Em 2021, como parte integrante da nossa terceira edição, lançamos o podcast Terrorias da Conspiração, um programa bem humorado, dedicado aos filmes e séries de horror, onde a ideia central era refletir de modo leve sobre questões como vida e morte, céu e inferno, a fé e a religiosidade, e tantos outros temas comuns abordados pelo terror desde seus primeiros passos dentro da história do audiovisual. Estamos em hiato, reformulando ideias enquanto nos dedicamos a outro projeto.
Esta lista, em consonância com a proposta da atual edição, propõe enxergar dois anos em um: o ano da pandemia, do isolamento, da solidão forçada, no Brasil, por dois vírus: aquele que conhecemos como Covid-19, e o que provavelmente será lembrado como o pior governante brasileiro, o presidente Bolsonaro, cuja necropolítica fez brotar em nosso povo, em plena crise sanitária mundial, uma sensação de insegurança e desespero muito mais assustadora que a provocada por qualquer filme de terror já feito.
Formular uma lista que elenque (e indique, de certa forma) filmes/séries e outros produtos audiovisuais calcados no gênero pode parecer um gesto contraditório nesses tempos cabulosos, mas o fato é que alguns monstros e medos criados pela ficção, ultimamente, tem se tornado menos terríveis – e às vezes até mais agradáveis de se olhar – que os monstros e medos da vida real. Utilizar dessas expressões como refúgio da realidade assombrosa que vivemos – e que ainda tem um resto de caminho penoso em 2022 – foi e é, para muitos de nós, a única maneira de seguir em frente numa realidade de tantos absurdos evitáveis.
Eis nossa contribuição para este volume que a Reimagem nos propõe no fim desse tão cansado de… 2020? 2021?
Sem ordem de preferência, eis a lista:
Midnight Mass (Mike Flanagan, 2021)
Minissérie completa disponível no serviço de streaming Netflix.
Assim como tudo nessa vida não passa de uma grande piada horrorosa, o Terrorias da Conspiração segue essa filosofia e, para ilustrar toda essa (des)graça, separamos esta seção da lista para nossas Menções Horrorosas, que vão para: Oxygen(Alexandre Aja, 2021); Host(Rob Savage, 2020); os dois filmes baseados no crime Richthofen (O Menino/A Menina que Matou meus/os Pais) e a série Eu Sei o Que Vocês Fizeram no Verão Passado, ambos da Amazon Prime Video (2021).
Essa lista foi elaborada por integrantes (reais ou imaginários) do podcast Terrorias da Conspiração. Você pode discordar, mas não pode nos matar. Afinal, já estamos todxs mortxs.
Dois mil e vinte nunca acabou. Dois anos em um. Até agora. “A Pandemia”: assim chamamos um período inteiro de caos na saúde pública regido por um (des)governo inegavelmente irresponsável. Adotamos um adjetivo e até o utilizamos para nomear alguns projetos, algumas ideias: “pandêmico”.
Nesse momento conturbado, porém, muita gente produziu filmes, séries, videoclipes, vídeos ensaios, webséries e toda uma complexidade de registros audiovisuais muito diversa, boa parte a fim de capturar alguma coisa desse período específico. Isolados, aqui ou em qualquer parte do mundo, produzimos como nunca e, produzindo, dissemos (ou não) muitas coisas.
Penso que, nesse instante interminável, um tema nos sobrevoa. Falamos de vivências e de morte, de lutas e resistências; destruímos e (re)construímos imagens com nossos corpos, com nossas dores, com nossas angústias e, também, com mistérios que redesenham e/ou redescobrem imaginários, que fabulam sobre passados, presentes e futuros (im)possíveis.
Somos, portanto, talvez mais do que sempre fomos, agentes de memória. Eis nosso tema “pandêmico” por excelência. A memória do que fomos e do que estamos sendo e do que poderemos ser em um futuro próximo.
Sobre as imagens que, nesse tempo, tecemos em tela, pode-se dizer então que costuramos um memorial atemporal. Afirmamos a vida através de nossos corpos, filmamos nosso cotidiano mais banal, ou nosso desejo mais abissal, nossas insignificâncias e nossos atravessamentos. Em nossos corpos traspassados, renegados, marginalizados, traçamos velhos e novos imaginários. Repudiamos um país que nos agride e inventamos outras pátrias, outros mundos, outros universos, outros futuros. Revisitamos ruínas e perscrutamos escombros, escavando e redescobrindo histórias que, um dia, foram roubadas de nossos ancestrais. Sobrevivemos e vivemos… e como vivemos! Ressuscitamos nossos mortos, viajamos no tempo e através dos espaços, sobretudo desses espaços espúrios que nos reservaram, adentramos suas portas e derrubamos suas paredes com a violência das nossas imagens-memórias, porque esse registro memorial não se detém aos limites impostos, não necessita de máscaras e obstáculos; tudo quer e pode ser visto.
É sob o prisma deste registro desmedido da memória e do direito à memória que penso essa lista, não numerada e sem ordem de preferência, desejoso que ela se encontre – e seja encontrada – em um território capaz de observá-la com algum carinho, sabendo que essa lista/memorial não se contenta em ser “pandêmica”, apesar do tempo em que foi construída. Uma lista de filmes e séries deste tempo, deste agora interminável, mas que também inventa outros tempos (ontens, hojes, amanhãs):
Uma Noite Sem Lua (Castiel Vitorino Brasileiro, 2020)
Felizmente, descobri os Racionais MC’s bem cedo na vida. Negro Drama. Isso na adolescência, um menino da roça, cidade pequena, zero conhecimento de mundo ou de seus problemas mais cruciais. Então, a música batia mais pelo ritmo e pela raiva cantada do que pelo que estava sendo dito. Mas batia, ainda assim.
Uma faculdade de cinema depois, ouço Racionais todos os dias. Me tornei um ouvinte assíduo nos últimos três anos, agora sim pelo que se dizia nas letras, pela forma com que se dizia, e pelo ritmo, pelas histórias…
Sou um roteirista aspirante, de alguma forma estudioso do roteiro cinematográfico e de suas teorias. Talvez por isso tenha percebido outra coisa em relação às músicas do grupo: algumas delas são puro cinema, roteiros perfeitos de tramas bem elaboradas e bem contadas. Se o roteiro de cinema é um modo de (d)escrever ações e imagens e saber selecionar tanto as partes tensas quanto amenas de uma vida para construir uma trama, então os Racionais, além de músicos, são cineastas.
Por isso apresento esta lista. Vou escrever, brevemente, sobre cinco músicas dos Racionais MC’s que deveriam ser usadas como estudo de roteiro cinematográfico.
