A ideia inicial dessa edição era celebrar de alguma forma os 100 anos da Semana da Arte Moderna de 22. Mas as palavras seguem vivas e pulsantes na reta final de um (des)governo que, antes mesmo de assumir o controle do país, desvalorizava nossa História, nossa Cultura, nossa Arte e a importância de nossa complexidade enquanto brasileiros.
Por quatro anos, tudo que nos foi oferecido pelo governo vigente foi aquele mesmo conteúdo da bolsa de colonoscopia do início de mandato. Em vários formatos, conteúdos e texturas, todas as questões para as quais procuramos solução nos foram respondidas com uma enchurrada da mais fétida merda.
Agora, ao final dessa desgraça, o Palácio começa a ser esvaziado e vemos as obras de arte que de lá saem: é como presenciar a escatologia de um corpo já apodrecido por fora e por dentro, um “líder” que alimentava-se tanto de seu próprio ego que era capaz de cagá-lo (ainda que pela autoria de outros) em forma de quadros cafonas e esculturas patéticas.
Estamos todos cansados e, nessa onda, limitar a um tema seria contraproducente. Abrimos, então, a caixa dos sonhos.
Neste volume, Gustavo Guilherme imagina um paralelo entre dois sucessos de crítica e de público no cinema em 2022, os filmes Nope, de Jordan Peele, e Marte Um, da Gabriel Martins; Letícia Oliveira descreve a ideia de “gosto” como uma contrução social; Matheus Alvarenga revisita o Movimento Antropofágico com olhares voltados para os dias atuais; PH Martins observa o estilo de uma das cineastas mais relevantes da contemporaneidade e Renata Costa, em texto revisitado e republicado por nós especialmente para este volume, fala sobre o grande filme brasileiro da temporada, Marte Um.
Os conceitos que permeiam o gosto são vários e divergentes em muitas nuances. Mesmo entre indivíduos criados em uma mesma vizinhança, estado ou país, regidos pelo mesmo governo, frequentando as mesmas escolas, espaços de lazer e círculos sociais… ainda assim, pode haver divergências sobre o que é o belo, feio, prazeroso, e no que é mais viável dentre todas as possibilidades que são de convivência e conhecimento individuais de cada um de nós.
Muitas são as vertentes que se debruçam sobre o que poderiam ser os desencadeadores desse desenvolvimento humano, dentro das áreas de evolucionismo, antropologia, etnografia, sociologia e outras que tratam da formação de sociedade e cultura nos modelos que são conhecidos hoje no mundo. Muitos movimentos históricos moldaram e transformaram costumes sociais e hierárquicos que, para parcelas consideráveis e dentro de diferentes culturas, foram – e ainda o são, em algumas instâncias – limitantes no acesso ao conhecimento, lazer e liberdade de escolha. A exemplo disso, temos os regimes escravocratas, onde indivíduos são retirados de sua cultura-mãe, de suas casas, famílias e países de origem, para servir a um outro, um invasor, que goza de outros costumes, em outros contextos e com outros valores – dos quais o indivíduo-escravizado não dispõe ou usufrui. Para isso, houveram reformulações em seus próprios valores, crenças e modo de ver o mundo, que acabaram por se ajustar às novas gerações que surgiram após o processo feito.
A censura aos costumes considerados hediondos também é algo subjetivo dentro desse tema. Como pode um homem, ocidental ou europeu, criticar o modus operandi de uma cultura japonesa? Esses costumes não fazem parte da formação humana cultural desse indivíduo, por mais que sejam estranhos e confusos e até, por vezes, considerados bárbaros; não cabe a quem não faz parte daquele contexto julgar quais de fato são os valores a serem seguidos. A crítica de costumes deve partir de indivíduos que se consideram oprimidos naquele contexto e, para tal, é preciso que estejam ali inseridos. Como na França, onde o estado não queria que as estudantes muçulmanas utilizassem o véu em sala de aula: por uma parte, houveram movimentações a favor de que elas mantivessem seus costumes de origem, já que são parte de sua constituição cultural; de outra, houve a defesa da laicidade da escola, que deveria ser um lugar neutro de religiosidades e suas manifestações. Aqui, o juízo de valores se divide em duas vertentes igualmente válidas: não há como dizer o que é verdade ou mentira, hediondo ou aceitável, porque são vários os determinantes que caracterizam os pontos de vista da questão. Por mais que existam nuances de perspectiva, a cultura pode ser interpretada como a lente que constitui nossa forma de ver o mundo, através de nossas crenças, valores e percepções.
