: “tente escrever três dias de um personagem, vamos ver em quantas páginas você faz isso. Esses dias precisam ter conflitos, ideias, e a premissa precisa estar presente”.

Óbvio, um roteiro não tem a duração de uma música, mas é inegável a habilidade dos Racionais MC’s em falar muito com poucas palavras e tudo ainda fazer sentido. 

1 – Tô Ouvindo Alguém Me Chamar

Essa, para mim, é a melhor música do grupo e a maior e melhor canção da música brasileira. Ainda não ouvi nada que tivesse a complexidade narrativa de Tô Ouvindo Alguém Me Chamar. Ela valeria um texto só, e eu ainda devo algum dia esboçar algo assim. 

A música conta sobre dois amigos de vida e de crime. O principal é quem narra, o outro é o Guina, um ladrão conhecido, violento, temido. Ela vai e vem no tempo, faz digressões psicológicas no meio de cenas importantíssimas, que contam mais sobre os personagens, reforçam características ou justificam ações. Tudo isso em 8 minutos de música.

O Guina, como falei, é apontado como alguém a se ter medo:

[…]
Todo ponta firme, foi professor no crime
Também mó sangue frio, não dava boi pra ninguém
[…]
O Guina não tinha dó:
Se reagir, Bum!, vira pó
[…]
Eu tava bem de perto e acertei uns seis
O Guina foi e deu mais três

Logo depois desse último trecho, Brown entra com a história do Guina, começando da sua infância, passando pela adolescência e chegando na vida adulta. Ele conta de possíveis ações que o fizeram ficar assim. E ainda fala um pouco do destino de todos da favela, de como a vida acaba sendo muito cruel mesmo com quem consegue expressar suas potências:

[…]
Lembro que um dia o Guina me falou
Que não sabia bem o que era amor
Falava quando era criança
Uma mistura de ódio, frustração e dor
De como era humilhante ir pra escola
Usando a roupa dada de esmola
De ter um pai inútil, digno de dó
Mais um bêbado, filho da puta e só
Sempre a mesma merda, todo dia igual
Sem feliz aniversário, Páscoa ou Natal
Longe dos cadernos, bem depois
A primeira mulher e o 22
Prestou vestibular no assalto do busão
Numa agência bancária se formou ladrão
Não, não se sente mais inferior
Aí neguinho, agora eu tenho o meu valor
Guina, eu tinha mó admiração, ó
Considerava mais do que meu próprio irmão, ó
Ele tinha um certo dom pra comandar
Tipo, linha de frente em qualquer lugar
Tipo, condição de ocupar um cargo bom e tal
Talvez em uma multinacional
É foda…
Pensando bem que desperdício
Aqui na área acontece muito disso
Inteligência e personalidade
Mofando atrás da porra de uma grade
A outra digressão é composta de apenas uma linha. 

O personagem principal fala muito de sua família, de como saiu de casa e, principalmente, da relação com seu irmão, um cara que não foi para o crime, que conseguiu estudar e formar uma família. Sentimos muita angústia do personagem ao contar essa histórias, até porque a música, no fim, é sobre seu desejo de viver tranquilamente. Por isso, em um momento, ele reflete sobre os crimes que cometeu e sonha com a própria morte:

[…]
Agora é tarde, eu já não podia mais
Parar com tudo, nem tentar voltar atrás
Mas no fundo, mano, eu sabia
Que essa porra ia zoar a minha vida um dia
Me olhei no espelho e não reconheci
Estava enlouquecendo, não podia mais dormir
Preciso ir até o fim
Será que Deus ainda olha pra mim?
Eu sonho toda madrugada
Com criança chorando e alguém dando risada
Não confiava nem na minha própria sombra
Mas segurava a minha onda
Sonhei que uma mulher me falou, eu não sei o lugar
Que um conhecido meu (quem?) ia me matar
Precisava acalmar a adrenalina
Precisava parar com a cocaína
Não to sentindo meu braço
Nem me mexer da cintura pra baixo
Ninguém na multidão vem me ajudar?
Que sede da porra, eu preciso respirar!
Em seguida ele solta essa frase:
Cadê meu irmão?

Pode não parecer nada, mas para mim isso é um toque de mestre. Isso atesta todo o discurso. A vida lhe puxou até esses acontecimentos, ele teve poucas opções de escolha. E, mesmo nas piores turbulências, o seu desejo de sair desse mundo se resume a essa pergunta. 

Cadê meu irmão? 

Já chorei com essa música algumas vezes. Hoje em dia, sempre que preciso lembrar como uma história deve ser escrita, faço duas coisas: vou ver filmes antigos e/ou escuto Tô Ouvindo Alguém Me Chamar.

Além de entrar em questões de vestibulares pelo país afora, os Racionais MC’s deveriam entrar nos currículos de cinema. Há outros exemplos dentro da discografia dos caras. Há outros exemplos mesmo dentro dessas músicas que apresentei. Trechos e mais trechos que podem contribuir com toda teoria de roteiro cinematográfico que existe. Há filmes clássicos, filmes modernos, planos sequências, flashbacks, sonhos, fantasia… cinema!

Viva os Racionais.

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Vol. 02 - Nº 04 - 2021

2021, um ano plural

Dois mil e vinte e um foi um ano complicado, principalmente de conteúdo. Passamos um ano inteiro com vários adiamentos de diversas formas, as indústrias todas pararam para repensar ou retrabalhar obras pós-Covid. O que pensar? Inserir a pandemia na narrativa das obras audiovisuais ou não? Tivemos exemplos de ambos, mas o resultado é difícil de descrever, o que resultou em um 2021 muito confuso.

Nesse contexto gostaria de comentar um pouco sobre as experiencias audiovisuais que se sobressaíram nessa confusão. Por algum motivo, a safra de cinema foi excelente, principalmente nos melodramas: Obras como  Ataque dos Cães de Jane Campion e Madres Paralelas de Pedro Almodovar chegaram em um destaque incrível, mas no quesito cinema, pra mim, a melhor obra de 2021 foi:

O Último Duelo, de Ridley Scott

©2021 20th Century Studios. All Rights Reserved.

Ridley Scott trabalha muito. Um homem de 84 anos que filma duas megaproduções juntas nessa energia é admirável. Ele filmou The Last Duel e, na sequência, The House of Gucci. Ainda não tive o prazer de ver o segundo, mas The Last Duel é uma das suas melhores obras. Imagine Gladiador, mas com uma atenção melhor ao roteiro e na direção. É complicado discutir mais sobre o filme sem entrar nos tais “spoilers”, mas The Last Duel é a obra máxima de Ridley Scott: conseguimos ver todas as interações de uma direção madura no decorrer do filme, que ainda atiça atuações incríveis de atores que muita gente imagina que não tem mais nada a oferecer, como Matt Damon e Ben Affleck. Infelizmente vai passar em branco nas premiações pois flopou nas bilheterias e foi eclipsado por House of Gucci, mas se você tiver a oportunidade de assistir, não perca tempo.

