Categorias
Críticas

Procurando Emily

A cultura popular tem ensaiado uma retumbante volta das comédias românticas já há alguns anos. É tão ensaiado que talvez não passe disso, uma empolgação coletiva e uma certa nostalgia do que já foi esse gênero até os anos 2000. Acredito haver pessoas mais academicamente habilitadas do que eu estudando e pesquisando o motivo da recaída dos filmes de comédia romântica com a entrada da década de 2010, mas eu chutaria como um dos motivos a ascensão dos filmes de super-heróis e dos grandes blockbusters de franquias, tomando conta das salas de cinema, tirando espaço de qualquer outro tipo de obra, o que pode ter transformado a mente do espectador com uma pergunta: “Eu vou realmente pagar para ver esse filme que não tem centenas de efeitos especiais e que está justificando o valor do meu ingresso?”. Isso, combinado com a constante elevação de preços de entradas, principalmente em países em desenvolvimento (o que nos coloca no centro dessa questão), resulta em uma completa tomada não natural da atenção das pessoas.

Se essa tomada não aparenta ser tão natural assim, o desinteresse pelos blockbusters superfaturados que cresceu nos anos recentes é. O que possibilitou as apostas nas comédias românticas novamente. Podres de Ricos (2018), Que Horas Eu Te Pego? (2023) e Todos Menos Você (2023) são alguns dos exemplos que despontaram dessa nova onda. Todos Menos Você ainda apresenta um bastidor interessante que mostra a força do gênero: os investidores queriam que o filme fosse lançado apenas em streaming, que era onde consideravam ser o lugar de uma comédia romântica barata; mas os produtores insistiram com o lançamento nos cinemas, o que resultou em um sucesso comercial e um burburinho popular fortíssimo para o filme.

No meio desse contexto, surge Procurando Emily. Uma comédia romântica dirigida por Alicia MacDonald que, ainda bem, não aposta simplesmente no fato de que há um público faminto por esse tipo de história, mas sim na confiança de que seus personagens, construídos com cuidado, vão fisgar a emoção de quem os assiste.

Owen (Spike Fearn) é um rapaz da classe trabalhadora britânica que, ao invés de estar estudando na universidade, está trabalhando para ela como técnico de som. Em uma festa em que Owen cuida dos equipamentos sonoros, ele conhece uma garota chamada Emily. Eles conversam, dançam, quase se beijam, mas Emily precisa ir embora às pressas. Sem conseguir encontrá-la no dia seguinte, Owen busca por todas as Emilys que existem na universidade e acaba recebendo ajuda de uma Emily que não é a sua, Emily Raine, interpretada por Angourie Rice, estudante de psicologia que vê no rapaz a chance de provar uma tese em que trabalha sobre o conceito de “amor”, e passa a ajudá-lo a encontrar a “Emily correta”.

Há no filme uma ideia que conduz a encenação, que só se faz concreta com o passar do segundo ato: na busca da “Emily correta” e na falta de detalhes sobre quem e como ela é, Owen encontra e descobre os detalhes que fazem de Emily Raine uma pessoa fascinante; e, na outra via, na pesquisa para provar sua tese de que o amor enlouquece as pessoas, Emily Raine vê um Owen cheio de pequenas características que o fazem ser um cara por quem ela se apaixonaria. Portanto, o filme tem seu foco nas buscas de cada um deles, procurando, no meio disso, expor seus sentimentos e pormenores um para o outro, e para nós, consequentemente.

Se a paixão de Owen pela “Emily correta” é instantânea e avassaladora, sua amizade com Emily Raine é difícil e demorada. É como num bom filme de ação em que o desafio final precisa ser construído e complicado. Para nós, como espectadores, esse duro caminho constrói raízes profundas nos sentimentos que nutrimos pelo filme. Sem perceber, os dois protagonistas se tornam essenciais um para o outro.

