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Vol. 01 - Nº 01 - 2020

Revisitar pesadelos

Maria foge do castigo por libertar a três porcos, refugiando-se numa casa em meio a floresta onde, ao encontrar outros dois porquinhos, se converte no terceiro. Aqui, diferente da fábula original, as paredes não são a barreira que os protege do predador, mas sim uma tela de memórias, traumas e medos. De imagens mutantes que transbordam das paredes tomando diversas formas.

O longa-metragem La casa lobo (Cristóbal Leóne Joaquín Cociña, 2018) revisita e recria as imagens e narrativas que perpassam a história da Colonia Dignidad, local de torturas que teve como sede o Chile no período do regime militar. Após a saída de Pinochet (que não foi o fim do pinochetismo), vieram à público informações antes censuradas sobre os abusos cometidos durante os 12 anos de funcionamento como campo de extermínio. Desde então, muito se retratou em filmes, livros, filmes e obras de arte em geral.

La casa lobo vai além, transformando pinturas e instalações num filme stopmotion cuja narrativa utiliza um estilo denso e sombrio – tal qual sua história – para trazer à luz essas feridas ainda abertas na história. Os cenários foram construídos e expostos em museus e galerias do Chile, Alemanha, Países Baixos, México e Argentina, num período de cinco anos. Apesar da construção em e por diversos países, La casa lobo reivindica sua chilenidad; principalmente ao atualizar as poucas referências de longas de ficção que tratam sobre a Colonia – apresentada principalmente em documentários. Atualmente a referência está concentrada em Colonia (Florian Gallenberger, 2015), filme alemão que, apesar de se passar em território sul-americano, é falado majoritariamente em inglês.

Logo, se trata de um filme amplamente atravessado por restaurações. Principalmente ao lidar com os traumas através das fábulas, constantemente referenciando-se nos irmãos Grimm. Há diversos elementos que nos remetem a essas histórias, como a presença de um narrador off cujo discurso se faz simples, como se contado a crianças. Inserindo morais, e apresentando a polarização entre bem e mal contida nos contos de fadas, aqui sem final feliz. A voz do narrador com seus traços alemão, nos remete ao fundador da Colonia, Paul Schäfer. Pretendendo-se, portanto, que a história de Maria fosse contada a partir de seu torturador, tendo a figura do lobo como elemento central. Podemos lê-lo como a encarnação do próprio “Tio”, ou, enquanto locutor, encarna numa espécie de simbologia disciplinadora para definir os espaços fora dos limites da Colonia como demasiado perigoso, pois “afuera hay un lobo”.

Como enunciaram os realizadores, e se Paul Schäfer fosse uma espécie de Walt Disney? O longa traz, de maneira complexa e até angustiante, esta inversão talvez impensável desde uma análise crítica, mas que, a partir deste jogo de alteridades, acaba por alcançar uma substancialidade de tensões.

E, por outro lado, se exprime na manipulação imagens televisivas, elementos chave dentro da obra que além de estarem presentes de forma constante entre os personagens, recupera imagens de arquivo produzidas pela Colonia para transformá-las numa hipotética propaganda televisiva divulgada à época. “Seguramente usted ya há tenido La oportunidad de probar el inigualable sabor y textura de La miel La Colonia”. O lugar é vendido como um paraíso afastado, onde o trabalho em comunidade é a ordem. Tão doce quanto o mel. De tal maneira que afirmam “La leyenda oscura que se há creado al nuestro alrededor se debe principalmente a la ignorancia. Son ignorantes quienes temen a uma comunidad que permanece pura y aislada”.

Essa lenda escura ao qual se referem é apresentada no longa a partir da história real de uma moradora da Colonia que, tal qual a personagem, conseguiu escapar do campo mas não pôde se readequar ao mundo “lá fora”. O filme, desta maneira, se constrói também presumindo certa dificuldade – quando não impossibilidade – de superação de traumas tão viscerais. A relação de Maria, como um escape, se torna profundamente maternal em seu convívio com os porcos e essa transição, em mimese, transforma os animais em crianças. Assim como em todo o filme, há transmutação de materiais, formas, matérias, técnicas e símbolos, realçado principalmente pelas emoções conflitivas que se manifestam.

Até que as esperanças, por fim, se convertam e libertem como pássaro, e o corpo, domado, se configure árvore. Não à toa, enquanto escrevo este texto, Chile está em peso nas ruas, questionando todo esse passado, que influi intensamente no presente e torna incerto o porvir. Que os símbolos de opressão sejam destruídos mas não esquecidos, pela autonomia dos nossos corpos e mentes.

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O apagamento negro na televisão e a lenda do herói branco

Desde que foi liberto, jogado sem qualquer auxílio numa sociedade que não o considerava sequer como gente, o povo negro sofre para ocupar espaços. Não é novidade para ninguém que a trajetória desse povo no Brasil é marcada pelo esquecimento e pela discriminação. Mesmo depois de 131 anos da abolição, a população negra ainda é atingida diariamente pelo preconceito entranhado em cada buraco da estrutura social vigente no país. Desde cedo, enfrenta-se uma realidade bem diferente daquela reservada a pessoas brancas, uma realidade muito mais dura que, mesmo com o passar dos anos, continua sem muitas perspectivas.

