Rebecca Lenkiewicz (1968), que inaugurou sua carreira como roteirista há mais de uma década, fez de seu nome referência a partir de histórias densas, onde a inconformidade e a rebeldia feminina são o motivador das tramas que desenvolveu. Em filmes como Desobediência (2017, em colaboração com o diretor Sebastián Lelio), Ela Disse (2022, com direção de Maria Schrader) e Ida (2013, vencedor do Oscar em parceria com Paweł Pawlikowski), Lenkiewicz apresenta personagens complexas que batem de frente com o senso comum através do arquétipo anti-heróico, trazendo consigo um certo mistério e um descontentamento com a realidade na qual estão inseridas. Hot Milk faz sentido para a estréia de Rebecca na direção, uma adaptação do romance de Deborah Levy – outra autora cujas obras são frequentemente movidas por essa mesma insatisfação feminina latente, onde as personagens que formam o arco principal da trama são, em suas particularidades, complexas e bastante densas.

Enquanto roteiros anteriores de Lenkiewicz retratam mulheres em contextos claustrofóbicos, como uma comunidade judaica ortodoxa (Disobedience) ou a Polônia comunista (Ida), Hot Milk aborda a fórmula de forma bem mais sombria. O filme desmembra a realidade complexa de três mulheres que vivem em prisões emocionais profundas e extremamente pessoais. Sofia (Emma Mackey), por ter que viver em função da mãe codependente Rose (Fiona Shaw), que busca incessantemente a cura para sua paralisia – aqui a prisão é mental e transcende para o campo físico – e Ingrid (Vicky Krieps), que vive presa à fuga de uma fatalidade que deveria residir apenas em seu passado. Sofia viaja com sua mãe para uma cidade decadente do litoral espanhol, onde Rose vê sua última esperança de cura para dores crônicas que a debilitam e a fazem dependente da filha.

Rose, então, se submete a tratamentos caros com o Dr. Gomez (Vincent Perez), um curandeiro alternativo e misterioso, que atende em uma clínica no meio do nada entre paredes de vidro. Enquanto Rose está em atendimento, Sofia sai para caminhar pelas praias de pedra, nadar em um mar infestado de águas-vivas e explorar um pouco a região até que conhece, por acaso, Ingrid, uma costureira de espírito livre. Ingrid desperta o desejo de uma vida desprendida que está reprimido em Sofia e com o qual ela não se satisfaz, já que conflitos entre elas expressam muito sua necessidade de se ancorar emocionalmente a outros para além do desejo sexual ou admiração. Sofia e Ingrid, então, iniciam um romance que logo engatilha no espectador o alerta de que a liberdade de Ingrid é, na verdade, a fuga de um contexto familiar bastante complexo e sombrio. À medida em que o relacionamento das duas se intensifica, percebemos que elas não são opostas em sua realidade, mas tem muito mais em comum do que a superfície demonstra.

Adaptações literárias para o cinema são sempre terreno complexo. Metáforas, simbolismos, alusões mitológicas e maneirismos introspectivos trazem uma atmosfera densa que é bastante relevante para a narrativa de Levy, mas que deixam a desejar por não transmitirem as sensações que as entrelinhas presentes na obra original causam no espectador. Lenkiewicz demonstra com bastante dificuldade o conflito interno que Sofia sofre, trazendo para a personagem de Mackey um desenvolvimento lento, contido, e visualmente fraco – o que contrasta muito com a realidade da obra original. O que sobra para Emma é passar a maior parte de seu desenvolvimento caminhando de forma insatisfeita pela praia – imensidão que contrasta com o ambiente claustrofóbico demonstrado pela relação com sua mãe: uma casa escura e melancólica. Quando a personagem chega em seu limite, os rompantes resultantes de sua revolta perdem o sentido narrativo, pois são desconexos do restante apresentado na história, o que faz com que percam o verdadeiro peso que possuem para a narrativa original.

A personagem de Krieps também sofre com o desenvolvimento arrastado, ao mesmo tempo flertando com o clichê hollywoodiano da “manic pixie dream girl”, entre passeios a cavalo, lenços na cabeça e uma sensualidade desproporcional ao contexto no qual a personagem é, fracamente, apresentada.

A personagem de Fiona Shaw se sobressai à Sofia – que deveria ser o centro da narrativa – apresentando humor ácido, ofensas deliberadas e uma autopiedade que beira a psicopatia. Em determinado momento da trama, a personagem se torna cansativa por seu comportamento repetitivo – o que talvez tenha sido proposital, mas que não acrescenta muito e deixa o espectador frustrado pela espera de um estopim que não chega.

O filme nos deixa em uma constante espera por algo que não entrega: não possui um ápice narrativo, um plot surpreendente ou um clímax que gira a história para o arco final que, mesmo aberto, deveria ter sido entregue com o peso que realmente merecia. No fim, o filme passa a sensação de estar incompleto – assim como o desenvolvimento de Sofia e Ingrid, que tinham potencial narrativo imenso, mas que foram explorados pela metade.

Musicista formada pela UFES e ex aluna do mestrado em produção e tecnolgoias do som (ULHT-LISBOA), atua como sound designer, professora e é especializada em Arte e Tecnologia e Produção Musical.
