Pesquisador, roteirista e crítico de cinema. Dirigiu os curtas documentais "Nós" (2016) e "Minhas Mães" (2018). Colaborou como co-curador do Festival de Cinema de Vitória (2016 e 2017) É um dos idealizadores dos podcasts "Reimagem" e "Terrorias da Conspiração" e realizador das webseries "S[C]INÉDOQUE" e a ainda inédita "Cartografias Poéticas para um (Im)Possível Cinema Capixaba" (em produção).
Na pressa dos dias, aprendemos a lidar com o cotidiano de maneira automatizada; nos convencemos de que não é necessário pensar para executar tarefas básicas e banais que preenchem nossas rotinas. Deste modo, já não há novas expectativas ou perspectivas quanto aos caminhos e trajetos que tomamos para os lugares que usualmente frequentamos, ou talvez para o gosto das refeições que comemos todos os dias. Então, tudo pode parecer automático, monótono, sem graça. Já não nos percebemos porque os costumes e manias absorvidos por nós desde a infância estão tão enraizados que questionar o porquê das coisas parece algo irrelevante. Quem e por que somos? Onde e por que estamos aqui?
A ânsia pela evolução, tecnologia e velocidade (imediatismo) faz com que nos tornemos fruto daquilo que criamos e, ao invés de essas invenções nos ajudarem, acabam por nos deixar à mercê de suas capacidades incríveis que, na verdade, não passam de mera imitação, ainda que melhorada, do que antes já podíamos fazer.
As dicotomias que outrora serviam para nos conectar com o que para nós era de importância primária, hoje mudam em instantes, ditando regras e comportamentos em todas as nossas ações e decisões. Nos guiam por instâncias que, por vezes, fazem pouco ou nenhum sentido.
Quão vastas são nossas capacidades? Podemos vasculhar o espaço, construir computadores aptos a obedecer aos nossos comandos, desenvolver fórmulas matemáticas e físicas, descobrir novas receitas químicas que produzem vacinas, etc. Somos capazes de explorar o universo. Mas temos, também, a infinita habilidade de criar, recriar, imaginar, re-imaginar e reconfigurar tudo aquilo que está aqui, ao nosso alcance.
Assim, assamos um bolo (esta mágica gastronômica que mistura elementos tão distintos para resultar em tão deliciosa doçura) e compartilhamos com aqueles que convivem conosco, ou construímos instrumentos e criamos canções que falem de nós e da nossa cultura por gerações e gerações, ou fabulamos sobre os mistérios que existem após a morte.
Não nos parece em vão que a maioria dos filmes selecionados para essa mostra se utilize de técnicas rústicas em detrimento de tecnologias mais avançadas da animação. É como se, a cada quadro, os filmes nos convocassem a um outro olhar, menos inclinado à pressa e mais devoto dos detalhes. Para observar a panela de barro, ou o bolo de chocolate sobre a mesa, é preciso estar atento, sem distrações e sem pressa.
Gigantes que somos em nossa capacidade de criar (máquinas e mentiras) e desvendar (outros mundos e mistérios), repousamos aqui, ao nosso redor, onde nossas mãos podem tocar, nossas mais inteiras paixões e nossos desejos mais fundamentais, nossas ambições primárias, nossos sonhos infantis. Para isso, enfim, “desautomatizamos” a vida por alguns instantes, desligamos os motores, desaceleramos o olhar, ignoramos o ritmo do mundo em nós e, somente a partir daí, reconhecemos, finalmente, a importância simples dos gestos e das coisas pequenas.
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Este texto integra a Mostra Pachamama do Festival de Cine Latino Americano El Caracol, realizado entre 16/novembro a 19/dezembro de 2020. Assista aos filmes e acompanhe as mostras no site:
O que podem, ainda, as imagens em movimento nestes tempos em que o constante registro do cotidiano nas redes sociais tornou a produção de imagens em mais uma parte banal de nossas rotinas? O que ainda tecem os fios do Cinema, que valor eles têm em uma realidade de olhos treinados por tiktoks e instagrams? O que pensar do futuro das imagens? O que se saberá, em breve, sobre a natureza das coisas quando tudo nos (a)parece previamente produzido, roteirizado, como se nossas vidas fossem fábulas, fantasias, espetáculos?