Então, vamos lá:
5 – Eu Sou 157
No livro “Sobrevivendo no Inferno”, que junta as letras do álbum de mesmo nome dos Racionais, há um prefácio escrito por Acauam Silverio de Oliveira onde o autor analisa toda a obra do grupo e pontua as mudanças de estilo com o passar do tempo. A parte mais interessante para mim é quando Acauam mostra que, nas primeiras músicas, o discurso falava dos problemas da favela com uma visão soberba, colocando as soluções diante dos olhos dos moradores das comunidades e julgando o fato de que eles não as viam. A partir de Sobrevivendo no Inferno isso muda. Toda a problemática agora é tratada de forma respeitosa, mesmo com as coisas mais violentas. A intenção não é mostrar para o restante da sociedade a vivência da favela, isso a MPB tentou fazer. O que os Racionais queriam e ainda querem é olhar para dentro e fortalecer a própria favela. Por isso, a mudança de postura.
Dentro disso se encontra Eu Sou 157, do álbum Nada Como Um Dia Após o Outro Dia. Aqui, Mano Brown conta um pouco da cabeça de um rapaz que já está completamente enraizado no crime. Na segunda estrofe, é apresentada uma situação que mostra essas raízes, em que o personagem é abordado por um outro homem querendo se enturmar, falando gíria, falando de drog…. Ele analisa essa pessoa, fala dos seus modos, de como chegou ali, e no fim descobre que era um policial sob disfarce. Sua experiência possibilitou esse reconhecimento e essa fuga.
A música segue contando seus pensamentos internos até que surge um trabalho a fazer, um assalto planejado. Mas o crime dá errado, alguém os caguetou e um moleque morre. Então, vem a estrofe:
O neguinho vinha vindo, do que vinha rindo? O pesadelo do sistema não tem medo da morte Dobrou o joelho e caiu como um homem Na giratória, abraçado com o malote Eu falei, porra! Eu não te falei?! Não ia dar! Pra mãe dele, quem que vai falar, quando nóis chegar? Um filho pra criar, imagina a notícia Lamentável, vamo aí, vai chover de polícia
Em seguida, a música faz uma digressão. Por alguns segundos o beat para, ouvimos o som de uma televisão e de uma mulher chorando em desespero. É a mãe do menino morto. No meio da ação, Brown faz uma vírgula para contar brevemente sobre outra linha narrativa. E só precisa de um choro para isso.
Depois, outra estrofe, seguida do refrão:
A vida é sofrida, mas não vou chorar Viver de quê? Eu vou me humilhar? É tudo uma questão de conhecer o lugar Quanto tem, quanto vem e a minha parte, quanto dá porque…
Hoje eu sou ladrão, artigo 157 As cachorra me ama, os playboy se derrete Hoje eu sou ladrão, artigo 157 A polícia bola um plano, sou herói dos pivete
Foi triste, foi sofrido, mas essa é a vida dessa personagem. Agora, e o dinheiro? É o fim perfeito.
4 – Capítulo 4, Versículo 3
A terceira faixa de Sobrevivendo no Inferno é uma das maiores canções da história da música brasileira. Ela abre exatamente com o discurso que citei acima. Não adianta falar da criminalidade, da pobreza e da fome como se a solução fosse fácil. Ela não é. E se há um lugar por onde começar a encontrá-la, esse lugar não está fora da favela, não está em Brasília. Está dentro da própria comunidade. Esse trecho famoso fala exatamente sobre isso:
Colou dois mano, umacenou pra mim De jaco de cetim, de tênis, calça jeans Ei, Brown, sai fora, nem vai, nem cola Não vale a pena dar ideia nesse tipo aí Ontem à noite eu vi na beira do asfalto Tragando a morte, soprando a vida pro alto Ó os cara, só o pó, pele e osso No fundo do poço, mó flagrante no bolso Veja bem, ninguém é mais que ninguém Veja bem, veja bem, e eles são nossos irmãos também Mas de cocaína e crack, uísque e conhaque Os mano morre rapidinho, sem lugar de destaque Mas quem sou eu pra falar de quem cheira ou quem fuma? Nem dá, nunca te dei porra nenhuma
Por isso, Capítulo 4, Versículo 3 funciona como essa grande reflexão, intercalando diálogos internos com histórias pontuais. Funciona como Magnólia, do Paul Thomas Anderson, ou Amores Brutos, do Alejandro González Iñarritu.
Em seguida, segue a história de vários anos de um personagem que foi do céu ao inferno.
Em poucas linhas, os Racionais falam da vitória e da desgraça, falam de todos os problemas que esse personagem passou ao mesmo tempo em que também falam de questões “menores”. E isso é roteiro, saber fazer perceber, às vezes, que o que vemos de um personagem também pode ser algo que já se deu anteriormente, ou que vai se repetir no futuro. O que diz muito sobre tal personagem. O pulo do gato, no entanto, é saber contar isso sem soar artificial:
Você vai terminar tipo o outro mano lá Que era um preto tipo A, ninguém tava numa Mó estilo de calça Calvin Klein, tênis Puma, é Um jeito humilde de ser, no trampo e no rolê Curtia um Funk, jogava uma bola Buscava a preta dele no portão da escola Exemplo pra nós, mó moral, mó Ibope Mas começou a colar com os branquinho do shopping (aí já era) Ih, mano, outra vida, outro pique Só mina de elite, balada, vários drinques Puta de boutique, toda aquela porra Sexo sem limite, Sodoma e Gomorra Faz uns nove anos Tem uns quinze dias atrás eu vi o mano Cê tem que ver, pedindo cigarro pros tiozinho no ponto Dente tudo zuado, bolso sem nenhum conto O cara cheira mal, as tias sentem medo Muito loco de sei lá o quê, logo cedo Agora não oferece mais perigo Viciado, doente, fudido, inofensivo
3 – Jesus Chorou
Talvez eu vá longe demais agora, mas a introdução de Jesus Chorou, também do Nada Como Dia Após o Outro Dia me lembra a introdução de Persona, do Ingmar Bergman. Persona é um dos maiores filmes de todos os tempos e sua primeira sequência, da primeira vez em que se vê, parece completamente deslocada do resto do filme. Ela mostra diversas imagens de arquivo até chegar no quarto onde uma criança dorme. Essa criança acorda e vê, numa tela, talvez a mesma tela em que as imagens de arquivo estavam passando, o rosto da personagem de Liv Ulmann, Elisabet. Há algumas teorias sobre essa introdução de Bergman, a principal delas é que essa criança é uma representação do filho de Elisabet, que (ela mesma é quem conta) ela não foi capaz de criar.