Pensando em obras eclipsadas, penso agora no meu curta favorito do ano:

Magnético

Magnético, Cassemiro Vitorino e Ilka Goldschmidt

O documentário de Cassemiro Vitorino e Ilka Goldschmidt, quando começa, passa a impressão de ser um mockumentary (documentário falso), sobre uma cidade que sofre de incidentes de agroglifos (marcações nas fazendas, semelhantes ao que rolava no filme Sinais), em cidades do interior de Santa Catarina. Quando você percebe que os relatos são reais e que as pessoas daquelas pequenas cidades estão compartilhando seu novo folclore, o filme cresce imensamente. Pessoas simples compartilhando histórias e a direção sabendo exatamente a linha do que é sério e do que seria considerado como galhofa, caso fosse uma mão mais pesada da direção, faz para mim um dos melhores documentários do ano. Pensar e viabilizar esse storytelling sem pesar no tema de ufologia, que é alvo fácil de chacota em qualquer contexto, não é para qualquer um.

Ainda pensando no contexto espacial, ao meu ver, um dos melhores jogos desse ano foi:

Metroid Dread

Metroid Dread: veja lançamento e gameplay do jogo para Nintendo Switch |  Jogos de ação | TechTudo

Dread, que por algum motivo bizarro nos faz pensar primeiro no corte de cabelo, significa medo ou temor. Metroid é uma franquia que trabalha muito a solidão: em quase todas as instâncias, a protagonista (Samus Aran) é jogada em um planeta desolado, somente com inimigos focados em barrar seu progresso. Nessa jornada solitária, Metroid Dread é o 5º jogo da série e encerra sua cronologia de forma magistral, onde o principal destaque são os EMMIs, que são seres robóticos que te perseguem e te matam em um hit só, diretamente inspirados no filme Alien, onde o xenomorfo é uma força imparável; além disso, o game tem uma das melhores batalhas de chefes do ano.

Impossível não citar também, agora em questão de série:

Chucky (Don Mancini)

O boneco não para! Em sua obsessão de destruir a maior quantidade de vidas possível, agora o vemos atuando em um pequeno subúrbio americano: sua cidade natal. Retornando depois de um arco narrativo de 7 filmes, Chucky agora chega em uma nova linguagem, a de tele-série. Em seus últimos capítulos, as produções cinematográficas se encaminhavam para uma finalização épica que acabou deixando muita coisa em aberto. Transformada em uma narrativa serializada, entretanto, houve espaço para um desenvolvimento maior e mais intrigante do boneco assassino mais famoso do mundo, além da inclusão de novos personagens que só enriqueceram o lore da série, isso sem deixar de mencionar especificamente os novos protagonistas, adolescentes LGBTQIA+, o que espelha uma persona do seu criador, Don Mancini, que vê na identificação algo muito importante para o entretenimento atual. Trazendo personagens queridos de volta (se tem algo que vende bem agora é essa nostalgia), mas dividindo bem o espaço com os novos elementos, Chucky foi uma grata surpresa, principalmente por vir de um canal que tem a fama de exibir produções de baixa qualidade. 

A PLURALIDADE DE 2021

Diversas obras poderiam ser mencionadas nessa lista, como a experiência virtual KID A MNSEIA do Radiohead, que comemora os 20 anos de seus álbuns icônicos em uma exploração audiovisual única dentro dos videogames. Também o esforço de Taylor Swift de regravar e relançar seus álbuns roubados, principalmente o álbum Red , repensando a narrativa do álbum e seus singles e lançando o curta água-com-açúcar de All Too Well.

No cinema, o fantástico não para: obras como Titane (Julia Ducournau) e The Night House (David Bruckner) refletem a dor e a confusão do que foi 2021 para a grande maioria das pessoas.

Se 2022 for tão confuso quanto, que seja nessa qualidade. 

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20 curtas-metragens: 20 caminhos possíveis para o cinema brasileiro dos próximos anos

Esta seleção surge em meio às safras de 2020 e 2021 (dois anos que para mim foram um único), com obras marcantes, que circularam pelos festivais online durante a pandemia e atingiram públicos bem mais amplos do que as salas exibidoras dos festivais – um momento ímpar na difusão do curta-metragem brasileiro,  e que espero ter sido capaz de proporcionar trocas e questionamentos que gerem frutos interessantes no decorrer desta década.

Temos aqui vinte modos distintos de se compreender e conhecer o Brasil contemporâneo e suas tensões, a partir dos instigantes discursos, estéticas e éticas trazidos pelxs novxs sujeitxs que têm reinventado o audiovisual brasileiro em anos recentes. Nesse conjunto, o curta-metragem traça uma radiografia do momento presente, ao mesmo tempo que aponta possíveis caminhos a serem trilhados, entre necessários fins de mundos (acontecendo e por acontecer) e urgentes fundações de outros, desta vez pautados por uma constelação de imagens mais focadas em libertar do que em reiterar os sempre mesmos traumas e silenciamentos coloniais que ainda abundam no “sagrado” cânone do cinema brasileiro.

República (Grace Passô, 2020)

Pode ser visto aqui: https://ims.com.br/convida/grace-passo/

A Morte Branca do Feiticeiro Negro (Rodrigo Ribeiro, 2020)

A cambonagem e o incêndio inevitável (Castiel Vitorino Brasileiro e Roger Ghil, 2021)

Pode ser visto aqui: https://vimeo.com/572278333

Perifericu (Vita Pereira, Rosa Caldeira, Stheffany Fernanda e Nay Mendl, 2020)

Uma paciência selvagem me trouxe até aqui (Érica Sarmet, 2021)

Inabitável (Enock Carvalho e Matheus Farias, 2020)

Inabitáveis (Anderson Bardot, 2020)

Egum (Yuri Costa, 2020)

Sem título # 7 – Rara (Carlos Adriano, 2021)

Nascente (Safira Moreira, 2020)

Disponível aqui: https://ims.com.br/convida/safira-moreira/

Morde e Assopra (Stanley Albino, 2021)

Usina – Desejo Contra a Indústria do Medo (Amanda Seraphico, Clarissa Ribeiro e Lorran Dias, 2021)

Per Capita (Lia Letícia, 2021)

Ser feliz no vão (Lucas H. Rossi dos Santos, 2020)

Abjetas 288 (Júlia da Costa e Renata Mourão, 2020)

Puxadinho (Fredone, 2020)

Menarca (Lillah Halla, 2020)

Até a data de publicação desta lista, o filme estava disponível na plataforma MUBI.

Sideral (Carlos Segundo, 2021)

4 Bilhões de Infinitos (Marco Antônio Pereira, 2020)

Pode ser visto aqui: https://www.periferica.art/4bilhoesdeinfinitos

A gente acaba aqui (Everlane Moraes, 2021)

Disponível em https://ims.com.br/convida/everlane-moraes/

BONUS TRACKS

Dois longa-metragens fundamentais:

Nuhu yãgmu yõg hãm: essa terra é nossa! (Isael Maxakali, Sueli Maxakali, Carolina Canguçu, Roberto Romero, 2020)

Yãmĩyhex, as mulheres-espírito (Isael Maxakali, Sueli Maxakali, 2019)

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Críticas

Poema ao Tempo

Sento-me diante de uma página em branco.

Imagino um criador-criatura observando o vazio:

quero ser esse vazio, estar nele, habitá-lo…

Desejo escrever a respeito de um filme, mas não posso

porque ele me escapa…

Começo um poema que não saberei terminar.