Um dos elementos centrais na constituição dessa forma de assimilar o mundo está na linguagem, que molda a forma como exprimimos a maneira com a qual lidamos com o mundo. A partir da aquisição da linguagem, podemos nos expressar e interagir com o universo ao nosso redor, nos moldando e moldando-o de volta.
Antropologia cultural e a educação para o gosto.
A noção do que seria o conceito de cultura surgiu para delimitar a diferenciação entre os povos, quando os conceitos de determinismo geográfico e biológico se tornaram obsoletos. Muitos foram os pontos de vista registrados por estudiosos a respeito de como se dá a nossa absorção do que seriam os parâmetros culturais.
Já em 1690, John Locke dizia que a mente dos seres humanos nada mais era que uma caixa vazia, dotada de capacidade ilimitada para a absorção de conhecimentos e influências. Mas quem de fato cunhou o termo cultura foi Edward Taylor (Londres, 1832), sintetizando-o como a reunião dos aspectos que abrangem o conhecimento, as crenças, moral, leis, costumes e manifestações artísticas que seriam adquiridas a partir da socialização do indivíduo; socialização esta que estava calcada em adquirir e transmitir tais costumes.
O belo, o feio e a questão do gosto:
Temos tendência a chamar de bárbaro tudo aquilo que se afasta muito de nossos gostos e concepções. (HUME, 1987)
A discussão acerca da existência ou não-existência de um padrão de gosto – que nos permite atingir questões várias, relacionadas ao belo, ao feio e à estética em si – nos faz perceber o paradoxo que essa questão nos traz a respeito do que são a universalidade e a particularidade não só no âmbito do indivíduo, mas do todo que o cerca.
Quando entendemos o gosto como uma predileção autocrática da subjetividade, estamos direcionando-o para si mesmo e ignorando todo o universo e contexto nos quais ele é formado. Esse julgamento prioriza minhas preferências em relação a mim e ao que significo, e então os preconceitos que partem dessa regra são baseados no parâmetro estabelecido unicamente por mim: aquilo do que não gosto é ruim, e apenas o que gosto é bom, o que nos traz um dogmatismo que passa a me tratar como única e possível referência, passo a ser a medida absoluta de tudo (aquilo de que eu gosto é bom e aquilo de que eu não gosto é ruim), e essa atitude só pode levar à intolerância e ao preconceito.
O interesse da subjetividade – em relação à coisa estética da qual definirá se gosta ou não – precisa estar direcionado não em preferir, mas sim em conhecer o objeto. Assim, o gosto passa a ser a habilidade de julgar sem conceitos pré-estabelecidos. O que permeia o gosto, aqui, é a própria presença da obra de arte que supera as particularidades da subjetividade e converte-a em universal, o que nos torna disponíveis para apreciá-la. Quanto mais o sujeito se torna receptivo, mais aumenta sua compreensão ao universo proporcionado pela obra. O gosto se constitui, enfim, pela comunicação que podemos estabelecer com a obra de arte para além da técnica empregada ao construí-la. A universalidade do julgamento é a aplicação da justiça ao apreciar um objeto estético.
A investigação no que diz respeito aos parâmetros que compõem a obra de arte e a arte em si depara-se, inevitavelmente, com a problemática de sua justificativa. Isso se dá porque o gosto – com o qual a arte se relaciona intrinsecamente – a princípio, não parece atingir a generalidade.
Ainda que, em muitas culturas e configurações sociais, uma inclinação do gosto pareça mais evoluída ou superior a outras disposições – o que nos faz, por vezes, considerar certas práticas e preferências como bárbaras, a diversidade encontrada nos parâmetros que podem ou não medir o que de fato define o gosto e suas categorizações (bom, ruim, aceitável, hediondo…) é o que dificulta o trato do tema. Ainda que, dentro da configuração social em questão, essa hierarquização do gosto seja de fácil reconhecimento, quando de uma perspectiva mais aproximada e menos universalizada, entende-se que essa relação verticalizada se dissipa.