Ora, mas não sejamos tão puristas. O próprio Cinema tem se interessado pela banalidade e pelo cotidiano, feito deles um tema central cativante e poderoso, multiplicado a simplicidade dos gestos e ações, transformando-as em atos heroicos, conquistas inigualáveis, vitórias inesquecíveis, até mesmo longe da estética hollywoodiana. Desde sempre, cinematografias de todo o mundo têm encontrado/(re)inventado seu modo de transformar o mais corriqueiro dos gestos e movimentos em Cinema, ou seja, de imprimir sobre o tempo a paisagem do cotidiano dos homens e da singeleza das coisas. Essa, talvez, seja a natureza mais embrionária da arte cinematográfica.
Se hoje pisamos em terreno excessivamente fértil quanto à produção e reprodução das imagens, é porque esse desejo de registrar a vida nos contamina desde as cavernas. Desde os hieróglifos, ou ainda antes, passando pelas formas nas paredes das cavernas, sonhamos em capturar o tempo e imprimir nele as marcas fundamentais de nossas grandezas e insignificâncias, seja através das palavras ou de desenhos cravados nas pedras. Do teatro de sombras às mais variadas formas de literatura, de Platão aos Lumière, da primeira fotografia analógica ao vídeo caseiro (filmado por uma câmera Super8 ou em um iPhone ultramoderno), tudo é parte de nosso desejo intrínseco de “fazer cinema”.
Entretanto, à medida em que nos rendemos a essa natureza e aos acessos que construímos para viabilizá-la, é possível que tenhamos nos afastado fatalmente de outras naturezas ou da Natureza em si, com N maiúsculo – aquela que, apesar dos pesares, resiste para nos manter acordados, lúcidos e vivos em um mundo semimorto que respira com dificuldade. É possível que, em larga escala, nossa ambição pela fábula e pelo espetáculo tenha desviado nossos olhos e (des)acostumado nossas sensações diante de filmes como estes que aqui, nessa mostra, se apresentam.
Não é pouco provável que nossos sentidos, alterados pelo novo costume do fluxo quase ininterrupto das imagens da contemporaneidade, nos ludibriem e nos afastem de olhares voltados tão imersivamente à importância da natureza das coisas – é interessante, inclusive, que alguns dos filmes pareçam tecer comentários exatamente a respeito disso (a ilusão de um tesouro enterrado que conduzirá para uma morte inevitável, por exemplo) ou que se utilizem de artifícios técnicos genuinamente cinematográficos para imaginar um futuro distópico onde a natureza se tornou sombria, assustadora e irreversivelmente poluída.
Talvez, portanto, diante desse cenário caótico, seja necessário retornar a simplicidade. Ou melhor, regressar ao essencial. Esquecer por um instante a materialidade da imagem e desafogar os olhos do imediatismo contemporâneo. É preciso desligar as telas e regressar ao invisível, ao abstrato; ignorar a física e perceber a metafísica das imagens e daquilo que elas carregam em si. É necessário, então, regressar ao espiritual, a certo espírito original do qual toda imagem brota ou renasce, à natureza das imagens.
Então, feche os olhos. Imagine uma floresta muda e estática como uma fotografia. Uma floresta verde e vívida, porém imóvel. Observe bem, mas de olhos ainda fechados: imagine. Perceba, então, a fotografia assumir outras formas, outros contornos, como se traços de um desenho muito antigo se sobrepusesse àquela imagem inicial. O desenho, ainda estático, revela outras presenças: outras árvores, outras nuvens, animais, vida… Agora, imagine que essa representação – simples, primitiva, ancestral – começa a se mover, muito lentamente, bailando até que tudo vibre sobre a tela.
Finalmente, o rupestre.
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Este texto integra a Mostra Pachamama do Festival de Cine Latino Americano El Caracol, realizado entre 16/novembro a 19/dezembro de 2020. Assista aos filmes e acompanhe as mostras no site:
O corpo é, novamente, o centro de tudo. Não só onde vibram as angústias e prazeres, mas também de onde se originam. É a partir e através dele que pulsam todas as formas de estar no mundo e de pertencer (ou não) a ele. É dentro dele, também, que se desenham as possibilidades de existir e resistir a tudo que a ele foi imposto: símbolos e imaginários, desejos, observações, registros.