A primeira estrofe de Jesus Chorou é uma reflexão sobre a angústia, e faz isso ao falar sobre a lágrima:
O que é, o que é? Clara e salgada, Cabe em um olho e pesa uma tonelada Tem sabor de mar, Pode ser discreta Inquilina da dor, Morada predileta Na calada ela vem, Refém da vingança, Irmã do desespero, Rival da esperança Pode ser causada por vermes e mundanas E o espinho da flor, Cruel que você ama Amante do drama, Vem pra minha cama, Por querer, sem me perguntar me fez sofrer E eu que me julguei forte, E eu que me senti, Serei um fraco quando outras delas vir Se o barato é louco e o processo é lento, No momento, Deixa eu caminhar contra o vento Do que adianta eu ser durão e o coração ser vulnerável? O vento não, ele é suave, mas é frio e implacável (E quente) Borrou a letra triste do poeta (Só) Correu no rosto pardo do profeta Verme sai da reta, A lágrima de um homem vai cair, Esse é o seu BO pra eternidade Diz que homem não chora, Tá bom, falou, Não vai pra grupo irmão aí, Jesus chorou!
Eu entendo Jesus Chorou como uma das músicas mais pessoais de Mano Brown, e também vejo nela uma ligação com o momento que os Racionais viviam, o da fama absoluta.
Depois dessa introdução, a música segue contando de um personagem que é acordado por uma ligação. Um amigo lhe conta de um encontro que teve ontem com um cara que começou a falar que esse personagem era uma pessoa mesquinha e que não se importava com os seus (seus manos da favela), depois que ficou bem de vida. Ela funciona como um longo diálogo interno, o personagem não está psicologicamente bem de saúde. A música não conta uma história completa como as outras que já apresentei, mas gosto como ela apresenta angústias, medos e pensamentos do personagem. Como neste trecho:
Vermelho e azul, “Hotel”, pisca só no, Cinza escuro do céu Chuva cai lá fora e aumenta o ritmo, Sozinho eu sou agora o meu inimigo íntimo Lembranças más vem, pensamentos bons vai, Me ajude, sozinho penso merda pra caralho Gente que acredito, gosto e admiro, Brigava por justiça e paz levou tiro: Malcom X, Ghandi, Lennon, Marvin Gaye, Che Guevara, 2Pac, Bob Marley e O evangélico Martin Luther King Lembrei de um truta meu falar assim: “Não joga pérolas aos porcos irmão, Joga lavagem eles prefere assim, ‘Cê tem de usar piolhagem!”
Então, o personagem foge um pouco da situação que lhe tirou da zona de conforto e conta sobre outra coisa que lhe tira o sono. Expõe que pode estar pensando em coisas muito ruins, como o suicídio.
Jesus Chorou é uma aula de como mostrar problemas internos de uma personagem de várias formas diferentes, sendo que elas estão interligadas. E isso traz o sentimento e a veracidade, coisas essenciais para um roteiro ser triunfante na hora de contar sua história.
2 – Diário de um Detento
Essa é clássica e fácil de colocar numa lista como esta. Aliás, Diário de um Detento já é filme. Carandiru, de Héctor Babenco, é uma adaptação do livro de Dráusio Varella, mas também está intrinsecamente ligado à música dos Racionais.
Escrita por Mano Brown junto de um detento que sobreviveu ao massacre do Carandiru, Jocenir, a história da música se passa em 3 dias. Um antes do massacre, o massacre em si e o dia seguinte a ele. É um roteiro clássico. Há a apresentação dos vários elementos que constituem a história já no primeiro ato:
[…] Na muralha, em pé, mais um cidadão José Servindo o Estado, um PM bom Passa fome, metido a Charles Bronson Ele sabe o que eu desejo Sabe o que eu penso O dia ‘tá chuvoso o clima ‘tá tenso Vários tentaram fugir, eu também quero Mas de um a cem, a minha chance é zero […] Tirei um dia a menos ou um dia a mais, sei lá Tanto faz, os dias são iguais Acendo um cigarro, e vejo o dia passar Mato o tempo pra ele não me matar Homem é homem, mulher é mulher Estuprador é diferente, né? Toma soco toda hora, ajoelha e beija os pés E sangra até morrer na rua 10 Cada detento uma mãe, uma crença Cada crime uma sentença Cada sentença um motivo, uma história de lágrima Sangue, vidas e glórias, abandono, miséria, ódio Sofrimento, desprezo, desilusão, ação do tempo Misture bem essa química Pronto, eis um novo detento
Temos a virada do primeiro para o segundo ato (antes de um grande momento de reflexão sobre o que é ser um presidiário):
[…] Amanheceu com sol, dois de outubro Tudo funcionando, limpeza, jumbo De madrugada eu senti um calafrio Não era do vento, não era do frio Acertos de conta tem quase todo dia Tem outra logo mais, eu sabia Lealdade é o que todo preso tenta Conseguir a paz, de forma violenta Se um salafrário sacanear alguém Leva ponto na cara igual Frankestein Fumaça na janela, tem fogo na cela Fudeu, foi além, se pã, tem refém Na maioria, se deixou envolver Por uns cinco ou seis que não têm nada a perder Dois ladrões considerados passaram a discutir Mas não imaginavam o que estaria por vir
O segundo ato, no caso, é todo o massacre. Para então chegar ao ato final, aqui descrito em 4 versos:
[…] Ratatatá, Fleury e sua gangue Vão nadar numa piscina de sangue Mas quem vai acreditar no meu depoimento? Dia 3 de Outubro, diário de um detento
Se eu fosse professor de roteiro (algo que tenho desejo, confesso), proporia o seguinte exercício aos alunos: “tente escrever três dias de um personagem, vamos ver em quantas páginas você faz isso. Esses dias precisam ter conflitos, ideias, e a premissa precisa estar presente”.
Óbvio, um roteiro não tem a duração de uma música, mas é inegável a habilidade dos Racionais MC’s em falar muito com poucas palavras e tudo ainda fazer sentido.
1 – Tô Ouvindo Alguém Me Chamar
Essa, para mim, é a melhor música do grupo e a maior e melhor canção da música brasileira. Ainda não ouvi nada que tivesse a complexidade narrativa de Tô Ouvindo Alguém Me Chamar. Ela valeria um texto só, e eu ainda devo algum dia esboçar algo assim.
A música conta sobre dois amigos de vida e de crime. O principal é quem narra, o outro é o Guina, um ladrão conhecido, violento, temido. Ela vai e vem no tempo, faz digressões psicológicas no meio de cenas importantíssimas, que contam mais sobre os personagens, reforçam características ou justificam ações. Tudo isso em 8 minutos de música.