É abundante o número de estatísticas que provam essa teoria. Na maioria das vezes, negros são os que menos têm acesso à educação, os que ocupam cargos menores no mercado de trabalho, os que mais realizam trabalhos braçais (e, muitas vezes, desumanos), bem como os que possuem as piores moradias ou que nem mesmo a possuem. E como se não bastasse a inferioridade dentro das relações sociais na vida real, a presença negra dentro da ficção ainda obedece a uma lógica histórica romantizada de “branco salvação”.

Desde o início da televisão no Brasil, um dos grandes problemas sempre foi a ausência de representatividade, principalmente no que se refere à presença de atores, profissionais audiovisuais e personagens negras.

Quem nunca ouviu falar da polêmica que envolveu “A Cabana do Pai Tomás”? A novela, exibida no ano de 1969, trouxe o maior e mais escandaloso caso de blackface da televisão brasileira. Na situação, Sergio Cardoso, galã da época, foi escalado para viver o personagem principal da trama, um escravo. Eis o grande questionamento: por que maquiar um homem branco para que parecesse ter pele negra ao invés de contratar um ator negro? Na ocasião, inclusive, não faltavam bons nomes para ocupar o posto. Por que não escalar Antônio Pitanga ou Milton Gonçalves?

A discussão a respeito do blackface é antiga e esconde uma realidade muito comum até os dias de hoje: a retirada do corpo negro dos espaços de protagonismo na teledramaturgia.

TV GLOBO

Desde quando a saudosa Ruth de Souza estrelou nessa mesma novela, tornando-se a primeira protagonista negra da televisão brasileira, poucas obras tiveram pessoas negras como seus personagens principais. Pior ainda, é que algumas foram rejeitadas pelo público, acostumado a ver atrizes e atores brancos nesses lugar de destaque. Foi o caso, por exemplo, da personagem Helena interpretada pela atriz Taís Araújo na novela “Viver a Vida”, de 2009. Com o peso de ser a primeira Helena negra do autor Manoel Carlos, a personagem era uma supermodelo que tinha personalidade forte e vida independente. Entretanto, mesmo estampando um modelo de mulher atual e mais próxima da realidade, grande parte dos telespectadores não a aceitou muito bem, o que fez com que a personagem saísse do lugar de protagonismo e se tornasse apenas mais um papel secundário da trama, dando lugar à mimada (porém branca) Luciana, que sofrera um acidente e ficara tetraplégica, situação que não se reverteria ao fim da novela. Vale ressaltar que, durante boa parte de trama, atribui-se à Helena a culpa do acidente de Luciana, fato que tornou a personagem ainda mais odiada pelo público.

Viver a Vida (TV Globo)

Talvez a coisa mais estranha e potencialmente ofensiva já inventada na teledramaturgia (e também, em medida igualmente traumática, no cinema) tenha sido a ideia do herói branco. A noção de que a branquitude representa tamanha prosperidade que, para uma pessoa não caucasiana conseguir alcançar altos objetivos, ela precise ser “abençoada” por um branco.

Não é difícil reparar em qualquer obra televisiva que, quando um negro ocupa um cargo ou posição que, na vida real, ele usualmente não ocuparia, por trás há sempre um personagem branco — um conhecido, o patrão do pai, a patroa da mãe, aquela mulher que encontrei na rua, etc; sempre há um branco-salvador que surge não apenas para salvar o negro, mas também para evidenciar como e quanto isso esta ligado a um certo passado de sofrimento quase límbico da pessoa negra.

Isso faz lembrar a representação do escravo submisso, que sofria nas lavouras sob os chicotes mas que, de repente, por algum motivo, se via “a salvo” quando inserido numa realidade de escravidão doméstica, adquirindo supostas regalias, como se tivesse sido “promovido” e que, com o passar do tempo, incorporava nele mesmo a ideia de seus senhores, desenvolvendo indiferença à revolta de outros escravos e certa gratidão ao branco escravagista que, ilusoriamente, o libertara da senzala.

Na história da nossa teledramaturgia, há centenas de exemplos que podem ocupar incontáveis linhas de texto e anos de pesquisa. Entretanto, existe um tipo de trama que talvez seja a mais incômoda e dispensável: as tramas sobre escravidão.

Sinhá Moça (Reprodução/Memória Globo)

Ora, o enredo desse tipo de história parece ser sempre o mesmo, com pouca ou nenhuma variação. É a síntese da ideia do herói branco. Sinhá Moça, por exemplo, é um caso clássico. As duas versões da novela (1986 e 2006), ambas derivadas de um livro e um filme, mostram como a escravidão no Brasil foi derrubada graças a reunião de justíssimos homens brancos e, mais especificamente, pela corajosa mocinha branca com pouco mais de 20 anos de idade, filha de senhor de escravos, que tinha como sonho o fim desse sistema desumano. Sinhá Moça, principalmente o remake de 2006, coloca os negros em local de total dependência, em situações muitas vezes animalescas.