Não compreendo minhas próprias palavras

elas me afogam.

Penso no tempo e na vida e na morte e nas coisas inevitáveis:

crescer, sonhar, amar, enlouquecer, perder, temer.

Entre viver e morrer,

há apenas um instante,

um segundo que perdura…

Quantas eternidades cabem em mim?

Tento.

Escrevo algumas palavras, mas as rejeito.

O poema, como uma criança sem cuidado, está morto.

Acendo um cigarro e me afeto por seu gosto de canela.

Três instantes eternos:

puxar, tragar e soltar

(viver, tragar o mundo e morrer)

Observo a fumaça: estou nela,

Deus está nela,

a vida e a morte estão nela.

Um filme inteiro se esvaindo depressa.

Dentro da fumaça, crianças crescem em uma cena torta

(desenquadramento)

Não percebi de onde vinha o vento que carregava a fumaça,

o mesmo vento que movimenta as ondas

do mar, da câmera, da encenação, da passagem dos anos.

A vida é um filme que se esvai em duas horas,

e cada hora corresponde a uma morte inteira,

e cada hora corresponde a uma noite inteira,

Deus, do alto de sua montanha,

filma os homens

escreve o Certo e Errado

em linhas tortas torpes tolas

porque o Homem é um tolo.

Uma criança com feições adultas interrompe o vento.

Não há futuro, porque tudo passou.

Tudo passou.

É o fim:

o recomeço de tudo.

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Seção Painel

Interview: Adrian Țofei

Romanian actor and director, Adrian Țofei wrote, directed and starred in the controversial horror foundfootage “Be my cat: A film for Anne”, whose plot revolves around a filmmaker that wants to direct a film starring Anne Hathaway that, after a long preparation, will perform role-playing simulations with local substitutes of the Hollywood star, in order to show her his direction abilities.

We, from Reimagem, had a good time with Țofei, talking about cinema, his career and future projects.

Be My Cat: A Film for Anne

RR: Metalanguage, inside arts in general, is a way to explore possibilities of renewal, updating or reconstruction of its own language. In your creative process, what is the metalanguage’s importance?

AȚ: Great question – do you know that I never really had a deep discussion with myself to find the roots of my love for meta? I think it has to do with educating audiences in an indirect way, without being preachy. I always loved to expose my creative process, to teach and inspire people about the art of filmmaking and acting, to make them engaged in a way beyond them being just audiences. I think I see them as potential future filmmakers or actors. Filmmaking or acting is not thought in schools or high schools as a compulsory subject like math or physics. So, when someone has talent in filmmaking or acting – how can they become aware of that talent? Movies show you the final product, they don’t show you the creative process. Except for meta films. They can show the process of their own making and on top of entertaining audiences, can also inspire them to venture into a creative path in life and get in touch with their potential talents.

RR: If we sum up the synopsis of Be My Cat: A Film for Anne, your first feature film, we could say that it is a pseudo-documentary that aims to propose the making of another film, starring Anne Hathaway. It is a film that exists and is registered in those images, but which reflects the desire to make another film that only exists in the protagonist’s imagination. How do movies, generally speaking, influence your way of seeing, thinking and producing cinema?

AȚ: Honestly there are so so so many ways that movies and acting performances influenced me that I literally can’t synthesize this in a couple of phrases. I’d have to write a novel, haha. I used to have a list of top 250 films that impressed and influenced me the most on my website, and was planning to detail the way every film influenced me, but when I realised that work would take forever, I deleted everything and just kept 100 films in the list without any explanation, haha. I went though in details back in 2012 in my Found Footage Manifesto.

RR: Since the release of Be My Cat, has Anne Hathaway given some kind of response to your movie?

AȚ: No, no sign from Anne Hathaway yet. My guess is that she at least heard about the movie, or maybe even watched the trailer, but that’s just a guess. Who knows. I used to dream that she’d be asked about Be My Cat by some late night show host, but that never happened. And herself saying something by her own initiative – I don’t see that happening anytime soon. I am sure at some point I’ll learn one way or another her opinion about the film, but that might not be public – just learning via word of mouth from industry people.

RR: In your “Found Footage Manifesto”, you also address the issue of realism, but in a more self-conscious way due to the explicit presence of the camera. In your opinion, what is the relationship between found footage and the idea of realism in cinema?

: Found footage and the Dogme 95 movement came as close as possible to the ultimate cinematic realism in terms or fictional narrative. I’d say found footage even more than Dogme 95 because in Dogme 95 you can still ask yourself: how come I see everything I see? obviously someone filmed everything and that someone is not part of the reality depicted in the film, therefore what I see is staged, is not real. Found footage removes even this last element that reminds audiences that what they see is not real by justifying the existence of the camera and the person filming within the reality depicted in the film. 

We Put the World to Sleep

RR: What can you already tell us about your next movie?

: We shot We Put the World to Sleep over a period of 5 years in over 12 cities, villages and remote locations in Romania, Turkey and Ukraine. My filmmaking method usually consists of working for months (years in this case) on an alternative psychological reality for the actors including myself, partially living in character, so that when we start improvising, I mainly need to record the unfolding events and to make sure the improvisation goes in the right direction. There is usually no detailed script, only plot points. I shoot tens of hours of footage guerrilla style (about 200 hours for We Put the World to Sleep), and then I watch the footage like a documentary filmmaker would and I create the details of the story in post-production during the editing process. But I think this time I might have went too far. If Be My Cat was 50% planned and 50% improvised, We Put the World to Sleep was only 25% planned and 75% improvised. I pushed to extremes the limits of improvisational filmmaking. Sometimes it worked, other times it didn’t. One thing is sure though, it’s going to be damn crazy!

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PORTUGUESE VERSION HERE

(Translated by Letícia Santos de Oliveira)

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Seção Painel

Entrevista: Adrian Țofei

[ENGLISH VERSION HERE]

Ator e diretor, o romeno Adrian Țofei roteirizou, dirigiu e protagonizou o polêmico foundfootage de horror Be my cat: A film for Anne, cujo enredo gira em torno de um cineasta que deseja realizar um filme estrelado por Anne Hathaway e que, para tanto, realizará simulações de encenação com as atrizes locais no lugar da estrela hollywoodiana, a fim de mostrar a ela suas capacidades enquanto diretor.

Țofei conversou com a Reimagem sobre cinema, sua carreira e sobre futuros projetos.*

Be My Cat: A Film for Anne

RR: A metalinguagem, nas artes de um modo geral, é uma maneira de se debruçar sobre si mesma para explorar possibilidades de renovação, atualização ou reconstrução de sua própria linguagem. O que significa, pra você, esse gesto de pensar o cinema como uma linguagem que, depois de 125 anos, ainda é capaz de se renovar e se reconfigurar?