As discussões a respeito do belo no decorrer da história não permaneceram estáveis, e oscilaram pelas interpretações idealistas (Platão) e empiristas/materialistas (Hume). Para Platão e a filosofia antiga em geral, arte e beleza eram coisas distintas e independentes: arte remete à técnica, produção (na esfera poética de significados) e pertence à dimensão do sensível; o belo era interpretado como a manifestação das ideias em si, o meio para que se alcançasse o mundo das ideias. A beleza existe por si só, representação do que seria o ideal em forma. Quando algo é julgado belo, este está em semelhança com o que, para a alma do interlocutor – que a julga –, seria o modelo de beleza. Quando algo se afasta da beleza em se tratando do julgamento, seria então uma ilusão do corpo, já que aqui a beleza é objetiva.
O belo para a interpretação empirista/materialista já estaria na esfera oposta do pensamento idealista: a beleza não habita os objetos em si, mas é determinada pelo gosto de cada um através de um julgamento subjetivo. De mesmo modo com a arte, que no século XVIII foi ideologicamente vinculada à noção de beleza (no âmbito grego eram tratadas em separado). Ao invés de a relação se dar através da aparência e do sentido, como em Platão, para Hume a arte passa a ser observada como a perfeição da sensibilidade.
Ainda que, da pluralidade própria do gosto, seja possível universalizar os padrões nesse âmbito – que focaliza não o objeto em si, mas a natureza humana que o julga, esta descoberta, para tanto, se daria através da aquisição de experiência da crítica estética. Deste modo, a designação do refinamento não se daria apenas como aparato essencial do descobrimento do padrão do gosto, mas também como parte integrante de sua própria estrutura.
O século XX e as relações entre arte e sociedade.
Conhecido como o século da expansão acessível da comunicação, que alterou drasticamente as relações entre arte e sociedade, o século XX foi também a época onde se deu a criação da Escola de Frankfurt, onde se reuniram diversos pensadores no viés da psicologia, antropologia, economia e sociologia, que contribuíram com diversas teorias a despeito da crítica da sociedade de massa, que obteve evolução em técnica e tecnologia de forma intrinsecamente relacionada com a lógica capitalista do consumo, já vigente na época.
A emancipação do indivíduo através da racionalidade, em tempos onde o enorme desenvolvimento tecnológico-industrial é um marco de bastante relevância para o modo de vida da população em geral, nos trazem a reflexão de que as consciências individuais estariam submetidas ao sistema econômico e social vigente, à estrutura industrial e à indústria cultural (termo que se refere ao desenvolvimento do entretenimento única e exclusivamente para a alienação e homogeneização das massas, vazios de conteúdo crítico). A produção artística deveria ir contra a massificação do pensamento e servir como base para uma resistência do pensamento crítico, a fim de endossar a emancipação dos indivíduos, assim como no projeto iluminista.
Gosto.
A questão do gosto pode ser discutida como o espectro que dá origem às diferenças, quando se trata de um parâmetro pertencente à configuração social – comum ou não: universal – da condição humana. As noções do que é o belo podem ou não estar atreladas ao ideal de um significado, à produção de sentido.
A noção de beleza está diretamente relacionada à sensibilidade do indivíduo para a contemplação de uma obra. O refinamento do intelecto é imprescindível para que o sujeito possa estabelecer um relacionamento com o belo através de suas emoções visto que, sob sua perspectiva, o sentimento é a única coisa verdadeira. A percepção acerca do que é belo está diretamente relacionada com a educação que o sujeito avaliador da obra recebe. O questionamento que deve surgir é sobre o que de fato é belo, e deve ser respondido através das emoções e da sensibilidade desenvolvidas pelo ser humano. O conceito de beleza é individual, moldado pelas experiências do sujeito de acordo com o contexto no qual está inserido e foi educado, e não através de dogmas ou entidades sobrenaturais que estabeleceram o que é belo e feio. O belo não é feito de conceitos pré-estabelecidos.