Obras com temáticas como essa normalmente deixam de lado toda a luta de resistência do povo negro escravizado e as diversas revoltas que esse mesmo povo impetrou, substituindo-a por um falso heroísmo branco que de nada serve.

Infelizmente, esse tipo de discurso não se restringe apenas à obras épicas. Com o tempo, a mídia começou a utilizar as subjetividades a favor do seu racismo, naturalizando essa problemática em enredos contemporâneos.

Estamos em 2019, mas a gente ainda tem muito o que mudar dentro das fábulas que fingem querem nos incluir. Precisamos gritar e lutar para ocupar os espaços da ficção, ainda que seja “na marra”. O ciclo do apagamento negro no audiovisual não acontece só quando nos proíbem de falar abertamente, na vida real, sobre problemas reis, mas também quando nos impedem de ocupar lugares dignos e de poder, atrás das câmeras ou dentro da ficção, nas histórias que nos são contadas na TV e no Cinema. Afinal, a representatividade é muito mais potente quando de fato toca a imaginação das pessoas, quando as permite reimaginar essas histórias sob outras cores, outros olhares, outras vivências, outras bandeiras.

É preciso mostrar às futuras gerações, crianças e adolescentes negros que acompanham a teledramaturgia do país, que é possível, na vida real, assim como fazem os personagens da ficção, alcançar lugares altos neste mundo sem precisar da benção de nenhum homem branco. É preciso apagar do imaginário popular a ideia estúpida e racista da subserviência negra e da gratidão imbecilizada.

É necessário e urgente normalizar a ideia de que a nossa cor de pele não influencia na capacidade de sermos donos do nosso próprio destino. Que nós podemos, sim, conhecer e trilhar, com nossos próprios pés, os caminhos do sucesso, e que podemos, inclusive, construir nossa própria estrada de maneira autônoma, independente, seja na vida real ou nos universos criados pela televisão.

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Editoriais Vol. 01 - Nº 01 - 2020

Reimaginar…

Refilmagens, recomeços, sequências, atualizações, novas versões das histórias mais contadas, dos mais antigos personagens. Perseguindo constantemente um objetivo de reinvenção, a TV e o Cinema parecem cada vez mais interessados em revisitar e/ou atualizar velhas imagens. Termos como remake e reboot tornaram-se populares e rendem discussões e teorias das mais variadas, além de terem se transformado em fontes muito rentáveis de entretenimento. Nesse sentido, até mesmo questões políticas muito caras ao nosso tempo podem ser engolidas pela lógica de mercado da indústria audiovisual para que possam ser devidamente embaladas para consumo fácil do faminto espectador contemporâneo. Dessa forma, conceitos como representatividade ou subjetividade podem ser esvaziados e/ou mascarados a fim de assumirem formatos mais palatáveis.

Talvez, portanto, seja necessário observar com cautela essa figura que se (re)desenha no mapeamento desse audiovisual hegemônico contemporâneo, questionar e ressignificar o que está posto a fim de apregoar a existência (e resistência) de outros olhares, outras percepções, outras vivências.

Como, dentro dessa lógica, corpos, vidas e culturas não hegemônicas tem sido representadas? Como essa tendência audiovisual contemporânea atualiza (ou não) as questões que propõe revisitar – cinematográficas, dramáticas, estéticas, narrativas, mas também sociológicas, filosóficas, políticas, psicológicas – e de que maneira isso pode (ou não) influenciar o imaginário coletivo? É possível traçar outra cartografia dessa tendência a fim de apontar alternativas que, apesar de fazerem parte desse tempo, acenam com alguma originalidade e potência para outras propostas e possibilidades?

O objetivo dessa primeiríssima edição é (re)pensar filmes, séries, novelas, etc. que se propõem a revisitar histórias já contadas, personagens já representados, dilemas já abordados ou memórias e abordagens muito presentes no imaginário coletivo por causa do audiovisual; é analisar a potencialidade desse processo de revisitar e atualizar imagens, reconhecendo ou desconfiando da popularidade dessas produções; é, também, questionar as hegemonias de produção que permitem que, mesmo quando se prestam a reimaginar uma obra, permanecem propagando conceitos envelhecidos e ultrapassados.

Nesta edição: novas propostas de encenação apontam para possibilidades de renovação no cinema contemporâneo; velhas fábulas se atualizam a fim de contar a história oculta da opressão de um povo; uma desconfiança inicial a respeito da representação do negro na televisão brasileira e o surgimento do mito do herói branco; provocações a respeito do documentário político (ou a política no documentário) brasileiro contemporâneo. Além disso, sessões livres de fluxo contínuo recebem textos sobre a relação dos leitores com o audiovisual e de profissionais da área e sua experiência no mercado; críticas de cinema e tv e um artigo especial sobre o prolongamento da experiência cinematográfica na estreia da Seção Painel.

Reimaginar é, também, duvidar, reconstruir, atualizar. Reimaginemos, então.