AȚ: Ótima pergunta – você sabe que eu nunca tive uma discussão profunda comigo mesmo para encontrar as raízes do meu amor por metalinguagem? Acho que tem a ver com educar o público de forma indireta, sem ser tedioso. Sempre adorei expor meu processo criativo, ensinar e inspirar as pessoas sobre a arte de fazer cinema e atuar, para torná-las engajadas de uma maneira que vai além de categorizá-las apenas como público. Acho que os vejo como potenciais futuros cineastas e atores. A produção de filmes, ou a atuação, não é considerada uma disciplina obrigatória nas escolas ou colégios, como matemática ou física. Então, quando alguém tem talento para fazer filmes ou atuar, como podem tomar consciência desse talento? Os filmes mostram o produto final, não mostram o processo criativo. Exceto para meta filmes, que podem mostrar o processo de sua própria feitura e, além de entreter o público, também podem inspirá-los a se aventurar em um caminho criativo na vida e entrar em contato com seus potenciais talentos.

RR: Se resumíssemos a sinopse de Be My Cat: A Film for Anne, seu primeiro longa-metragem, poderíamos dizer que se trata de um falso documentário cujo objetivo principal é propor a realização de um outro filme, a ser estrelado pela Anne Hathaway. É um filme que existe e está registrado, materializado naquelas imagens, mas que espelha o desejo de realizar um outro filme, que só existe no imaginário do protagonista. Há uma certa sofisticação nessa construção narrativa que nos leva a pensar nessa obsessão não só pela atriz, no caso do seu filme, mas também pelo cinema como parte de um imaginário coletivo. Como os filmes, falando de um modo global e generalizado, influenciam o seu modo de ver, pensar e produzir cinema?

AȚ: Honestamente, existem tantas maneiras pelas quais filmes e atuações me influenciaram que eu literalmente não consigo sintetizar isso em algumas frases. Eu teria que escrever um romance (risos). Costumava ter uma lista dos 250 filmes que mais me impressionaram e influenciaram no meu site, e planejava detalhar como cada filme me influenciava, mas quando percebi que o trabalho demoraria uma eternidade, apaguei tudo e apenas mantive 100 filmes na lista sem nenhuma explicação. Me aprofundo melhor em detalhes no meu Manifesto Found Footage**, de 2012.

RR: Afinal, em algum momento desde o lançamento de Be My Cat, a Anne Hathaway deu algum tipo de resposta ao teu filme (risos)?

AȚ: Não, nenhum sinal de Anne Hathaway ainda. Meu palpite é que ela deve ao menos ter ouvido falar do filme, ou até assistido ao trailer. Quem sabe? Eu costumava sonhar que ela seria questionada sobre Be My Cat por algum apresentador de programa do horário nobre, mas isso nunca aconteceu. Ou ela mesma dizendo algo por iniciativa própria – não vejo isso acontecendo tão cedo. Tenho certeza de que em algum momento vou saber, de uma forma ou de outra, a opinião dela sobre o filme, mas isso pode não ser público – apenas através do boca a boca do pessoal da indústria.

RR: Você, em seu “Manifesto Found Footage”, também aborda a questão do realismo, mas de uma maneira mais autoconsciente pela presença proposital e explícita da câmera. Na sua opinião, qual é a relação entre o found footage e a ideia de realismo no cinema?

: As filmagens encontradas e o movimento Dogma 95 chegaram o mais perto possível do realismo cinematográfico, em termos de narrativa ficcional. Eu diria que encontrou imagens ainda além do Dogma 95, porque ali ainda podemos nos perguntar: como é que eu vejo tudo o que vejo? Obviamente quem filmou não faz parte da realidade retratada no filme, pois o que eu vejo é encenado, não é real. Os found footages removem até mesmo este último elemento que lembra o público de que o que vê não é real, justificando a existência da câmera e da pessoa filmando dentro da realidade do filme.

We Put the World to Sleep

RR: O que você já pode nos contar sobre o próximo projeto?

: Filmamos We Put the World to Sleep*** durante um período de 5 anos, em mais de 12 cidades, vilas e locais remotos na Romênia, Turquia e Ucrânia. Meu método de fazer filmes geralmente consiste em trabalhar por meses (anos neste caso) em uma realidade psicológica alternativa para os atores, incluindo a mim mesmo, vivendo parcialmente no personagem, de modo que quando improvisação começa, minha responsabilidade principal seja registrar os acontecimentos que se desenrolam, e ter a certeza de que a improvisação vai na direção certa. Normalmente não há um roteiro detalhado, apenas pontos de virada. Eu tiro dezenas de horas de filmagens no estilo guerrilha (cerca de 200 horas para We Put the World to Sleep), e então eu assisto as filmagens como um documentarista faria, e então crio os detalhes da história na pós-produção, durante o processo de edição. Mas acho que desta vez posso ter ido longe demais. Se Be My Cat foi 50% planejado e 50% improvisado, We Put the World to Sleep foi apenas 25% planejado. Eu levei ao extremo os limites da produção cinematográfica improvisada. Por vezes funcionou, por vezes não. Uma coisa é certa: vai ser uma loucura!

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* Nota do editor: Apesar das possíveis discordâncias, nosso interesse será sempre publicar todas as respostas dos entrevistados, mas aqui, nesta entrevista, precisamos retirar uma questão por motivos de que algo deve ter escapado no gesto da comunicação entre nós e Adrian, tendo em vista nossas diferenças tanto de idioma quanto das realidades cinematográficas e culturais dentro das quais se vive e se produz, ele lá e nós aqui (tratava-se de uma questão um tanto quanto política relacionada ao cinema brasileiro de terror, que no fim das contas nos pareceu incompreendida e, portanto, não respondida).

**https://adriantofei.com/writings/the-found-footage-manifesto/

***https://weputtheworldtosleep.com/

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Críticas

Homem-máquina, Máquina-homem

As ranhuras na película da TV usada que compramos há dois anos têm aumentado consideravelmente. O que antes eram só pequenos arranhões que deformavam de leve a imagem proposta pelos pixels, agora, apresentam uma extensa faixa branca que cobre boa parte da tela. De onde vejo, as imagens não são mais as mesmas.

Tem sido uma experiência curiosa a de ver filmes, acompanhar festivais, produzir e estudar cinema nestes tempos de isolamento. É que, em casa, as telas parecem brilhar um tanto mais, convocando uma atenção que nem sempre nos cabe e que, às vezes, nos desatina de nosso foco: um filme passa na tv enquanto engatilho o twitter como se fosse uma extensão de minha percepção. 

Tuíto, logo existo.

Carro Rei foi o primeiro filme que me chamou atenção na programação do 49º Festival de Cinema de Gramado – carros falantes e algum tipo de complô político já eram anunciados no trailer, coisas que têm minha atenção garantida desde muito cedo. Culpa do Carpenter e de sua Christine, que conheci em alguma noite do passado, quando minha atenção ainda se dedicava totalmente aos emissores de luz daquela TV antiga na casa dos meus tios… me encantei pela Christine do Carpenter muito antes de saber que existia uma Christine do King – a literatura viria a ser foco maior da minha atenção na adolescência, quando tudo que me interessava no cinema eram as sequências de terror juvenil americanas pós-Pânico.

Carro Rei começa com uma crônica ágil sobre uma mulher que dá a luz a um menino dentro de um automóvel. Essa criança cresce com o estranho dom de se comunicar com os carros. Carros serão também um negócio de família que o menino precisará levar adiante, mesmo que tenha outros planos de vida. 