O Guina, como falei, é apontado como alguém a se ter medo:
[…] Todo ponta firme, foi professor no crime Também mó sangue frio, não dava boi pra ninguém […] O Guina não tinha dó: Se reagir, Bum!, vira pó […] Eu tava bem de perto e acertei uns seis O Guina foi e deu mais três
Logo depois desse último trecho, Brown entra com a história do Guina, começando da sua infância, passando pela adolescência e chegando na vida adulta. Ele conta de possíveis ações que o fizeram ficar assim. E ainda fala um pouco do destino de todos da favela, de como a vida acaba sendo muito cruel mesmo com quem consegue expressar suas potências:
[…] Lembro que um dia o Guina me falou Que não sabia bem o que era amor Falava quando era criança Uma mistura de ódio, frustração e dor De como era humilhante ir pra escola Usando a roupa dada de esmola De ter um pai inútil, digno de dó Mais um bêbado, filho da puta e só Sempre a mesma merda, todo dia igual Sem feliz aniversário, Páscoa ou Natal Longe dos cadernos, bem depois A primeira mulher e o 22 Prestou vestibular no assalto do busão Numa agência bancária se formou ladrão Não, não se sente mais inferior Aí neguinho, agora eu tenho o meu valor Guina, eu tinha mó admiração, ó Considerava mais do que meu próprio irmão, ó Ele tinha um certo dom pra comandar Tipo, linha de frente em qualquer lugar Tipo, condição de ocupar um cargo bom e tal Talvez em uma multinacional É foda… Pensando bem que desperdício Aqui na área acontece muito disso Inteligência e personalidade Mofando atrás da porra de uma grade A outra digressão é composta de apenas uma linha.
O personagem principal fala muito de sua família, de como saiu de casa e, principalmente, da relação com seu irmão, um cara que não foi para o crime, que conseguiu estudar e formar uma família. Sentimos muita angústia do personagem ao contar essa histórias, até porque a música, no fim, é sobre seu desejo de viver tranquilamente. Por isso, em um momento, ele reflete sobre os crimes que cometeu e sonha com a própria morte:
[…] Agora é tarde, eu já não podia mais Parar com tudo, nem tentar voltar atrás Mas no fundo, mano, eu sabia Que essa porra ia zoar a minha vida um dia Me olhei no espelho e não reconheci Estava enlouquecendo, não podia mais dormir Preciso ir até o fim Será que Deus ainda olha pra mim? Eu sonho toda madrugada Com criança chorando e alguém dando risada Não confiava nem na minha própria sombra Mas segurava a minha onda Sonhei que uma mulher me falou, eu não sei o lugar Que um conhecido meu (quem?) ia me matar Precisava acalmar a adrenalina Precisava parar com a cocaína Não to sentindo meu braço Nem me mexer da cintura pra baixo Ninguém na multidão vem me ajudar? Que sede da porra, eu preciso respirar! Em seguida ele solta essa frase: Cadê meu irmão?
Pode não parecer nada, mas para mim isso é um toque de mestre. Isso atesta todo o discurso. A vida lhe puxou até esses acontecimentos, ele teve poucas opções de escolha. E, mesmo nas piores turbulências, o seu desejo de sair desse mundo se resume a essa pergunta.
Cadê meu irmão?
Já chorei com essa música algumas vezes. Hoje em dia, sempre que preciso lembrar como uma história deve ser escrita, faço duas coisas: vou ver filmes antigos e/ou escuto Tô Ouvindo Alguém Me Chamar.
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Além de entrar em questões de vestibulares pelo país afora, os Racionais MC’s deveriam entrar nos currículos de cinema. Há outros exemplos dentro da discografia dos caras. Há outros exemplos mesmo dentro dessas músicas que apresentei. Trechos e mais trechos que podem contribuir com toda teoria de roteiro cinematográfico que existe. Há filmes clássicos, filmes modernos, planos sequências, flashbacks, sonhos, fantasia… cinema!
Dois mil e vinte e um foi um ano complicado, principalmente de conteúdo. Passamos um ano inteiro com vários adiamentos de diversas formas, as indústrias todas pararam para repensar ou retrabalhar obras pós-Covid. O que pensar? Inserir a pandemia na narrativa das obras audiovisuais ou não? Tivemos exemplos de ambos, mas o resultado é difícil de descrever, o que resultou em um 2021 muito confuso.
Nesse contexto gostaria de comentar um pouco sobre as experiencias audiovisuais que se sobressaíram nessa confusão. Por algum motivo, a safra de cinema foi excelente, principalmente nos melodramas: Obras como Ataque dos Cães de Jane Campion e Madres Paralelas de Pedro Almodovar chegaram em um destaque incrível, mas no quesito cinema, pra mim, a melhor obra de 2021 foi:
Ridley Scott trabalha muito. Um homem de 84 anos que filma duas megaproduções juntas nessa energia é admirável. Ele filmou The Last Duel e, na sequência, The House of Gucci. Ainda não tive o prazer de ver o segundo, mas The Last Duel é uma das suas melhores obras. Imagine Gladiador, mas com uma atenção melhor ao roteiro e na direção. É complicado discutir mais sobre o filme sem entrar nos tais “spoilers”, mas The Last Duel é a obra máxima de Ridley Scott: conseguimos ver todas as interações de uma direção madura no decorrer do filme, que ainda atiça atuações incríveis de atores que muita gente imagina que não tem mais nada a oferecer, como Matt Damon e Ben Affleck. Infelizmente vai passar em branco nas premiações pois flopou nas bilheterias e foi eclipsado por House of Gucci, mas se você tiver a oportunidade de assistir, não perca tempo.
Pensando em obras eclipsadas, penso agora no meu curta favorito do ano:
Magnético, Cassemiro Vitorino e Ilka Goldschmidt
O documentário de Cassemiro Vitorino e Ilka Goldschmidt, quando começa, passa a impressão de ser um mockumentary (documentário falso), sobre uma cidade que sofre de incidentes de agroglifos (marcações nas fazendas, semelhantes ao que rolava no filme Sinais), em cidades do interior de Santa Catarina. Quando você percebe que os relatos são reais e que as pessoas daquelas pequenas cidades estão compartilhando seu novo folclore, o filme cresce imensamente. Pessoas simples compartilhando histórias e a direção sabendo exatamente a linha do que é sério e do que seria considerado como galhofa, caso fosse uma mão mais pesada da direção, faz para mim um dos melhores documentários do ano. Pensar e viabilizar esse storytelling sem pesar no tema de ufologia, que é alvo fácil de chacota em qualquer contexto, não é para qualquer um.
Ainda pensando no contexto espacial, ao meu ver, um dos melhores jogos desse ano foi:
Metroid Dread
Dread, que por algum motivo bizarro nos faz pensar primeiro no corte de cabelo, significa medo ou temor. Metroid é uma franquia que trabalha muito a solidão: em quase todas as instâncias, a protagonista (Samus Aran) é jogada em um planeta desolado, somente com inimigos focados em barrar seu progresso. Nessa jornada solitária, Metroid Dread é o 5º jogo da série e encerra sua cronologia de forma magistral, onde o principal destaque são os EMMIs, que são seres robóticos que te perseguem e te matam em um hit só, diretamente inspirados no filme Alien, onde o xenomorfo é uma força imparável; além disso, o game tem uma das melhores batalhas de chefes do ano.