A partir disso, é impossível determinar uma causalidade preservada entre os acontecimentos do conhecimento, já que a ligação necessária que deve residir no intelecto não influencia na existência de uma conjugação de causa e efeito. Desta forma, não existiria uma única afirmação física e metafísica de um saber estático, ou seja, uma compreensão assegurada, necessária e universalizada, mas, sim de probabilidades. Aqui, o conceito de beleza sob a perspectiva da experiência é uma resultante das vivências e da construção dos afetos, definido externamente pelos costumes, metodologias, crenças e descrenças, além da configuração cultural do indivíduo. Assim, não existem parâmetros universais sobre o que de fato é o belo, porque o conceito não é estático: é uma construção empírica que varia de uma constituição social para outra.
Podemos conceber que as mudanças políticas e econômicas que ocorrem dentro das configurações sociais em questão é que moldam a produção cultural e a maneira como a população consome e reage à arte. Nesse âmbito, a produção e veiculação midiática pode servir como objeto de reflexão a respeito do que constitui a sua influência na questão do gosto para os indivíduos do século XXI: o que pensamos, criamos e reproduzimos é fruto de nós, ou nós é que somos fruto da mídia que consumimos a todo momento através das redes sociais, propagandas e os próprios meios tecnológicos? O acesso instantâneo à informação e às várias leituras sobre como se dão as configurações culturais fora de nosso contexto afetam, de certa forma, nossa sensibilidade e percepção de mundo, assim como a aquisição de novas linguagens e símbolos, oriundos de um contato facilitado com outras sociedades o faz. Se trouxermos os questionamentos do século XX para nossa contemporaneidade, é possível conceber uma nova ótica sobre a construção da percepção do universo ao nosso redor, e a difusão de novos meios de produzir e consumir arte e constituir o belo, deixando explícito que as elucidações a respeito do gosto e de suas influências não são, de forma alguma, unilaterais.
O conceito de antropofagia sempre esteve presente em discussões de viés artístico. Na raiz de seu significado, antropofagia é o ato de consumir a carne humana com o intuito de adquirir seu conhecimento, força e/ou energia. Partindo deste preceito, na cultura brasileira a Antropofagia começou a aparecer na famosa Semana de Arte Moderna de 1922, e se consolidou em 1928, a partir da publicação do Manifesto Antropofágico, encabeçado por Oswald de Andrade, que visava acabar de vez com qualquer movimento artístico eurocêntrico, buscando dentro do próprio Brasil, em seu povo, conteúdos para a produção de uma identidade artística nacional. Um dos principais ícones desta época é a obra O Abaporu, de Tarsila do Amaral, que foi esposa de Oswald de Andrade.
O que o presente texto traz, na verdade, é uma antítese da antropofagia. O movimento prega a paixão pelos ícones e paisagens brasileiras, além da exaltação da arte nacional como autossuficiente e bela aos olhos de quem a aprecia, tal como as cores verde e amarela da bandeira do Brasil, recentemente usurpada por grupos de extrema-direita com ideologias fascistas.
O país com orgulho de sua cultura, cores e sabores agora é palco de algo desastroso, que vai na contramão de tudo que Tarsila do Amaral, Oswald e Mário de Andrade sempre defenderam: a independência de nossa identidade artística e cultural.
Após as eleições de 2018, da qual o candidato Jair Bolsonaro saiu vitorioso, vimos o nosso Ministério da Cultura se esfarelar em migalhas e, com ele, várias leis de incentivo à cultura minguarem junto com nossa imagem na comunidade internacional.
O que está acontecendo?
Exatamente o contrário do que defendiam as maiores figuras artísticas das vanguardas antropofágicas: a submissão do Brasil às culturas internacionais, sobretudo a dos Estados Unidos. Um país que foi berço de um movimento tão grande, que proporcionou a entrega de obras incríveis como Macunaíma (1969) e as Bachianas Brasileiras (1947) agora rasteja aos pés do “Tio Sam”.