Na tela muito arranhada da minha TV, os rostos dos atores se desconfiguram dependendo de sua posição no enquadramento das cenas. Me sinto um tanto traído pelo aparelho, já que não recebo daqui o que o filme me envia de lá. O filme ainda é o mesmo?

Uma vez tocaram saxofone aos pés da minha janela enquanto assistia, pela primeira vez, um dos filmes do Decálogo, do Kieslowski. Era uma serenata para o vizinho. Não Amarás ganhou uma trilha sonora que mais soava como uma sessão do antigo Cine Privé, do canal Bandeirantes, e aquilo mudou para sempre minha percepção a respeito do filme. 

Lembro de ter feito um post sobre isso.

Como daquela vez, o filme que me chega agora parece alterado por condições extra fílmicas. Não só pelo defeito na película da minha TV, mas principalmente pelo modo como as coisas se dão no filme da Renata Pinheiro: a tecnologia como extensão do corpo e da mente humana – ou seria o contrário?

Em Carro Rei, tudo surge com vontade de se assumir simbiótico: do filtro azulado aos nomes das personagens; o nascimento do menino Uno/Ninho e sua capacidade de se comunicar com os carros; a breve e divertida alusão à cena final de Holy Motors; ou o modo como o filme nos apresenta a personagem Mercedes (que, com uma espécie de farol acoplado em sua calcinha, traça um caminho vertical vermelho entre os carros mortos de um ferro velho): tudo grita por uma união perene entre homem e máquina.

Esse desejo encontra sua melhor expressão na figura de Zé Macaco, personagem interpretado por um Matheus Nachtergaele inspirado que, infelizmente, sofre demais na tela arranhada da minha sucata. Amo-o desde seu primeiro aparecimento, mas minha televisão me prega peças e o rosto do ator é repartido ao meio pelo cansaço de minha tv defeituosa.  

Zé Macaco é uma espécie de evolução humana às avessas, um Homo Sapiens que evoluiu para macaco; o bicho, por causa do jeito que fala e se comporta, mas também o instrumento de trabalho. Poderia se chamar “Zé Macaco Hidráulico”, que tudo continuaria fazendo sentido. Uma evolução homem-ferramenta no processo de involução homem-bicho. Até o movimento de seu corpo regride do autoconhecimento adquirido pela prática do pole dance para uma dureza mecânica de um corpo devotado servilmente ao trabalho, dominado pela tecnologia inteligente batizada de “carro rei”. 

Anotei uma palavra no meu celular enquanto via uma das cenas: “autômato”. 

As tecnologias e seu modo de usar são, aqui, propositalmente invertidas: quem deveria controlar e manipular as máquinas é subserviente às suas vontades de máquina. Deste modo, torna-se impossível pensar a tecnologia como extensão de si, pois ela já não nos serve como instrumento ou ferramenta. 

O discurso que perpassa o filme de Renata Pinheiro e serve de motivação para suas personagens, humanas ou não (já não faz diferença), talvez esteja em algum lugar entre: 1) uma crítica ao uso das tecnologias como um condicionamento decisivo da visão e da experimentação do mundo em detrimento de uma experiência mais direta, menos mediada pelas máquinas, com a vida e; 2) um discurso que busque um viés mais harmonioso e menos conservador, que vislumbre e viabilize possibilidades para essa convivência inevitável com o universo tecnológico que habita nosso cotidiano. 

Alguém tuitou sobre o filme.

Achei anotado no celular assim que a exibição terminou: “…no filme tem essa planta que se alimenta dos resíduos da máquina e, na contracorrente do senso comum, brota e encontra um jeito de evoluir”. 

A simbiose, afinal?

tuitar (para não esquecer): preciso consertar a tv.

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“Estou Pensando em Acabar com Tudo” e o existencialismo físico do pensamento

A personagem de Jessie Buckley está à espera de Jake, seu namorado, no que seria o início de uma viagem para que ela conheça os pais dele. Aparentemente estão no início do namoro e o entusiasmo do que deveria ser este momento é substituído por um pensamento que nos acompanha durante todo o filme: “estou pensando em acabar com tudo. A partir daí, as indagações e comparações que a jovem mulher faz em sua mente são voltadas para o peso de continuar ou não com Jake, sobre suas qualidades e defeitos e a maneira como os dois se complementam em pensamentos e ações.  

As nuances de humor são bastante peculiares e a profundidade dos diálogos também nos intriga: a cumplicidade e estranhamento que habitam mutuamente – e de maneira bastante efusiva – nessa relação chegam a ser perturbadoras. A primeira reação que o filme nos traz é a de confusão, o que não está distante de outras obras dirigidas ou escritas por Kaufman, que tem sua composição baseada em camadas sobrepostas que se somam como um quebra-cabeças intencionalmente embaralhado, onde todas as peças tendem a significar alguma coisa, mesmo que não sejam percebidas em suas minúcias – daí a graça em se analisar estas obras: a falta de sentido gera sentidos por si só. 

A paisagem que permeia a viagem é sempre a mesma, com um detalhe ou outro que – mais tarde percebemos – na verdade compõem uma mistura das coisas que Jake vive no presente com o que seriam memórias e assimilações do que já assistiu ou leu, numa mistura de realidades. Existe uma satirização das interações sociais, que exibem personagens com maneirismos exagerados e, ainda, a apresentação visual dos componentes que constroem a narrativa: o fato de o filme não ser em widescreen – o que nos lembra o formato quadrado exigido em postagens de algumas redes sociais, as cores que mudam com bastante frequência – apresentando tonalidades que se assemelham aos filtros de imagem disponibilizados nestas mesmas redes: tudo isso intensificado na casa da fazenda, lugar-memória – onde tudo é mais acentuado, as interações são desconexas e extremamente embaralhadas. A vivacidade expressada nas cenas de dentro da casa é diferente de todo o resto da narrativa. 

No monólogo inicial, a personagem de Jessie Buckley faz uma espécie de resumo sobre o que se daria na trama, citando paisagens vazias, diálogos acerca da existência humana, viagens longas em estradas rurais e sorvete. Fica explícito o incômodo sobre mesmice da rotina dos parâmetros sociais nos quais estamos inseridos, nossas memórias, quem somos e qual lugar ocupamos em relação ao tempo. Durante toda a viagem, nota-se a contemplação da jovem mulher sobre acabar com tudo e, mesmo que implicitamente pensemos que isto se trata do relacionamento com Jake, não fica claro ao que esse “tudo” de facto se refere. Percebemos então que o que se passa na viagem e o que sucede essa parte da narrativa é, na verdade, uma fantasia de Jake – não o jovem que dirige o carro, mas o outro – mais velho, presente – que aparece em alguns cortes como zelador de uma escola, a observar tudo e todos a sua volta enquanto trabalha, aproveitando-se de sua invisibilidade para questionar o verdadeiro sentido dos papéis e interações sociais, de sua existência e da existência humana em si. Várias pessoas com as quais o Jake-presente cruza em sua rotina na escola tornam a aparecer em diferentes papéis durante sua fantasia-memória.