Nessa mostra queer (cuir), a desobediência dos corpos faz transbordar outras espiritualidades — ancestrais, místicas, reavivadas — assim como outras formas de fabular sobre si mesmos, reinventando maneiras de ser lidos pelo outro e, antes de tudo, por si mesmos.
Do pássaro morto em um balanço de madeira ao corpo feminino, nu, estirado no chão — representação de desvios de comportamentos que são atribuídos pelo modelo social que impõe conceitos, pensamentos e condutas o tempo inteiro — lido como estrume, margem-descartável; na revisitação do conto clássico ao tentar reimaginar, nele, sua própria identidade e performance; ou, ainda, na metafísica do ritual travesti que oferece ao mundo colonizado uma possibilidade de cura: tudo inunda dos corpos (filmados, presentes) para desaguar em nós.
Não por acaso o registro materialista de fotografias em preto e branco parece fragmentar um corpo, aparentemente como um campo vasto, fértil de desejos e afetos para ao fim culminar em olhos que, famintos, parecem querer devorar o mundo, indagando tanto a si mesmo no espelho quanto a nós, espectadores: “você já tentou olhar nos meus olhos?”. É um questionamento profundo sobre como são vistos estes corpos e as personas que o habitam perante uma sociedade conservadora e bestial em seu conservadorismo, que prega a inexistência de um comportamento que não seja padronizado, pois uniformizam os corpos, o desejo, o afeto, a sexualidade, etc.
Não fosse o bastante confrontar o mundo material, há também um ávido questionamento do divino. Não de sua existência ou relevância, já que essas, aqui, se manifestam escancaradamente, mas de sua responsabilidade como “artista criador” de todas as coisas. Daí a proposta de preparar um quarto de cura ou de rimar em protesto contra comportamentos racistas que encontram representação, encorajamento e respaldo no imaginário de um Deus branco e heterossexual. Talvez venha daí também, no ato de reescrever a fábula, a ambição de reimaginar sua própria existência, no sentido de reformular a imagem de si mesmo diante do mundo, recriando não apenas suas formas, mas também suas potências.
Nesses corpos não castrados, desobedientes de uma ordem homogênea e padronizadora de tudo, energizados pelo desejo e pela vontade soberana de ser o que são, inseridos onde quiserem estar e da maneira que precisarem ser, as origens e os fins se misturam, bem como o físico e o metafísico, em constante conflito: a alma e a carne, a vontade de viver e o anseio pela morte, a janela dos olhos ou a porta do cu, tudo se confunde, propositadamente, em uma espécie de manifesto que reclama o direito de não se submeter aos moldes impostos, o direito de desobedecer, de (re)criar outras imagens tanto de si quanto de um Deus que consigo se pareça, finalmente criado à sua imagem e semelhança.
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Este texto integra a Mostra Queer do Festival de Cine Latino Americano El Caracol, realizado entre 16/novembro a 19/dezembro de 2020.
Aproximar-se da produção cinematográfica indígena latino-americana é observar o tempo, suas marcas impressas tanto nos povos nativos quanto na terra na qual eles ainda resistem, mas é também perceber a memória não como algo estanque, tal qual um estatuto antigo que precisa ser preservado, mas como uma força atuante e em movimento, constante e ininterrupta, que constrói um tecido novo cujos fios se entrelaçam, vivos, diante de nós.
Dos registros de maternidades possíveis à impressão sonora de uma língua mãe, que ecoa lamentos ou conselhos atemporais, todos os registros audiovisuais que compõem essa mostra exemplificam e constituem essa construção presente e perene da memória. Tudo aquilo que, aqui, pode parecer mera observação de algum passado distante, é na verdade a reivindicação de um presente digno a partir do qual se possa vislumbrar o futuro, mesmo que, nele, ainda seja necessário resistir e lutar. No contexto dessa mostra, na verdade, é impossível dissecar o tempo, pois tudo vibra e pulsa, grita e chora, finca os pés no solo e resiste, aqui, agora, em tempo presente, sob uma linguagem que se renova e nos transpassa enquanto espectadores.