Impossível não citar também, agora em questão de série:
Chucky (Don Mancini)
O boneco não para! Em sua obsessão de destruir a maior quantidade de vidas possível, agora o vemos atuando em um pequeno subúrbio americano: sua cidade natal. Retornando depois de um arco narrativo de 7 filmes, Chucky agora chega em uma nova linguagem, a de tele-série. Em seus últimos capítulos, as produções cinematográficas se encaminhavam para uma finalização épica que acabou deixando muita coisa em aberto. Transformada em uma narrativa serializada, entretanto, houve espaço para um desenvolvimento maior e mais intrigante do boneco assassino mais famoso do mundo, além da inclusão de novos personagens que só enriqueceram o lore da série, isso sem deixar de mencionar especificamente os novos protagonistas, adolescentes LGBTQIA+, o que espelha uma persona do seu criador, Don Mancini, que vê na identificação algo muito importante para o entretenimento atual. Trazendo personagens queridos de volta (se tem algo que vende bem agora é essa nostalgia), mas dividindo bem o espaço com os novos elementos, Chucky foi uma grata surpresa, principalmente por vir de um canal que tem a fama de exibir produções de baixa qualidade.
A PLURALIDADE DE 2021
Diversas obras poderiam ser mencionadas nessa lista, como a experiência virtual KID A MNSEIA do Radiohead, que comemora os 20 anos de seus álbuns icônicos em uma exploração audiovisual única dentro dos videogames. Também o esforço de Taylor Swift de regravar e relançar seus álbuns roubados, principalmente o álbum Red , repensando a narrativa do álbum e seus singles e lançando o curta água-com-açúcar de All Too Well.
No cinema, o fantástico não para: obras como Titane (Julia Ducournau) e The Night House (David Bruckner) refletem a dor e a confusão do que foi 2021 para a grande maioria das pessoas.
Se 2022 for tão confuso quanto, que seja nessa qualidade.
Romanian actor and director, Adrian Țofei wrote, directed and starred in the controversial horror foundfootage “Be my cat: A film for Anne”, whose plot revolves around a filmmaker that wants to direct a film starring Anne Hathaway that, after a long preparation, will perform role-playing simulations with local substitutes of the Hollywood star, in order to show her his direction abilities.
We, from Reimagem, had a good time with Țofei, talking about cinema, his career and future projects.
Be My Cat: A Film for Anne
RR: Metalanguage, inside arts in general, is a way to explore possibilities of renewal, updating or reconstruction of its own language. In your creative process, what is the metalanguage’s importance?
AȚ: Great question – do you know that I never really had a deep discussion with myself to find the roots of my love for meta? I think it has to do with educating audiences in an indirect way, without being preachy. I always loved to expose my creative process, to teach and inspire people about the art of filmmaking and acting, to make them engaged in a way beyond them being just audiences. I think I see them as potential future filmmakers or actors. Filmmaking or acting is not thought in schools or high schools as a compulsory subject like math or physics. So, when someone has talent in filmmaking or acting – how can they become aware of that talent? Movies show you the final product, they don’t show you the creative process. Except for meta films. They can show the process of their own making and on top of entertaining audiences, can also inspire them to venture into a creative path in life and get in touch with their potential talents.
RR: If we sum up the synopsis of Be My Cat: A Film for Anne, your first feature film, we could say that it is a pseudo-documentary that aims to propose the making of another film, starring Anne Hathaway. It is a film that exists and is registered in those images, but which reflects the desire to make another film that only exists in the protagonist’s imagination. How do movies, generally speaking, influence your way of seeing, thinking and producing cinema?
AȚ: Honestly there are so so so many ways that movies and acting performances influenced me that I literally can’t synthesize this in a couple of phrases. I’d have to write a novel, haha. I used to have a list of top 250 films that impressed and influenced me the most on my website, and was planning to detail the way every film influenced me, but when I realised that work would take forever, I deleted everything and just kept 100 films in the list without any explanation, haha. I went though in details back in 2012 in my Found Footage Manifesto.
RR: Since the release of Be My Cat, has Anne Hathaway given some kind of response to your movie?
AȚ: No, no sign from Anne Hathaway yet. My guess is that she at least heard about the movie, or maybe even watched the trailer, but that’s just a guess. Who knows. I used to dream that she’d be asked about Be My Cat by some late night show host, but that never happened. And herself saying something by her own initiative – I don’t see that happening anytime soon. I am sure at some point I’ll learn one way or another her opinion about the film, but that might not be public – just learning via word of mouth from industry people.
RR: In your “Found Footage Manifesto”, you also address the issue of realism, but in a more self-conscious way due to the explicit presence of the camera. In your opinion, what is the relationship between found footage and the idea of realism in cinema?
AȚ: Found footage and the Dogme 95 movement came as close as possible to the ultimate cinematic realism in terms or fictional narrative. I’d say found footage even more than Dogme 95 because in Dogme 95 you can still ask yourself: how come I see everything I see? obviously someone filmed everything and that someone is not part of the reality depicted in the film, therefore what I see is staged, is not real. Found footage removes even this last element that reminds audiences that what they see is not real by justifying the existence of the camera and the person filming within the reality depicted in the film.
We Put the World to Sleep
RR: What can you already tell us about your next movie?
AȚ: We shot We Put the World to Sleep over a period of 5 years in over 12 cities, villages and remote locations in Romania, Turkey and Ukraine. My filmmaking method usually consists of working for months (years in this case) on an alternative psychological reality for the actors including myself, partially living in character, so that when we start improvising, I mainly need to record the unfolding events and to make sure the improvisation goes in the right direction. There is usually no detailed script, only plot points. I shoot tens of hours of footage guerrilla style (about 200 hours for We Put the World to Sleep), and then I watch the footage like a documentary filmmaker would and I create the details of the story in post-production during the editing process. But I think this time I might have went too far. If Be My Cat was 50% planned and 50% improvised, We Put the World to Sleep was only 25% planned and 75% improvised. I pushed to extremes the limits of improvisational filmmaking. Sometimes it worked, other times it didn’t. One thing is sure though, it’s going to be damn crazy!
As ranhuras na película da TV usada que compramos há dois anos têm aumentado consideravelmente. O que antes eram só pequenos arranhões que deformavam de leve a imagem proposta pelos pixels, agora, apresentam uma extensa faixa branca que cobre boa parte da tela. De onde vejo, as imagens não são mais as mesmas.