A maneira como a família de Jake é representada diz muito sobre como se deu a construção dos vínculos afetivos dele com sua mãe e com seu pai – o que fica evidente na discrepância de tratamento entregue por ele a cada um deles. A visita também nos faz repensar a existência da jovem mulher, que parece ser fruto de Jake: uma projeção menos dolorosa do que ele gostaria de ter sido em vários momentos de sua vida. O facto de ela ser apresentada com vários nomes, a absorção dos maneirismos de sua família por ela – algo que Jake parece ter como repulsivo e desagradável, visto que na representação de si mesmo não há tais comportamentos – e, ainda, as várias profissões – distintas entre si – atribuídas a ela em diversos momentos da narrativa, sempre em períodos onde alguma informação nova sobre o passado de Jake era posta. Quando menciona o cachorro, ele logo aparece. Ao lembrar de poemas, quadros e filmes, a narrativa a traz como poetisa, pintora, crítica de cinema… Quando a mãe de Jake menciona problemas causados por seu envelhecimento, a jovem mulher prontamente se torna gerontóloga, a fim de sanar aquelas atribulações. Isto nos remete ao esforço falido do rapaz em querer ser tudo o que fosse necessário para acabar com os sofrimentos causados pelas adversidades da vida – que muitas vezes não tinham solução, e que contribuíram para o acúmulo de frustrações do Jake-presente.

O tempo é tópico de todos os diálogos entre o casal, ora denso, ora metafórico, ora visual, mas sempre ali, assim como citações e referências literárias, visuais e musicais, que estão a ser discutidas e questionadas o tempo inteiro – o que nos faz entender sobre o que de facto trata o filme: envelhecimento, perspectivas e o próprio tempo em si. Isto fica mais evidente em momentos como quando Buckley define o tempo como um vento que passa por nós, que somos passivos a sua ação, e quando Jake diz que o jovem é melhor, mais saudável e admirável, sendo a única instância a ser realmente lembrada com gozo.

Vários elementos nos trazem essa questão de diferentes ângulos e pontos de vista: quando chegam na fazenda, Jake insiste em mostrar os arredores para sua convidada e, ao chegarem no celeiro, existem corpos mortos de cordeiros e a história do porco que estava a ser comido por larvas enquanto ainda vivo. Observações sobre a miséria que deve ser a vida de uma ovelha, que existe imersa no tédio de ciclos que não mudam; a morbidez à qual estamos suscetíveis.

A maneira como a comida é representada nos traz a sensação de que o tempo aqui não é e nem pretende ser linear: antes de chegarem, Jake menciona que não devem esperar grande coisa do jantar, visto que sua mãe não estava bem de saúde. Quando apresentada, a fazenda não parece ser mais um lugar prolífico mas, quando sentam-se para comer, a mesa é farta e a mãe frisa que tudo ali é fruto da fazenda, com alimentos perfeitamente consumíveis. Ainda assim, o jantar começa e termina com a mesa cheia: aqui ocorre a primeira contradição temporal envolvendo comida. A segunda é quando vão para a sala de estar para aproveitar a sobremesa, que é um bolo explicitamente velho, provavelmente de meses atrás, mas que comem com bastante apetite; a terceira é com o sorvete que buscam na Tulsey Town, pelo qual perdem logo o apetite e então começa a derreter, explicitando a ação do tempo de forma mais direta.

Kaufman nos traz a ideia de que tudo ao nosso redor é imortal – o que também é representado em Synecdoche, New York (EUA, 2008), mas, aqui, a atmosfera parece mais claustrofóbica em quase todos os aspectos. Os enquadramentos de Buckley, a discussão sobre as artes que ela cria, os poemas que ela escreve, a confusão sobre o que são de facto memórias que ela tem e o que é apenas projeção de sua mente, quem é ela, quem é Jake, quem são os dois enquanto casal… O questionamento sobre o que de facto nos define, o que fica disso depois que morremos, a falta de controle sobre as lembranças e referências que absorvemos e vivenciamos durante nossas vidas – que começam a mudar e a ser esquecidos com o passar do tempo. O alzheimer que o pai de Jake parece vivenciar, o saudosismo da juventude e a veneração de obras artísticas, que fazem com que seus criadores sejam imortalizados; todos os elementos visuais, a narrativa sonora e os contextos nos quais os personagens estão inseridos nos fazem questionar tudo o tempo todo: o que é a existência humana? quem somos nós em relação aos outros, ao que queremos, ao que fazemos e ao que é certo? O que é certo? O que é válido? O que é o tempo e o que podemos controlar em relação a tudo isso? Somos fruto do que vivemos e consumimos, ou o que vivemos e consumimos é que é fruto de nós?

Estou Pensando em Acabar com Tudo, ao que parece, é querer apagar todos esses questionamentos; frear a mente desse caos que é se descobrir, se entender, saber-se em local e função, a importância de todas as coisas que permeiam o sistema social no qual estamos inseridos, sobre tudo o que consumimos e qual de fato é o nosso papel (papel de Jake, no ponto de vista do protagonista da trama) e qual o sentido geral de tudo e todos. Acabar com tudo é acabar com o pensamento em si. Desistir de pensar.

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Editoriais Vol. 02 - Nº 03 - 2021

EDITORIAL: Linguagens

Hoje (28/06/2021) é dia do orgulho LGBTQIA+. O tema desta edição, no entanto, parece distante das questões do orgulho, da vivência ou da luta dessa bandeira. É verdade, porém, que a maioria da equipe que compõe esta revista faz parte da comunidade LGBTQIA+ e vê, obviamente, a necessidade de abordar nossas temáticas em uma revista voltada para o audiovisual, um meio que, por muito tempo, não nos retratou com muita justiça e tampouco nos empregou ou nos deu as oportunidades certas para deixar, nas telas, as marcas de nossa existência.

Os tempos têm mudado? Talvez. Mas é impossível não olhar ao redor e ver, em todo canto, os reflexos e consequências da eleição de um LGBTfóbico como presidente de um país tão plural e diverso como o nosso. É nesse tempo, nesses dias incertos, encobertos por uma sombra de dúvidas e ameaças (visíveis e invisíveis), que enxergamos a necessidade de falar, HOJE, sobre arte, cultura, cinema, televisão, sendo assumidamente LGBTs. Viver com medo não é uma opção e, apesar de acreditarmos na urgência de demarcar as potências de nossas vidas, o (nem tão) simples gesto de manter uma publicação como esta, em dias como estes, com um expediente como o nosso, é também uma forma de afirmar nosso ORGULHO e nossa RESISTÊNCIA. Que nossa linguagem não seja apenas a da sobrevivência, pois estamos vivos e ativos, nos mantemos produtivos mesmo sob a atmosfera de tempos tão difíceis.

Nesta edição, Letícia Oliveira comenta a respeito do filme Estou Pensando em Acabar com Tudo (Charlie Kaufman, 2020) sob um viés existencialista; PH Martins se debruça sobre O Caso Evandro (Aly Muritiba e Michelle Chevrand, 2021), série de TV baseada no podcast do jornalista Ivan Mizanzuk; Gustavo Guilherme tenta traçar um panorama breve a respeito da metalinguagem no cinema contemporâneo a fim de assumir a importância do exercício da linguagem cinematográfica; e Leonardo Ribeiro dedica ao filme Histórias que Nosso Cinema (não) Contava (Fernanda Pessoa, 2017) um importante texto que nos relembra da fertilidade transgressora de nosso cinema.