Mas não para por aí: a bandeira verde e amarela, que desde seu lançamento foi motivo de orgulho para os brasileiros, agora foi engolida pelo ódio e desprezo nacional e internacional. O consumo de nossas cores, que já pintaram obras de grande valia para o Brasil, agora está nas mãos daqueles que defendem o seu fim.
O resgate da soberania brasileira e de suas cores será feito gradativamente, assim como foi sua usurpação. A população brasileira precisará aprender a consumir e organizar os conceitos do próprio país para que esta recuperação seja feita de maneira saudável e revigorante. É hora de aplicar os conceitos de consumo da própria cultura e aprender mais com nossa arte sobre a descentralização da cultura estadunidense/eurocêntrica do nosso povo. O Brasil tem cor, tem história e tem memórias!
Não só de bandeira viverá o brasileiro…
Apesar da entrega cultural que o governo Bolsonaro fez aos gringos, este comportamento de suprimir nossos costumes em detrimento de outros países não é novo. Por sermos uma nação jovem, ainda carregamos marcas eurocentradas desde o período colonial que serão difíceis de superar. A cultura brasileira se mistura com a europeia como se fosse um grande mexido servido em um PF. A solução para esse problema é a conscientização e a exaltação da independência cultural brasileira.
E onde entra a Antropofagia neste processo?
A Antropofagia é a antítese da destruição cultural local. Portanto, reconstrução.
A ideologia pode ajudar o país a voltar aos eixos no destaque de sua cultura a partir do momento em que seu povo virar protagonista de suas produções artísticas. É o cinema feito de brasileiros e se alimentando de brasileiros!
Aos poucos, o entendimento acerca de nossa bandeira e nossa soberania poderão ser restabelecidos pois, trabalhando desta forma, o público poderá perceber que a pátria não pertence a um político, uma figura importante ou a alguém insignificante, mas sim ao mesmo povo que desenvolve suas raízes culturais diariamente.
O exemplo da foto é um protesto que reivindica a verdadeira bandeira do Brasil, com cores e identidade indígenas, já que as cores verde e amarelo também sofreram influências imperialistas da época em que o Brasil era uma colônia europeia. Somos indígenas, somos independentes, e fomos todos usurpados.
O Espaço Sideral, lugar de destino e fabulação no imaginário dos homens, ocupa certo lugar cativo no cinema. Assistimos guerras espaciais e aventuras estelares, sonhos que envolvem a existência de vida inteligente fora do planeta Terra, a ideia de outras civilizações, batalhas contra asteroides e alienígenas invasores, tecnologias extraterrestres, etc. O terreno da ficção científica, central ou plano de fundo das mais variadas narrativas, compõe o imaginário popular que se vale de criações elaboradas por incontáveis cineastas, de Andrei Tarkovski e seu drama existencialista em Solaris (1972) ao brasileiríssimo dedo na ferida de Branco Sai, Preto Fica (2014), de Adirley Queirós. Aparentemente, gostamos de imaginar, daqui, os mistérios que estão além das estrelas.
Inseridos nesse universo, Não! Não Olhe! (Jordan Peele) e Marte Um (Gabriel Martins), ambos lançados em 2022, compartilham, cada um a seu modo, esse interesse pelo extra-terreno: no primeiro, como um mistério que se impõe sobre as personagens centrais e o lugar no qual estão inseridas; no segundo, como a motivação central do protagonista e, consequentemente, como força dramática que costura toda a narrativa. Duas formas de olhar (ou não) para cima.
Jordan Peele vem de duas obras muito celebradas. Corra! (2017) e Nós (2019) receberam bastante atenção na época de seus respectivos lançamentos, sendo que seu filme de estreia lhe garantiu, entre outros reconhecimentos, um Oscar que fez dele o primeiro homem negro a ganhar o prêmio na categoria de roteiro original. Logo de cara, um marco que colocaria sobre ele os olhos e a atenção de muita gente. Nós, seu filme seguinte, pode ter dividido a opinião de alguns aqui e ali, mas a mão do autor era, ainda, plenamente visível. Nessa toada, bastou que fosse lançado o trailer de sua mais nova empreitada para que inúmeras especulações começassem a rondar as redes. Nope, título aqui traduzido para Não! Não Olhe!, como era de se esperar, já entrou em cartaz sob uma áurea de excitação e altas expectativas por boa parte do público.