Tem sido uma experiência curiosa a de ver filmes, acompanhar festivais, produzir e estudar cinema nestes tempos de isolamento. É que, em casa, as telas parecem brilhar um tanto mais, convocando uma atenção que nem sempre nos cabe e que, às vezes, nos desatina de nosso foco: um filme passa na tv enquanto engatilho o twitter como se fosse uma extensão de minha percepção.
Tuíto, logo existo.
Carro Rei foi o primeiro filme que me chamou atenção na programação do 49º Festival de Cinema de Gramado – carros falantes e algum tipo de complô político já eram anunciados no trailer, coisas que têm minha atenção garantida desde muito cedo. Culpa do Carpenter e de sua Christine, que conheci em alguma noite do passado, quando minha atenção ainda se dedicava totalmente aos emissores de luz daquela TV antiga na casa dos meus tios… me encantei pela Christine do Carpenter muito antes de saber que existia uma Christine do King – a literatura viria a ser foco maior da minha atenção na adolescência, quando tudo que me interessava no cinema eram as sequências de terror juvenil americanas pós-Pânico.
Carro Rei começa com uma crônica ágil sobre uma mulher que dá a luz a um menino dentro de um automóvel. Essa criança cresce com o estranho dom de se comunicar com os carros. Carros serão também um negócio de família que o menino precisará levar adiante, mesmo que tenha outros planos de vida.
Na tela muito arranhada da minha TV, os rostos dos atores se desconfiguram dependendo de sua posição no enquadramento das cenas. Me sinto um tanto traído pelo aparelho, já que não recebo daqui o que o filme me envia de lá. O filme ainda é o mesmo?
Uma vez tocaram saxofone aos pés da minha janela enquanto assistia, pela primeira vez, um dos filmes do Decálogo, do Kieslowski. Era uma serenata para o vizinho. Não Amarás ganhou uma trilha sonora que mais soava como uma sessão do antigo Cine Privé, do canal Bandeirantes, e aquilo mudou para sempre minha percepção a respeito do filme.
Lembro de ter feito um post sobre isso.
Como daquela vez, o filme que me chega agora parece alterado por condições extra fílmicas. Não só pelo defeito na película da minha TV, mas principalmente pelo modo como as coisas se dão no filme da Renata Pinheiro: a tecnologia como extensão do corpo e da mente humana – ou seria o contrário?
Em Carro Rei, tudo surge com vontade de se assumir simbiótico: do filtro azulado aos nomes das personagens; o nascimento do menino Uno/Ninho e sua capacidade de se comunicar com os carros; a breve e divertida alusão à cena final de Holy Motors; ou o modo como o filme nos apresenta a personagem Mercedes (que, com uma espécie de farol acoplado em sua calcinha, traça um caminho vertical vermelho entre os carros mortos de um ferro velho): tudo grita por uma união perene entre homem e máquina.
Esse desejo encontra sua melhor expressão na figura de Zé Macaco, personagem interpretado por um Matheus Nachtergaele inspirado que, infelizmente, sofre demais na tela arranhada da minha sucata. Amo-o desde seu primeiro aparecimento, mas minha televisão me prega peças e o rosto do ator é repartido ao meio pelo cansaço de minha tv defeituosa.
Zé Macaco é uma espécie de evolução humana às avessas, um Homo Sapiens que evoluiu para macaco; o bicho, por causa do jeito que fala e se comporta, mas também o instrumento de trabalho. Poderia se chamar “Zé Macaco Hidráulico”, que tudo continuaria fazendo sentido. Uma evolução homem-ferramenta no processo de involução homem-bicho. Até o movimento de seu corpo regride do autoconhecimento adquirido pela prática do pole dance para uma dureza mecânica de um corpo devotado servilmente ao trabalho, dominado pela tecnologia inteligente batizada de “carro rei”.
Anotei uma palavra no meu celular enquanto via uma das cenas: “autômato”.
As tecnologias e seu modo de usar são, aqui, propositalmente invertidas: quem deveria controlar e manipular as máquinas é subserviente às suas vontades de máquina. Deste modo, torna-se impossível pensar a tecnologia como extensão de si, pois ela já não nos serve como instrumento ou ferramenta.
O discurso que perpassa o filme de Renata Pinheiro e serve de motivação para suas personagens, humanas ou não (já não faz diferença), talvez esteja em algum lugar entre: 1) uma crítica ao uso das tecnologias como um condicionamento decisivo da visão e da experimentação do mundo em detrimento de uma experiência mais direta, menos mediada pelas máquinas, com a vida e; 2) um discurso que busque um viés mais harmonioso e menos conservador, que vislumbre e viabilize possibilidades para essa convivência inevitável com o universo tecnológico que habita nosso cotidiano.
Alguém tuitou sobre o filme.
Achei anotado no celular assim que a exibição terminou: “…no filme tem essa planta que se alimenta dos resíduos da máquina e, na contracorrente do senso comum, brota e encontra um jeito de evoluir”.
A simbiose, afinal?
tuitar (para não esquecer): preciso consertar a tv.
Na verdade eu queria dizer narrativa em clausura. Talvez eu esteja confuso.
Oxygen, produção recente da Netflix dirigida pelo cineasta francês Alexandre Aja, promete, desde seu primeiríssimo plano, uma narrativa condicionada à claustrofobia: em um gigantesco labirinto, um rato de laboratório perambula perdido; o animalzinho, tenso, obviamente não sabe para onde deve ir. Essa condição de clausura logo se revelará um fator indispensável para o desenvolvimento da trama e, para tanto, se fará necessário associar essa natureza claustrofóbica a uma figura central.
Elizabeth Hansen (Mélanie Laurent) passará praticamente um filme inteiro, seja lá quanto isso dure, presa dentro de uma cápsula tecnológica programada para levar seu corpo a outro planeta a fim de colonizá-lo, já que a vida humana na Terra foi fatalmente comprometida. Nada de novo no front.
Despertada do sono por causa de problemas técnicos em sua cápsula, tudo que ela precisará para escapar dessa minúscula prisão é acessar sua própria memória, que fora completamente desestruturada por causa dos anos em que passou adormecida em um sono profundo proporcionado pela máquina que, agora, aprisiona seu corpo. Parece que enveredaremos para o campo da memória…
Códigos, mecanismos, programações: tal como na metáfora do rato perdido no labirinto, sua salvação está registrada em si mesma, em algum lugar de difícil acesso dentro de sua mente (que sabe-se lá por quais motivos se revelará obcecada por outro objetivo até os minutos finais da trama).
Esse cenário, apesar de minúsculo, guarda algumas surpresas, armadilhas programadas, alucinações, mecanismos que vão desde sedativos a injeção letal, caso seja necessário. Se devia ser uma alusão aos processos de memória, talvez coubesse também um indicativo patológico. Tudo isso poderia servir como amplificador da tensão necessária para que o filme, enquanto narrativa claustrofóbica, de fato funcione em sua completude, mas o roteiro lança mão de todo esse recurso com tamanha rapidez e superficialidade que fica difícil esperar alguma nova ameaça para além das limitações geométricas da cápsula (barreira que já entendemos desde os primeiros minutos de filme, oras).