Além disso, a Revista Reimagem entra em uma nova fase, ampliando-se para outras mídias: dois podcasts são veiculados aqui, um deles é o Olhos Fechados, produzido do Leonardo Ribeiro; o outro, uma produção independente da própria revista, apresentada por Gustavo Guilherme e Letícia Oliveira, é o podcast sobre terror e seus subgêneros Terrorias da Conspiração. Além disso, a revista estreia nessa edição a webserie S[c]inédoque, roteirizada e dirigida por Gustavo Guilherme, disponibilizada em seu canal no Youtube.

Como pessoas LGBTQIA+, temos orgulho em apresentar, nessa edição, a temática da Linguagem e suas divisões, seus movimentos, suas subversões, talvez a fim de ressoar, assim, a resistência de nossa própria linguagem.


EXPEDIENTE || Editor-chefe: Gustavo Guilherme da Conceição | Revisões: Gustavo Guilherme e Letícia Oliveira | Tradução e revisão (English version – coming soon): Letícia Oliveira | Mídias sociais: Luana Macedo Pereira || Assinam os textos desta edição: Gustavo Guilherme da Conceição, Letícia Oliveira, Leonardo Ribeiro e PH Martins ||| Agradecimentos especiais a Erly Vieira Jr.

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O Caso Evandro

O podcast Projeto Humanos: O Caso Evandro foi, provavelmente, a obra que mais me cativou e engajou desde 2018. Ouvinte de podcasts desde 2011, por anos ouvi um mesmo programa, alternando vez ou outra, sem a mesma frequência que tinha com o primeiro podcast que conheci. Esse veículo de comunicação sonora começou bastante calmo no Brasil, antes de sua monstruosa ascensão que se deu a partir do mesmo ano em que conheci O Caso Evandro. Antes disso, lá fora (principalmente nos Estados Unidos), o universo dos podcasts já havia evoluído e se difundido bastante. O modelo clássico de conversas entre amigos sobre algum tema específico desdobrou-se em muitos outros gêneros. 

O mais famoso deles talvez seja o true crime, estilo onde o apresentador conta histórias relacionadas a crimes reais, às vezes entrevistando pessoas envolvidas e especialistas nos casos em questão, usando também arquivos midiáticos sobre o assunto. O principal expoente do gênero true crime dentro dos podcasts é o Serial Podcast (2014). Escrito, produzido e apresentado por Sarah Koenig, Serial representou o grande boom do cenário nos EUA, alcançando uma audiência extraordinária e ganhando status de sucesso internacional. Com uma média de espectadores de uma série de TV, o programa conta a história do assassinato de Hae Min Lee, garota filha de imigrantes coreanos. Seu ex namorado, o muçulmano Adnan Seyd, foi preso acusado de tê-la matado. Baseado no testemunho de um amigo de Adnan, o rapaz é sentenciado à prisão perpétua. Anos depois, a história chega até Sarah, que já produzia um outro podcast de sucesso (This American Life), e resolve investigar e narrar o caso em um novo programa, o Serial

Evandro, uma criança de 6 anos, desapareceu na cidade litorânea de Guaratuba, no Paraná. Seu corpo foi encontrado dias depois já quase irreconhecível com as mãos e os pés amputados, o coração e outros órgãos arrancados. A Polícia Civil foi acionada e passou alguns meses sem resolver o caso. Diógenes Caetano, primo de Evandro e conhecido opositor do então prefeito Aldo Abbage, começou a realizar suas próprias investigações e a criticar mais duramente a ação da Polícia Civil e da família Abbage. Além disso, Diógenes acreditava que a esposa de Aldo, Celina Abbage, havia sido responsável pela separação de sua família ao ter um caso com seu pai. A seção de inteligência da Polícia Militar, entrou no caso, e prendeu cinco homens a partir de um depoimento de Diógenes – entre eles Oswaldo Marcineiro, um pai de santo da cidade. Os homens foram acusados de raptar e matar a criança em um ritual de magia negra, a mando da primeira dama e de sua filha Beatriz Abbage. As duas também foram presas. Os sete acusados confessam, nasce toda uma comoção popular contra eles e contra a família Abbage e, junto a isso, um ódio violento contra a religião de matriz africana da qual Oswaldo fazia parte. Um verdadeiro escândalo, que se tornaria ainda pior a partir do momento em que os acusados começaram a alegar que foram torturados para que assumissem os crimes.

https://www.projetohumanos.com.br/temporada/o-caso-evandro/

Ivan Mizanzuk criou primeiro o Projeto Humanos, um programa no formato storytelling – diferente do tradicional “papo entre amigos”, que ainda é o principal estilo de podcasts no Brasil. O Caso Evandro é a quarta temporada do Projetos Humanos, primeira em que o jornalista decidiu embarcar em um caso criminal. Ivan viveu o medo do desaparecimento de crianças na década de 1990, no Paraná, e conheceu de perto o caso das “Bruxas de Guaratuba”.

A ideia de Ivan era contar a história do caso, ou seja, ir desde o rapto até os julgamentos, expondo as contradições, os absurdos e a desleal cobertura midiática. Assim como Serial, O Caso Evandro foi um sucesso, e logo desembarcou em outras mídias. Além de virar livro, escrito pelo próprio Ivan, o podcast se transformou em série de TV, distribuído pelo serviço de streaming Globoplay, com direção de Michele Chevrand e Aly Muritiba, este último sendo um dos mais promissores cineastas brasileiros dos últimos anos, ao lado de Gabriela Amaral Almeida, na minha opinião.

Quando anunciada, a série documental televisiva d’O Caso Evandro logo foi alvo da pergunta dos fãs: que partes e aspectos do podcast estariam presentes em tela? Como adaptar uma história tão complicada e comprida? O que ela traria de novo? 

O primeiro impacto para quem ouviu os 36 episódios do podcast e depois assistiu a série é o de ver os rostos daqueles personagens que haviam apenas escutado. Por mais que o próprio Ivan disponibilizasse uma enciclopédia no site do Projetos Humanos com fotos de todos, vê-los falando na série é diferente. Essa materialização serve ao próprio argumento da série, que depois de apresentar o crime, os acusadores e os acusados, logo encaminha-se para a sua principal linha narrativa: a de que os acusados só confessaram por terem sido torturados pela polícia. É preciso transitar na história para entender isso, o que também significa dar alguns spoilers.

Dentro do podcast, Ivan conseguiu, de uma fonte anônima, as fitas originais das confissões. Fitas que, na época da investigação e do julgamento, “sumiram” dos autos do processo, e não foram transcritas em sua totalidade. Essas fitas, tocadas quase na íntegra, comprovam a tortura por meio de vozes de dor, cansaço e desespero, pedidos de socorro, comandos de afogamento e ameaças de “continuar a nossa seção caso você não fale o que queremos”. Na série, ao ver o vídeo de outra confissão feita com Beatriz Abbage, é possível distinguir nela alguém completamente exaurida. O mesmo com Davi dos Santos Soares, e é possível perceber um tampão em sua orelha, suja de sangue – o que comprova uma de suas descrições de tortura. Davi conta que lhe colocaram deitado, encostaram o cano de uma pistola bem do lado de seu ouvido e atiraram no chão, o que teria provocado o sangramento.  