Por sua vez, o diretor mineiro Gabriel Martins, o Gabito, chegaria sozinho na condução de Marte Um após parcerias interessantes em co-direções de filmes como O Nó do Diabo (2017) e No Coração do Mundo (2019), este último em uma colaboração que já vinha de outros projetos com o também mineiro Maurílio Martins. Com a etiqueta da produtora Filmes de Plástico, formada pelos próprios Gabriel e Maurílio, mas também por André Novais Oliveira (outro grande nome do cinema mineiro contemporâneo) e o produtor Thiago Macêdo Correia, Marte Um ganhou o público rapidamente, chamou a atenção da crítica especializada e, quando tudo já parecia perfeito em sua carreira comercial, ainda foi selecionado para representar o Brasil na mesma premiação* que catapultou a carreira de Jordan Peele, o Oscar.
Mas o que realmente aproxima esses dois realizadores é o fato de serem ambos homens negros realizando filmes em uma indústria majoritariamente branca. Não por acaso, lá está o slogan da empresa familiar que protagoniza o filme americano, “since the moment pictures could move, we had skin in the game” (algo como “desde quando as imagens passaram a se mover, tínhamos a pele no jogo”), frase que toma para si o protagonismo de uma conhecida imagem de Eadweard Muybridge (abaixo), em uma invocação de ancestralidade a qual o próprio Gabito já havia recorrido em seu curta-metragem Rapsódia para um Homem Negro (2015), filme construído sob as nuances da relação entre Ogum e Oxossi, para dar texto e subtexto aos seus protagonistas, os irmãos Luiz e Odé.
Não! Não Olhe! acompanha o cotidiano de uma família negra de criadores/treinadores de cavalo (eles mesmos destacam: os únicos proprietários negros de cavalos em toda Hollywood) que se veem diante do desafio de manter a empresa funcionando após a morte do patriarca Otis, fatalmente atingido por um objeto misterioso que caiu do céu. Dentre as estratégias para manter tudo em pleno funcionamento, o filho mais velho Otis Jr., ou apenas OJ (Daniel Kaluuya), e sua irmã Emerald (Keke Palmer) chegam a vender um de seus cavalos para um rancho vizinho, onde funciona um parque temático cujo dono é um ex-ator mirim, interpretado por Steven Yeun, cujo show fora, muitos anos antes, encerrado por causa de uma tragédia brutal ocorrida no set de filmagens. De repente, eventos inexplicáveis começam a acontecer nos céus da Califórnia, sobre a região dos ranchos de OJ e Ricky (Yeun), mistérios que, por um lado, causam horror aos ocupantes daquele lugar, mas que, por outro viés, podem ser a oportunidade que eles precisavam para manterem-se vivos naquele caos.
Na lógica dos acontecimentos de Não! Não Olhe!, é coerente que, em certa altura da história, um dos personagens teorize a respeito do “monstro” que os assombra: talvez seja melhor não olhar diretamente para ele, já que isso o torna mais agressivo, mais perigoso. É como se o tal monstro fosse, talvez, uma espécie de espelho cujo reflexo devolve ao seu observador o medo, o mais puro pavor, ou uma sensação de morte iminente.
Marte Um é outra história, outro filme, mas também observa de perto o cotidiano de uma família negra. Essa, no caso, vive na região periférica de Contagem, Minas Gerais, em um tempo que agora podemos chamar de passado e, finalmente, olhar com alguma distância (ainda que inicial): o tempo da eleição de um governo que destruiu o Brasil nos últimos quatro anos. Pai, mãe, filha e filho, cada um deles uma constelação inteira. Deivinho (Cícero Lucas), o caçula da família, sonha em se tornar astrofísico, mas o pai, Wellington (Carlos Francisco), quer que o filho siga a carreira de jogador profissional de futebol, já que o garoto tem talento para isso. Tércia (Rejane Faria), a mãe, deixa-se contaminar por certo mau agouro após um evento traumático, reimaginando seu cotidiano sob a sombra dessa maldição enquanto Eunice (Camilla Damião), a filha mais velha, descobre a si mesma ao conhecer o amor.