Observar esses cinemas é, também, reconhecer em nós a insuficiência de nosso olhar colonizado, viciado em imagens de fácil assimilação. É que as lógicas e os desejos da mentalidade colonizadora que nos foram oferecidos desde quando fomos crianças provavelmente nos fariam enxergar, nesses filmes, não só uma perspectiva de tempo e espaço tradicionais, o que talvez nos movesse a encaixar essas personagens como meras marcas de um passado latino-americano distante e esquecível, mas também nos impeliria a enquadrar esses povos sob uma perspectiva de ingenuidade que não lhes cabe, pois já não é possível que, depois de tantos séculos de colonização, os povos indígenas ainda se submetam a velha troca: seu Cinema (o tesouro) pela bugiganga de nossas teorias (o espelho). Não. Nunca mais. Não haverá troca. Não haverá catequese. Não haverá tradução.
Ainda somos reféns de lógicas e pensamentos envenenados, ainda que minimamente, por uma lógica colonizada e colonizadora, enquanto a arte (e o cinema) indígena aprendeu a resistir ao tempo e às condições de opressão, violência e arrogância que, até hoje, ameaçam sua existência na terra que, antes de tudo, lhes pertence. No pranto cantado que lamenta o passado ou no sonho de fogo que prevê uma praga mundial, tudo aqui é Memória – não para arquivar o tempo, mas para resistir a ele. Estes Cinemas que aqui se apresentam são, portanto, uma maneira de tecer essa Memória, de elaborar uma linguagem que se renove eternamente e com a qual sempre se possa dizer (e, ao dizer, declarar resistência): ainda estamos aqui e não vamos sair.
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Este texto integra a Mostra Cinemas Indígenas do Festival de Cine Latino Americano El Caracol, realizado entre 16/novembro a 19/dezembro de 2020.
As novas imposições acumuladas sobre nós nos últimos meses talvez tenha nos desacostumado ao tempo da observação, ou nos engessado em aspectos essenciais do olhar. Desde o modo como passamos a observar o mundo, sempre a alguns passos a mais de distância, a maneira como passamos a sentir e perceber o mundo em nossos corpos, de mãos devidamente higienizadas e metade do rosto coberto por máscaras que sufocam nosso fôlego e altera nossos sentidos.
Sob efeito dessa “anestesia” forçada, a impressão a respeito da totalidade da imagem que se forma através dos filmes que compõem a Mostra Améfrica Ladina me parece incerta, ainda estou entorpecido. Apesar da perceptível intenção de aproximar os corpos latino–americanos ao redor de uma ideia concisa de narrativas (ficcionais ou documentais, aqui não faz nenhuma diferença) que corroborem com uma construção imagética que traduza unidade e semelhança, essa ideia ainda não me parece suficiente. Ainda preciso dar um passo adiante, me aproximar mais, observar melhor.
As aproximações estão todas lá e não é difícil reconhecê-las: as favelas dos países vizinhos se parecem com as nossas, seja na geometria desenhada pelas casas ou pelas problemáticas sociais que, lá e cá, ecoam com a mesma intensidade; o racismo e as opressões que permeiam a história e o cotidiano dos brasileiros também tecem suas teias na origem e na vida comum do povo latino como um todo. Olhando de longe, entorpecido, nos percebo tão próximos, tão parecidos, mas isso não é nenhuma novidade.
Mas, se tais semelhanças e aproximações brotam facilmente de nossas lutas e mazelas sociais, o que poderia, então, nascer de nossas diferenças? O que ecoa à partir de nossos abismos? O que pode, por exemplo, o Cinema enquanto veículo de intercâmbio sociocultural diante das lacunas que, inegavelmente, nos separam enquanto povo e identidade? Faz-se necessário, então, um curioso (e quase utópico) movimento contraditório: aproximar-se para perceber o que nos dizem as distâncias.
Na amplitude e vulnerabilidade daquilo que nos separa, um banho dado pela mãe ou pela avó pode adquirir significados distintos, mas igualmente poéticos (o afago, o zelo, o medo da morte) na capacidade de, através do Cinema, trilhar uma possibilidade de resistir, de gritar, de estar no mundo.
De igual modo, o discurso que adota o dialeto academicista pode parecer viciado e clichê, porque aparenta estar distante do resto do mundo, ou porque parece conferir a si mesmo o status de vernáculo, mas é a relevância daquilo que se diz e não a forma como é dito o que realmente catalisa uma palavra, um discurso; desta forma, as reivindicações acadêmicas não contradizem ou anulam os lamúrios cotidianos de quem ainda não teve a chance de descer dos morros para ocupar as cadeiras de uma Universidade Federal – são sussurros que, no fim das contas, se complementam e reverberam para fora da cena, para o interior dos corpos que, aproximando o olhar e os sentidos, se permitem atingir pelo discurso das imagens. Afinal, onde mora a relevância de nossos filmes? Na seleção de renomados festivais de cinema ou na carne trêmula de quem, ao ver na tela um corpo com o qual consiga se identificar, esboça dentro de si o princípio de uma chama?