Todo esse esquema narrativo criado a partir do claustro, portanto, parece imobilizar também o desenvolvimento da trama, engessá-lo ao previsível, como um rato que corre atrás do próprio rabo; principalmente quando se adiciona a ela um fator importantíssimo que, inclusive, dá nome ao filme: o que resta de oxigênio dentro da cápsula é o que Elizabeth ainda tem de tempo de vida. Cinema, tempo, movimento… uma armadilha.
Mas o que para muitos pode soar como um jogo interessante dentro da dinâmica espaço/tempo (cápsula/oxigênio), pode, por outro lado, parecer um tanto mórbido para outros olhares – afinal, qual seria a graça de se observar, durante quase duas horas, a imagem de um rato eternamente preso em um labirinto, emitindo sons inteligíveis de agonia?
O modus operandi do desenvolvimento narrativo acaba se deixando enclausurar pelo próprio mecanismo que propõe, porque tudo que é turvo se revela depressa e o que era mistério se elucida com tamanha obviedade que pouco resta ao espectador mais sedento.
Uma curiosidade talvez escape, um fator que confirmaria a ideia de claustrofobia como aposta central da narrativa: a escolha de Mathieu Almaric como ator responsável pela voz onipresente do robô M.I.L.O (a voz dentro da cápsula) muito provavelmente por causa de seu papel ontológico em um drama radicalmente claustrofóbico, O Escafandro e a Borboleta (Julian Schnabel, 2007). Lá, a ousadia do dispositivo fílmico mantinha mesmo tudo em clausura, tensionando limites e experimentando uma linguagem áspera e única que, aqui, não chega nem perto.
Trocadilhos à parte, falta ar em Oxygen.
Previsível,o filme parece cada vez menor e menos interessante à medida que se aproxima de seu desfecho. É como se, a partir de pouco mais da metade, nada mais lhe restasse a não ser uma coletânea cafona de ângulos e sequências melancolicamente masoquistas, um repertório pobre e pouco inovador deveras distinto do que o mesmo Alexandre Aja conseguiu elaborar em sua obra anterior, o igualmente claustrofóbico, mas muito mais inteligente e eficaz Predadores Assassinos (2019).
Com o lançamento de “A Múmia” em 2017, a Universal Studios pretendia criar o que chamou de Dark Universe, um universo cinematográfico nos moldes dos filmes de super-heróis da Marvel, mas usando suas franquias de horror. Um catálogo com clássicos como “Drácula”, “Frankenstein”, “O Lobisomem” entre outros. Já haviam alguns filmes agendados e atores escolhidos para viver os personagens. Mas “A Múmia” se mostrou um fracasso de crítica e bilheteria, fazendo com que a Universal interrompesse seus planos. Algum tempo depois, o estúdio resolveu reformular os planos para seu universo cinematográfico e fez nascer “O Homem Invisível”, em 2020, dirigido por Leigh Whanell.
Sendo um remake de outro clássico, o filme faz parte da nova estratégia da Universal de espalhar as suas propriedades por produtoras independentes para que ideias originais sejam agregadas à histórias já conhecidas em filmes de horror de baixo orçamento. Desse modo, a história de “O Homem Invisível” foi cair dentro da Blumhouse, provavelmente a produtora de filmes de terror mais popular da atualidade, responsável por “Corra!” (2017), “A visita” (2015) e “Uma noite de crime” (2013), etc. Leigh Whannel ficou responsável por argumento e roteiro, com uma visão atualizada para a história clássica.
Depois de planejar os mínimos detalhes, Cecília Cass foge da casa de seu abusivo e rico marido, Adrian Griffin. Mesmo longe dele, entretanto, Cecília sofrerá com crises de ansiedade e pânico. Alguns dias depois, Adrian se suicida, mas ela suspeita que sua morte foi uma armação e desconfia que, de algum modo, Adrian ainda a persegue, sem que ninguém consiga vê-lo.
A história agora deixará de lado a frustração de um homem que torna-se invisível e não consegue reverter essa condição, para ficar ao lado de uma mulher que foge do companheiro abusivo, que preferirá assumir a invisibilidade para se manter perseguindo e oprimindo a protagonista após ser rejeitado por ela. Uma completa atualização temática, levando em consideração o ano em que estamos e a importância de colocar em pauta temas como abuso físico/psicológico, violência doméstica e a suposta “paranóia” feminina. Uma atualização que não serve só ao discurso, mas também ao que o filme se propõe como gênero e roteiro: uma clássica história de suspense.
Suspense clássico pois “O Homem Invisível” se encaixa perfeitamente em duas “regras” dos filmes de um mestre do gênero, o britânico Alfred Hitchcock. Primeiro: “mostre, não conte” (uma ideia que pode ser entendida como essencial para qualquer produto cinematográfico). Um exemplo disso é que nós não vemos os primeiros abusos sofridos por Cecília, e tampouco é preciso, já que vemos as marcas disso nas ações da mulher (sua fuga planejada), no seu psicológico (a ansiedade causada só de pensar em sair de casa) e em suas expressões faciais e corporais. Segundo, o modo como Hitchcock entendia o suspense, como a tensão gerada entre as ações da protagonista e do vilão, ambas vistas por nós, sem saber qual será o final delas uma vez que se opõem.
Logo no começo do segundo ato, revela-se que Adrian, de alguma forma, está realmente invisível e perseguindo Cecília. Se, por um lado, essa revelação põe fim à discussão do público se Cecília está ou não vendo coisas, por outro, é um elemento poderosíssimo de suspense, pois sabemos que ele está em todo lugar sem que possamos vê-lo. O plano do homem invisível é desacreditá-la e fazê-la passar por alguém instável e violenta como vingança por ter terminado o relacionamento.
A partir disso, o roteiro irá propor duas viradas (sendo a segunda completamente inesperada) que oxigenam a narrativa e estabelecem novas camadas ao psicológico de Cecília. Um grande furo que acontece pouco antes da primeira virada poderia comprometer toda a história não fosse a habilidade de Whannel na condução de seu roteiro. Sua câmera segue as ações de Cecília a média distância, como se antecipasse o modus operandi do narrador a partir do segundo ato. Um corte específico faz essa transição quando Cecília presenteia James e sua filha Sidney, que a deixaram morar em sua casa para se esconder de Adrian. O plano muda da sala para o fundo do corredor, uma transição imagética e sonora que não representa só uma dinâmica de enquadramento, mas marca a inauguração de um ponto de vista que confirma a presença do homem invisível no quadro, silencioso, observando Cecília. Foi apenas com um corte, algo simples, mas extremamente eficiente e apurado.