Resumidamente, é um filme que cobre eventos do cotidiano dos integrantes dessa família negra e periférica, com entrelinhas que comentam a vivência da negritude, mas sem apelar para estereótipos fáceis ou velhos costumes (geralmente racistas) do cinema brasileiro mainstream. E, apesar de se entrecruzarem ou colidirem aqui e ali, os trajetos dos astros que compõem essa constelação familiar acabam por, ao fim, cooperar e seguir um único sonho.
Se em Não! Não Olhe! o monstro que assombra aqueles corpos é um mistério que se revelará entre as nuvens, movimentando-se nos céus da Califórnia, em Marte Um o inimigo é o próprio “tempo presente” da narrativa, o tempo da eleição de Bolsonaro e da sombra maligna de seus ideais projetada sobre os indivíduos brasileiros marginalizados — a sensação da mãe de estar amaldiçoada é, de várias maneiras, um sintoma comum daquele momento, daqueles corpos. Se a ameaça nos céus californianos mantém as personagens cabisbaixas enquanto planejam estratégias para vencer o inimigo, aqui, a névoa bolsonarista faz com que os olhos de Deivinho enxerguem, em uma futura missão de colonização do planeta Marte, um sonho, um projeto de vida, um destino possível.
Em outro filme bem falado este ano (Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental, de Radu Jude), um dos atos se configura como uma espécie de glossário ilustrado. Nele, há uma definição curiosa sobre o que seria o Cinema: entre os presentes oferecidos pelos deuses para derrotar a Medusa, está o escudo de Perseu, através do qual o herói foi capaz de observá-la através do reflexo, indiretamente, e derrotá-la, cortando sua cabeça com cabelos de cobra; para Má Sorte no Sexo ou Pornô Acidental, o cinema é o escudo de Perseu, através do qual se pode olhar para a realidade sem encará-la diretamente.
Talvez essa não seja a definição perfeita (e alguma é?) sobre o que é o CInema, mas parece propícia aqui: observar através das lentes de uma câmera ou de um telescópio construído em casa, gesto ao qual recorrem tanto a família Haywood (Nope) quanto os Martins (Marte Um), permite a essas personagens não apenas ver através de um reflexo ou de uma captura, mas também observar o universo e as possibilidades de mundo muito além dos limites impostos pelas circunstâncias do tempo e do espaço.
*apenas um dia após a publicação deste texto, a Academia anunciou os pré-selecionados para a próxima fase na categoria de filme internacional e, infelizmente, Marte Um já não constava na lista.
Filmes devem ficar na sua memória. E muitas vezes ficam por um aspecto específico ou outro, o que ainda é bom, mas a melhor sensação é quando ele gruda na sua mente pela sua totalidade, pelo que te faz sentir, pensar, refletir, etc. Os filmes que marcaram a história conseguiram reproduzir esse efeito nos espectadores de modo perene, prolongado. Desde que eu o assisti em 2021, Ataque dos Cães, de Jane Campion, entrou na minha mente dessa maneira.
Meu primeiro contato com os trabalhos da diretora neozelandesa foi com a série Top of the Lake, em 2013. Um trabalho que, junto com Bom Trabalho de Claire Dennis, me fez conhecer um outro tipo de narrativa para além dos filmes mega populares que minha versão mais jovem gostava de ver. Top of the Lake foi, para mim, uma introdução ao estilo que viria a ser trabalhado em Ataque dos Cães. Depois de assistir ao filme, senti vontade de rever a série e engatar em sua segunda temporada, China Girl, e tive o que me proporcionou, ainda, uma nova experiência.