Os corpos, inclusive, são fator fundamental para compreender essa mostra, pois estão inseridos em tela, filme a filme, como se fossem territórios reconquistados por si mesmos, reavivados em sua significância diante do que os rodeia e os perturba. São corpos a respeito dos quais ainda se discute e ainda se anseia construir um caminho, um lugar possível, mas que não pretendem necessariamente ser assimilados pela norma vigente, porque estão mais interessados em, apesar de tudo e de todos, existir.
Tais corpos, inquietações que vibram na superfície da imagem, ressoam em outras atmosferas, em outros campos, porque se impõem dentro do plano para extrapolar a tela, não só como contraponto narrativo (portanto artístico) e estético (portanto político) à hegemonia branca, europeia, masculina e colonizadora do cinema de todos os tempos, mas principalmente como força mobilizadora de seu próprio discurso, uma força auto suficiente e poderosa dotada de uma originalidade que se reinventa e se redescobre ao passar das décadas. Aqui, o corpo é Alfa e Ômega: é onde tudo começa e onde tudo termina.
E esses corpos – negros, ameríndios, periféricos, dissidentes, femininos – transbordam da imagem, escorrem pelas bordas, porque já não se permitem o papel de espectador, pacífico e subserviente, como quem observa o mundo através de uma janela. Esse lugar nunca lhe foi suficiente. É necessário pular a janela e invadir o quadro, inserir-se na paisagem, ocupar os espaços e gritar em todos os idiomas e linguagens (im)possíveis; é preciso danificar e confundir o que está posto, pressionar os limites, alargar as possibilidades. Enquanto o mundo, abrupta e violentamente, se modifica, essas imagens não apenas resistem: aqui, elas revidam.
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*este texto integra a Mostra Améfrica Ladina do Festival de Cine Latino Americano El Caracol, realizado entre 16/novembro a 19/dezembro de 2020.
Brasil, 2020. Uma pandemia de nível global nos colocou em isolamento. O novo cotidiano imposto pela Covid-19 nos condicionou a um estado de alerta interminável, reconfigurou nossos costumes e nossa percepção, alterou definitivamente nossa forma de olhar e perceber o mundo. O mais simples dos detalhes, imperceptível aos olhares apressados de outrora, agora obtém significado(s), adquirem forma, ganham vida, tornam-se importantes. Daqui, deste ponto nublado da história, é difícil enxergar algum futuro…
No presente, respiramos com alguma dificuldade, falamos com a voz abafada – por causa do temor ou do uso das máscaras, mas também porque percebemos que talvez estejamos mais solitários do que desejávamos, ou porque notamos (os que ainda não tinham se dado conta disto) que não há entidade, instituição ou tampouco um indivíduo de quem possamos esperar algum gesto de liderança. Não há presente. Não há futuro.
Durante o período de isolamento social, as ideias para uma segunda edição temática desta revista transmutavam-se a cada instante. Como se manter minimamente relevante nesses tempos? Ou, ainda: como pensar o Cinema neste momento histórico de impossibilidades e reconfigurações? A própria noção de tema (bem como a de prazos e limites) nos parecia irrelevante, egocêntrica, mesquinha. Acompanhamos o crescimento da produção (e reprodução) das imagens como ponto de fuga da realidade, mas também como ancoradouro de novas possibilidades e configurações desse novo olhar – confinado, inseguro, solitáro. Assim sendo, retiramos o subtítulo da revista e assumimos nossa vulnerabilidade. Não mais “Cinema e TV”, apenas Reimagem – para (nos) reconfigurar, reinventar, relembrar, reestabelecer, reconectar, reimaginar, ressignificar.
Como temática, a princípio, queríamos deflagrar o flerte do governo brasileiro com os ideais do mais descarado fascismo como tema central da edição, olhando para o passado na expectativa de reconhecer nele algum traço do presente para que, a partir disso, pudéssemos imaginar alguma possibilidade de futuro. No entanto, sucumbindo a corrente de reformulações sob a qual o próprio mundo parece estar implicado a partir de agora, afrouxamos os limites do tema, ainda que ele permaneça por lá, nos rondando de longe – um olhar que ainda considera traços e sombras de opressões, passadas e presentes, para resistir ao caos que nos foi imposto.