Com isso, os enquadramentos se dividem entre o narrador ao lado de Cecília e de dentro do ponto de vista de Adrian. Movimentos que pensamos ser apenas panorâmicas ou tracking shots comuns são, na verdade, o olhar de Adrian, invisível, acompanhando sua ex-companheira. Aí o suspense, a tensão. Sonoramente, o filme faz um eficiente trabalho nos sons diegéticos (que fazem parte da narrativa), acompanhando essas mudanças de enquadramento e distância, entre o que é ouvido por Cecília e o que é escutado por Adrian. Já a trilha musical encontra um lugar comum de filmes de horror, acentuando momentos de tensão e sustos. Seu melhor uso é quando não está presente, respeitando os momentos de silêncio que a narrativa pede.
A intérprete de Cecília, a mundialmente conhecida Elisabeth Moss, praticamente carrega o filme ao lado de outras atuações que estão ligadas no piloto automático não pela qualidade dos atores, mas pelo roteiro que não lhe dá muitas oportunidades. Moss mostra em seu rosto, no modo de falar e nas expressões corporais, de maneira eficiente, a imagem de alguém que está muito machucada, física e mentalmente, com os abusos do ex. E desse mesmo modo ela transmite bem a mudança entre alguém assustada com a possibilidade de estar sendo assombrada por um fantasma opressor para uma pessoa decidida a provar que está certa.
Se a Universal Studios queria recomeçar o seu Dark Universe depois de um fracasso de bilheteria, ela pode ter encontrado a solução em “O Homem Invisível”: apostar em produções de baixo orçamento entregando-as nas mãos de pessoas talentosas que possam acrescentar originalidade à histórias já tão conhecidas. E, para além disso, criar bons filmes. “O Homem Invisível” é um eficiente suspense hitchockiano em sua essência narrativa e no modo como os personagens são apresentados. As poucas deficiências ou furos de roteiro são barrados pela tensão bem construída pelo diretor Leigh Whannel e pela ótima atuação de Elisabeth Moss.
“O Homem Invisível” acaba se tornando um importante meio de discussão para os temas que aborda, fundamentando-os sobre um ótimo e clássico suspense, um tipo de filme que faz falta aos cinemas dos dias de hoje em todos os aspectos.
O que podem, ainda, as imagens em movimento nestes tempos em que o constante registro do cotidiano nas redes sociais tornou a produção de imagens em mais uma parte banal de nossas rotinas? O que ainda tecem os fios do Cinema, que valor eles têm em uma realidade de olhos treinados por tiktoks e instagrams? O que pensar do futuro das imagens? O que se saberá, em breve, sobre a natureza das coisas quando tudo nos (a)parece previamente produzido, roteirizado, como se nossas vidas fossem fábulas, fantasias, espetáculos?
Ora, mas não sejamos tão puristas. O próprio Cinema tem se interessado pela banalidade e pelo cotidiano, feito deles um tema central cativante e poderoso, multiplicado a simplicidade dos gestos e ações, transformando-as em atos heroicos, conquistas inigualáveis, vitórias inesquecíveis, até mesmo longe da estética hollywoodiana. Desde sempre, cinematografias de todo o mundo têm encontrado/(re)inventado seu modo de transformar o mais corriqueiro dos gestos e movimentos em Cinema, ou seja, de imprimir sobre o tempo a paisagem do cotidiano dos homens e da singeleza das coisas. Essa, talvez, seja a natureza mais embrionária da arte cinematográfica.
Se hoje pisamos em terreno excessivamente fértil quanto à produção e reprodução das imagens, é porque esse desejo de registrar a vida nos contamina desde as cavernas. Desde os hieróglifos, ou ainda antes, passando pelas formas nas paredes das cavernas, sonhamos em capturar o tempo e imprimir nele as marcas fundamentais de nossas grandezas e insignificâncias, seja através das palavras ou de desenhos cravados nas pedras. Do teatro de sombras às mais variadas formas de literatura, de Platão aos Lumière, da primeira fotografia analógica ao vídeo caseiro (filmado por uma câmera Super8 ou em um iPhone ultramoderno), tudo é parte de nosso desejo intrínseco de “fazer cinema”.
Entretanto, à medida em que nos rendemos a essa natureza e aos acessos que construímos para viabilizá-la, é possível que tenhamos nos afastado fatalmente de outras naturezas ou da Natureza em si, com N maiúsculo – aquela que, apesar dos pesares, resiste para nos manter acordados, lúcidos e vivos em um mundo semimorto que respira com dificuldade. É possível que, em larga escala, nossa ambição pela fábula e pelo espetáculo tenha desviado nossos olhos e (des)acostumado nossas sensações diante de filmes como estes que aqui, nessa mostra, se apresentam.
Não é pouco provável que nossos sentidos, alterados pelo novo costume do fluxo quase ininterrupto das imagens da contemporaneidade, nos ludibriem e nos afastem de olhares voltados tão imersivamente à importância da natureza das coisas – é interessante, inclusive, que alguns dos filmes pareçam tecer comentários exatamente a respeito disso (a ilusão de um tesouro enterrado que conduzirá para uma morte inevitável, por exemplo) ou que se utilizem de artifícios técnicos genuinamente cinematográficos para imaginar um futuro distópico onde a natureza se tornou sombria, assustadora e irreversivelmente poluída.
Talvez, portanto, diante desse cenário caótico, seja necessário retornar a simplicidade. Ou melhor, regressar ao essencial. Esquecer por um instante a materialidade da imagem e desafogar os olhos do imediatismo contemporâneo. É preciso desligar as telas e regressar ao invisível, ao abstrato; ignorar a física e perceber a metafísica das imagens e daquilo que elas carregam em si. É necessário, então, regressar ao espiritual, a certo espírito original do qual toda imagem brota ou renasce, à natureza das imagens.
Então, feche os olhos. Imagine uma floresta muda e estática como uma fotografia. Uma floresta verde e vívida, porém imóvel. Observe bem, mas de olhos ainda fechados: imagine. Perceba, então, a fotografia assumir outras formas, outros contornos, como se traços de um desenho muito antigo se sobrepusesse àquela imagem inicial. O desenho, ainda estático, revela outras presenças: outras árvores, outras nuvens, animais, vida… Agora, imagine que essa representação – simples, primitiva, ancestral – começa a se mover, muito lentamente, bailando até que tudo vibre sobre a tela.
Finalmente, o rupestre.
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Este texto integra a Mostra Pachamama do Festival de Cine Latino Americano El Caracol, realizado entre 16/novembro a 19/dezembro de 2020. Assista aos filmes e acompanhe as mostras no site:
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