Com essa materialidade das falas e do discurso, O Caso Evandro resolve uma das perguntas: como adaptar essa história? Procurando a principal linha narrativa e seguindo-a diretamente. 

Felizmente, ser direto aqui não significa ser raso. A série não apresenta só a possibilidade de entrevista com os personagens que já falavam no podcast, mas também permitiu que outros agentes entrassem. Davi é um deles, Airton Bardelli (outro acusado), o promotor de justiça Paulo Markowicz, o advogado das Abbage, Antônio Figueiredo Bastos, entre outros. Esses dois últimos, aliás, ajudam a entender o poder de adaptação da série. Eles constroem o caminho narrativo: Markowicz é o “acusador” das Abbage, ele acredita, a partir das provas e dos autos, que mãe e filha são sim culpadas. Figueiredo Bastos, obviamente, pensa o contrário. Defendeu a tese da tortura desde o julgamento de 1998, e chegou a conseguir inocentá-las no mesmo juri (a tese comprada pelo júri era a de que o corpo encontrado não era o de Evandro). No meio dos dois, há o próprio Ivan Mizanzuk, primeiramente como o criador do podcast, e depois com participação mais evidente como um especialista, uma pessoa que passou anos lendo todas as milhares de páginas do processo, ouvindo os julgamentos, entrevistando pessoas. Se Markowicz ou Figueiredo Bastos contam sobre suas teses, se os acusados defendem-se de incongruências em seus álibis, se jornalistas contam o que viram e ouviram na época, é Ivan quem aparece didaticamente para explicar a origem e a natureza daqueles discursos, no que eles são contraditórios, em que aspectos fazem sentido, porque a defesa os utiliza ou não e como a acusação os manipula como prova. 

Ao redor desses três caminhos, estão os verdadeiros protagonistas. A escolha dos sete acusados provavelmente não foi a toa: envolvia política, religião e sociedade. Os espectros envolvidos construíram figuras complexas, com trajetórias verdadeiramente épicas, no sentido cinematográfico da palavra. Celina e Beatriz Abbage, ligadas ao prefeito de Guaratuba, que por sua vez tinha ligação com Aníbal Khoury, principal político paranaense da época; Beatriz, criada em família católica, se tornou espírita e era simpática a religiões de matrizes africanas, o que proporcionou sua amizade com Oswaldo Marcineiro. Sua mãe tinha uma suposta e estranha ligação com Diógenes Caetano, que a acusava de ter tido um caso com seu pai, coisa que Celina obviamente nega. Dos acusados, Oswaldo é quem mais conhecia as Abbage, sofreu muitos preconceitos por ser pai de santo e acabou envolvido na trama. Vicente de Paula era amigo de Oswaldo, também pai de santo, mas nem em Guaratuba morava, ficava na casa de Marcineiro quando ia à cidade; ele foi buscado em Curitiba para servir como suspeito e, depois, julgado culpado: Vicente morreu na cadeia. Davi era artesão e também próximo de Oswaldo. Airton Bardelli era funcionário do prefeito Aldo Abbage. E, por último, Sérgio Cristofolini, que simplesmente alugava seu imóvel para que Oswaldo morasse.

Essa teia complicada é muito bem amarrada entre entrevistas, grafismos, narrações e reconstituições. Esse último aspecto deixa clara a influência do programa “Linha Direta” na direção de Aly Muritiba e Michele Chevrand. Essas cenas são tão bem filmadas e encenadas que nos fazem imaginar uma série ficcional dessa história. 

A série também parece encontrar um ritmo ideal em seus oito episódios, sendo o último um extra que conta a história de Leandro Bossi, outra criança desaparecida em Guaratuba, na mesma época. É lógico que, se a intenção era ser direto e cortar alguns detalhes irrelevantes ao discurso, a temporada não precisava se estender muito mais. O que também causa um ponto negativo: durante os episódios, algumas falas e muitas cenas reconstituídas são repetidas, o que pode primeiro parecer coerente, já que algumas coisas precisam ser reforçadas, mas em dado momento, percebe-se que essa repetição pode ter sido resultado da falta de material filmado, ou talvez uma escolha equivocada. 

Vale destacar, ainda, a trilha musical vinda diretamente do podcast, composta por Felipe Ayres e reimaginada para a série. As músicas transitam entre o estranho, o medonho, o melancólico e o bizarro da história. Elas completam as cenas, assim como deve ser uma boa trilha dentro de um produto audiovisual. Elas contam a história junto aos demais elementos. 

Quando achamos que chegou ao fim, no sétimo episódio, onde as fitas encontradas por Ivan são colocadas para que os personagens possam ouvi-las (inclusive Marcowiz, que de primeira reluta, mas acaba aceitando que, de alguma forma, houve tortura. Percebemos, ainda, uma lacuna: a linha narrativa das crianças desaparecidas em Guaratuba, que antes são inevitavelmente encobertas, volta à tona. O oitavo episódio trata de contar sobre Leandro Bossi e sua família. Voltamos, então, aos muitos sumiços que ocorreram no Paraná na década de 1990: Leandro Bossi sumira tal qual Evandro, e na mesma época. Mas por ser de família pobre,  não houve burburinho em torno de seu caso. 

Em meio ao desespero de um pai ludibriado pela angústia e ansioso para encontrar seu filho, um garoto aparece e diz ser Leandro, causando, à época, comoção nacional. Tudo isso se alia à inconsequente omissão das polícias militar e civil. Aqui, os diretores constroem seu episódio mais melancólico. Os depoimentos de João Bossi são emocionantes e a cena final, na qual o homem caminha pelo quintal de sua casa e nos mostra um terreno que reservou para o filho ainda desaparecido, como um símbolo de esperança mesmo depois de tantos anos, é poderoso. “E que Deus abençoe a sua volta”, diz o homem. João Bossi morreu em 30 de abril de 2021.

O Caso Evandro não é só um ótimo podcast, mas também uma excelente série de TV. É um grande e promissor passo para o gênero true crime dentro do mainstream da televisão brasileira, algo que poderia facilmente ser veiculado em canais abertos e que deveria mesmo ir, pois não fala só de uma história extraordinária e muito rica, mas também de um assombramento que ainda ronda o Brasil, de metodologias e comportamentos herdados da ditadura militar que, infelizmente, ainda encontram vias para se manter vivos. 

Aly Muritiba e Michele Chevrand são ótimos entrevistadores. Mesmo que uma montagem consiga ocultar intervenções, é possível perceber quando personagens de um documentário são interrompidos por pequenas perguntas que serviram como gancho para seguirem contando sua história. Um método recorrente no documentário brasileiro, daqueles que melhor conduzem entrevistas. As muitas informações foram profundamente estudadas e moldadas para a narrativa e pecam, como já dito, pela repetição, mas a teia complicada d’O Caso Evandro é muito bem filmada.

Espero ansiosamente por mais trabalhos de Ivan Mizanzuk, como fez no podcast, seguindo sua seriedade, ética jornalística e habilidade no storytelling. Espero também que a série possibilite outros produtos de mesmo nível, tanto na narrativa e estética quanto na importância de contar histórias que emanam emoções e significados por todos os lados.