Nesta edição: PH Martins traça, em uma análise concisa sobre a figura do narrador-persongem, um paralelo entre O Cremador (Juraj Herz, 1969) e a figura emblemática de um aspirante a ditador; Luciana GB reflete sobre fronteiras e urbanidades na América Latina a partir do documentário Terras (Maya Da-rin, 2009); na Seção Painel, o artigo de Letícia Oliveira analisa a narrativa sonora do confronto final do filme Nós (2019), de Jordan Peele. Além disso, a realizadora Jo Serfaty fala sobre o fazer cinematográfico, linguagem, resistência e realização em uma conversa sobre seu premiado longa-metragem Um filme de verão.
As imagens do mundo foram irremediavelmente reconfiguradas. Reconfiguremo-nos, então.
EXPEDIENTE || Editor-chefe: Gustavo Guilherme da Conceição | Revisão: Gustavo Guilherme da Conceição e Letícia Oliveira | Tradução e revisão (English version): Letícia Oliveira | Mídias sociais: Luana Macedo Pereira || Assinam os textos desta edição: Gustavo Guilherme da Conceição, Letícia Oliveira, Luciana GB e PH Martins ||| Agradecimentos especiaisa Jo Serfaty e Luana Cabral.
Há uma cisão explicitamente visível na cena que abre o documentário O Processo, de Maria Augusta Ramos. As multidões pró e anti impeachment da então presidente Dilma Roussef, observadas por uma câmera que sobrevoa lentamente o gramado do Planalto, vibram e gritam, distantes uma da outra, seus respectivos jargões de protesto. De um lado, homens e mulheres vestem figurinos vermelhos, dentre os quais é fácil imaginar uniformes da CUT, MST ou bandeiras petistas; do outro, camisas verde-amarelas da CBF que tremulam sobre corpos aparentemente irritados, uniformes esportivos que agora servem de símbolo, simplório e piegas, de uma direita pseudopatriota barulhenta e vazia de ideias.
É esse mesmo movimento de câmera que percorre os céus da capital brasileira nas cenas derradeiras do famigerado Democracia em Vertigem, de Petra Costa, nos fazendo contemplar, devidamente embebidos do tom melancólico-burguês que inunda o filme através da narração de Petra, um caos instaurado que se revela, também, na (de)formação confusa das mesmas multidões antagonistas que protagonizavam os instantes iniciais de O Processo.
O Processo, de Maria Augusta RamosDemocracia em Vertigem, de Petra Costa
O mesmo momento político, a mesma observação que, à altura do lançamento de ambos os filmes, já poderia parecer um tanto óbvia: o país estava dividido, polarizado.
Os paralelos e diferenças que se podem traçar entre esses dois documentários nos permitem perceber a construção e consolidação de um discurso político essencialmente unilateral que, em seus vícios e apelos de linguagem, transformaram a possibilidade de mergulhar fundo nas profundezas multiformes e multifacetadas de nossa história política recente em um mergulho raso, às vezes pouco revelador. Estes dois filmes, aliados ao desespero faminto de certa esquerda ansiosa por representações palatáveis e respostas imediatas aos melindrosos golpes sofridos, alcançaram algum sucesso de público (principalmente o filme de Petra Costa, indicado ao Oscar de melhor documentário), mas não conseguem dar conta da real complexidade do jogo político que nos governa e, em sua astúcia perversa, nos torna refém.
O teórico e crítico de cinema Jean-Claude Bernardet chegou a apontar em um post no Facebook (a partir de uma conversa com a própria Maria Augusta sobre certa tensão entre ela e Petra enquanto cineastas que filmavam, ao mesmo tempo, o mesmo processo e, nessa mecânica, esbarravam uma no estilo de filmar da outra) para as diferenças estéticas e semânticas que acabariam por revelar dois modos de fazer política e cinema, entrelaçadamente.