Existe uma fatia da crítica que classifica Ataque dos Cães como “filme de arte” no vício de tentar justificar seu ritmo lento, seu tipo de roteiro elipsado e sua direção profunda. Parece que só assim, sob essa etiqueta, podem falar bem do filme. Primeiramente, a expressão “filme de arte” pode soar completamente imbecil quando serve apenas para diminuir ou condicionar a arte cinematográfica em determinada linha de produção, determinada grife. Ora, os domínios do cinema, que o fazem ser entendido como uma arte, deveriam bastar para qualquer tipo de filme. Me parece que falta a esse tipo de crítico uma mínima bagagem menos generalista e superficial, mais aprofundada, a fim de fugir da pretensão de classificar um filme dentro de uma vertente que ele mesmo criou em sua cabeça. Basta carregar sua bagagem minimamente e verá que não há nada de “difícil” em Ataque dos Cães. O que existe é um trabalho de roteiro, encenação, direção – e de todos os outros aspectos – muito bem elaborado e planejado nos mínimos detalhes.
Ataque dos Cães começa quando Phil, um fazendeiro durão, trava uma guerra de ameaças contra Rose, a nova esposa do irmão, George, e seu filho adolescente chamado Peter. Há, em todo o filme, uma forte influência do cinema clássico e até do auge do cinema mudo. A história será contada para quem foi fisgado e está dedicado a ela. Todas as entrelinhas são apresentadas na primeira metade e, em seguida, são desenvolvidas lenta e detalhadamente, até cada uma delas chegar ao seu objetivo dramático final, umas com mais força narrativa do que outras. A questão do antraz, a relação dos irmãos e suas lembranças de seu antigo mentor, a sexualidade de Phil, as intenções de Peter, esses desenvolvimentos poderiam até ser feitos de modo seguro dentro do roteiro: apresentar personagens, vagar de uma cena a outra e ir crescendo, fazendo disso o próprio andamento do filme. Mas não é essa a intenção ou o estilo de Jane Campion. Nessa narrativa, seu objetivo principal não é nos entregar respostas, mas nos guiar através das dúvidas.
O que significa Peter procurar animais mortos pela região? Qual a real intenção de Phil ao se aproximar de Peter mesmo após atormentar o menino? Onde o alcoolismo de Rose a levará? Ela vai fazer algo contra Phil, que parece ameaçá-la silenciosamente vinte e quatro horas por dia? Como Jane Campion faz isso?
Para mim, é como se ela soubesse de toda a história e conduzisse seu roteiro através de cada ato que dê conta das relações dos personagens. Em alguns casos, ela consegue alcançar e desenvolver bem; mas, em outros, as personagens parecem correr mais que a escrita da autora e se distanciam, como se tivessem vida própria. É difícil descrever isso com precisão teórica.
E então, Campion mostra o que vem depois. Elipse e, sem seguida, lá está o personagem, ou lá estão as relações que definem esses personagens depois de seu desenvolvimento ter atingido um novo patamar. No caso de Ataque dos Cães, a principal marca dessa estratégia é a impossível amizade entre Phil e Peter.
Quando o garoto chega na fazenda com seu estilo afeminado e seu corpo magrelo, ele logo vira alvo das provações de Phil e de seus subordinados. A aproximação acontece após Peter descobrir um pequeno segredo de Phil. O cowboy depois não o confronta mais, não o ameaça, mas é mostrado sempre buscando uma aproximação e se surpreendendo com o espírito corajoso do menino. Phil encontra em Peter o que perdeu com o irmão George. Um tipo de companheirismo e amizade que cresce a partir do que cada um mostra ao outro e de como essas coisas se traduzem em respeito.
Foi ótimo rever Top of the Lake e perceber esse tipo de artifício sendo usado também em uma outra história, anterior e mais longa. Um estilo que reforça aquilo que realmente te faz lembrar de um filme: o sentimento, o pensamento, a reflexão. É esse mesmo estilo faz de Ataque dos Cães uma obra que traça, desde a primeira voz que ouvimos, a de Peter, suas intenções, mas que também nos diz “calma, espere, a resposta virá na hora certa, enquanto isso deixa eu te mostrar isso aqui…”.
Por fim, um apelo: talvez não seja um bom caminho validar um filme pela sua lentidão ou ritmo diferenciado, dê uma chance e tente senti-lo. Se a coisa realmente não “bater”, é vida que segue. Mas, se bater, é quase certo que a experiência será maravilhosa. Filmes são, também, como as melhores coisas da vida. Só se tornam as melhores se dermos chance a elas.
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