Bernardet destaca que Petra filma muito perto das pessoas, closes do rosto, da textura da pele; cita como exemplo o material de Lula se entregando a PF: “emocionante, dramático”, ele diz. Em contrapartida o que Maria Augusta parece querer filmar, com seus planos mais abertos e enquadramentos mais amplos, é (desde seus filmes anteriores) os rituais da instituição política que promoveu todo o espetáculo patético do impeachment.
Mas é na montagem desses dois documentários que seus discursos se aproximam, principalmente na maneira como abordam as mudanças do Partido dos Trabalhadores durante a trajetória que se propõem a cobrir em suas narrativas.
Em Democracia em Vertigem, há uma visível diferença na forma de retratar o Lula carismático no sindicato dos bancários, rodeado de apoiadores, em direção à prisão, e o Lula das campanhas (a montagem mostra a evolução dos figurinos durante as campanhas eleitorais enquanto a voz de Petra, talvez em certo tom de ironia, utiliza a expressão “conciliação de classe”, termo nunca usado pelo PT) – é como se o filme tentasse resguardar e proteger a imagem do Lula carismático, tentando deixar de lado a do Lula conciliador.
Em O Processo, a sequência das alegações finais do julgamento de Dilma recorta e remonta as falas de Janaína Paschoal e José Eduardo Cardozo, de modo que elas, através do contraste das posições jurídicas e políticas que se contrapõem em discurso e postura, se complementem: Paschoal fala em “fazer sofrer a senhora (Dilma) pelo seu bem”, enquanto Cardozo, com ironia, lembra que Dilma havia sido torturada, parodiando a fala anterior de Janaína. É um jogo de cena que se dá através das palavras, mas que acaba por flagrar a fragilidade da esquerda naquele momento.
“Cada plano capta um momento da situação, mas a articulação dos dois cria nova significação: ao retomar a fala de Janaína de forma paródica e crítica, Cardoso atua dentro do território criado por ela. E dentro desse território balizado pela acusação e pela direita, ele tem um posicionamento reativo”, analisa Bernardet em outro post no Facebook.
A postura desse discurso, que se inicia no campo da política e reverbera nas linguagens do cinema, pode ser lida como defensiva, às vezes lamuriosa, porque se mostra aprisionada, atrelada ao discurso da direita.
Esse discurso perde ainda mais força quando confrontado com a potência de outros filmes, talvez menos famosos ou de menor circulação (filmes de distribuição mais restrita), que ousam olhar não apenas para um lado ou um aspecto da história, mas para feridas mais profundas de um país que, seja em suas múltiplas mazelas socioeconômicas ou em seus mais antigos e enraizados preconceitos estruturais, espelha e alimenta a insuficiência moral de nossas figuras e instituições políticas. São filmes que, desviando o foco do picadeiro do circo sem graça da política, investigam e expõem outras fontes possíveis, formadas debaixo de nosso nariz desde 1500, e apontam para o caos que, agora, nos assola.
Em Espero Tua (Re)Volta, Eliza Capai prefere se afastar desse registro dos bastidores e dos rituais institucionais adotado tanto por O Processo quanto por Democracia em Vertigem para voltar no tempo, votar às ruas, às manifestações, até o marco das marchas de julho de 2013. Ao invés de eleger um único lado, um só discurso ou um ponto de vista unilateral, Capai prefere permitir que seu filme se entregue à multiplicidade conflitante e complementar de seus três protagonistas, jovens secundaristas com visões políticas divergentes. Esse contraste potencializa o discurso do filme, pois o multiplica, lhe confere facetas múltiplas, plurais, complexas. É essa contradição entre a posição política de seus protagonistas que abrirá as cortinas e revelará o espetáculo tosco do fascismo meticulosamente planejado do governo de São Paulo, berço das manifestações daquele ano.
Espero Tua (Re)Volta, de Eliza Capai
É à partir disso, dessa dinâmica entre as personagens, que tudo se potencializa e cada cena adquire a urgência de uma manifestação política. Um encontro de movimentos estudantis, a organização de um almoço coletivo em uma escola ocupada ou uma conversa entre dois jovens negros numa calçada (onde ao fundo uma abordagem policial inapropriada literalmente reconfigura e atualiza a cena) se transformam em verdadeiras declarações, revoltadas e urgentes, a respeito da insuficiência do atual sistema político. E uma bomba explodindo se faz leitmotif do discurso. Quantas merendas poderiam ter sido compradas com o dinheiro gasto com uma única bomba de gás lançada contra estudantes secundaristas em manifestação? A pergunta ainda ecoa quando o filme acaba.
Auto de Resistência, de Natasha Neri e Lula Carvalho, também parece querer registrar o ritual de uma instituição, mas para isso não se atém somente às paredes, rostos e vozes do rito jurídico e se aprofunda no sofrimento das famílias envolvidas nos processos que o filme acompanha, vítimas dos chamados “autos de resistência” que serviram para justificar atos criminosos de uma polícia assassina e racista, treinada para matar primeiro e perguntar depois.
Auto de Resistência, de Natasha Neri e Lula Carvalho
Auto de Resistência é um dedo na ferida aberta da falida política do Rio de Janeiro, que tem a polícia militar como a ponta de uma caneta cuja tinta é o sangue de corpos negros das periferias cariocas, uma caneta manipulada pelas mãos de governos descaradamente fascistas capazes, por exemplo, de comemorar a morte como quem comemora um gol, com o agravante de transformar o gesto em um espetáculo grotesco e televisionado.
Em Martírio, de Vincent Carelli, a investigação é ainda mais profunda, remonta de tempos muito antigos e nos faz ver, ainda aberta, uma ferida ancestral, cuja observação se faz fundamental para compreender nossas origens enquanto povo.
A interminável guerra entre latifundiários e tribos indígenas é observada por câmeras que parecem muito interessadas nos corpos dos índios, em sua postura diante das ameaças do avanço do homem branco, no modo como respeitam a terra e sobrevivem dela; câmeras que se aproximam de rostos a fim de capturar suas expressões mais minuciosas.
Por outro lado, Martírio filma as instituições políticas (inegáveis agentes do interminável massacre indígena no Brasil), a uma distância segura, como se desconfiasse, ao lado dos índios, das intenções daquelas figuras políticas. As ligações que o documentário faz, através da montagem, entre latifundiários e figuras políticas é muito evidente e ressoa o que está anunciado desde os planos iniciais: não é possível ser isento e, neste caso, o único lado humanamente possível para se estar é ao lado de quem sofre, na pele, as consequências da ganância infinita de um sistema falido.
Uma sessão dupla de Martírio e Ex-Pajé (Luiz Bolognesi) comporia uma apavorante porém necessária aula sobre o poder destruidor da ganância humana, capaz de promover o apagamento de toda uma história e cultura, fundadoras do próprio povo que, a cada dia mais, esquece suas origens.
Por fim, um clássico do documentário brasileiro como Cabra Marcado Pra Morrer, de Eduardo Coutinho, parece gritar do passado, não como um artefato ou uma relíquia cinematográfica, mas como uma obra viva e pulsante que ainda tem muito a dizer. Revisitar um projeto inacabado, reconfigurando-o, transformou um filme sobre um camponês assassinado por latifundiários em um verdadeiro flagrante histórico, tanto pelo fato de ter as filmagens interrompidas por uma perseguição promovida pela ditadura, quanto pela maneira como Coutinho volta ao filme interrompido, 17 anos depois, buscando sobreviventes daquela época e acaba por encontrar a figura icônica de Elizabeth Teixeira. É dos eventos cinematográficos mais poderosos e politicamente relevantes de nossa história. É a prova em forma de filme da devastação incalculável causada pela Ditadura, mas é também a imagem emblemática de um povo que, acima de tudo, resistiu e sobreviveu.
Apesar dessa força deflagradora de Cabra Marcado e do Cinema Brasileiro, os fantasmas do Golpe Militar nos perseguiram até aqui. Forjaram suas sombras nos mais tenebrosos porões da política institucional e, agora, recobraram suas forças e esnobam o projeto identitário do brasileiro ao ponto de, com uma canetada, tentar extinguir a cultura, ignorar a arte, destruir o cinema, rebaixar tudo isso a um status que, na verdade, caberia unicamente a eles.
Talvez, portanto, ainda seja necessário revisitar Elizabeth Teixeira e sua luta silenciosa, ou observar secundaristas e ocupar as escolas com eles, ou chorar ao lado das mães da periferia e caminhar com elas, não esquecer e manter viva a memória dos nossos povos originários. Se um dia já não houver mais força para lutar e resistir em nossos corpos cansados, que reste, apesar de tudo, a potência inegável de nossa cultura, de nossa história, de nossa arte, de nosso Cinema.
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