Procurando Emily também preenche, para mim, uma lacuna que foi deixada pelo seriado Sex Education. Esse humor da Geração Z (e que também faz parte dos Millennials), que sabe usar o “politicamente correto”, o “woke”, não como piada sobre si, mas como um combustível para as ações dos personagens, um retrato de sua verdadeira face, e que naturalmente resulta em situações engraçadas e absurdas. Quando Emily Raine faz com que Owen mande um e-mail para todas as Emilys da universidade, o grupo formado por essas Emilys se junta tanto para rir da situação quanto para questionar a atitude de Owen. Esse fio de história escala em protestos, entrevistas, matérias e uma repercussão massiva nas redes sociais. Pessoas apoiam Owen ao mesmo tempo que o criticam, acham o máximo a música que ele canta para a “Emily correta” ao mesmo tempo em que desconfiam que ele seja um predador sexual. Nós, como observadores do narrador em terceira pessoa do filme, sabemos do que eles não sabem e achamos engraçado o grande encontro de Emilys e toda a confusão que uma simples paixão aguda criou.

Tanto Procurando Emily quanto Sex Education mostram como é possível os Millennials e a Geração Z fazerem humor sem vergonha de mostrar quem são, apostando na sua verdade ao invés de ter vergonha dela. Apontando as questões sociais e de gênero com as quais eles (nós) se preocupam e sabendo rir de certas situações e de suas próprias problemáticas, confiando que, mesmo assim, há valor e essência nelas.

Emily Raine e Owen representam, para mim, o que há de melhor em construção de personagens (e, obviamente, que há exemplos atuais muito sólidos fora da comédia romântica). Se a personagem de Julie Delpy em Antes do Pôr do Sol diz que cada um de nós somos feitos de microscópicos detalhes, os filmes mais interessantes mostram que isso é a mais pura verdade, tanto na realidade quanto em seu espelho, a ficção. Uma vez que a encenação de Procurando Emily está ancorada numa busca de detalhes que estão diante dos olhos dos dois personagens, os pequenos pedaços que os fazem únicos nos são mostrados de maneira natural, sendo explicitados apenas no final por uma convenção roteirística normal do gênero. Mas, enquanto são naturais à mise-en-scène, constroem duas pessoas muito sinceras às suas próprias confusões, o que as faz humanas ao extremo, mostrando a ótima qualidade do roteiro. E, claro, os dois atores, Spike Fearn e Angourie Rice, são os responsáveis por nos traduzir isso enquanto atuação. Terminei o filme lembrando de muitos desses detalhes da personalidade dos dois e querendo imediatamente já revê-los de algum jeito.

Procurando Emily continua a nova onda das comédias românticas, enquanto um gênero constante, sem realmente se preocupar com toda essa questão. Sua preocupação é com seus personagens e em como eles vão gerar a história apresentada. A diretora Alicia MacDonald parece focada em encontrá-los em cada plano e os abrir para nós, tão focada quanto Owen em encontrar, no fim das contas, a “Emily errada”. Nós sabemos que a solução para ambos os protagonistas está diante deles, e esse suspense conduz a qualidade do filme. É como um Hitchcock, mas nem Owen nem Emily precisam provar sua inocência diante de uma conspiração macabra. Eles precisam, na verdade, enxergar seus microscópicos detalhes um no outro.

Categorias
Vol. 03 - Nº 05 - 2022

A Diarista: humor fora dos padrões?

Quem viveu no Brasil nos anos 2000 com certeza se lembra do marco da televisão nessa época. Sem smartphones e com baixo entretenimento digital, os anos 2000 proporcionaram produções audiovisuais que ditaram moda e pautaram os assuntos discutidos na época, bem como a vestimenta das pessoas e seus gostos.

Uma dessas produções foi a clássica série A Diarista, que reverbera até hoje no gosto popular e gera debates acerca de estética, comportamento e do teor humorístico aceito na época, que deu o tom e o contexto daquela produção.

Escrita por Gloria Perez, Maria Mariana, Bruno Mazzeo e Aloísio de Abreu, A Diarista conta a história de uma diarista do Rio de Janeiro que vive histórias para lá de engraçadas. A ideia é ilustrar, de maneira exagerada, situações do dia a dia que os brasileiros vivenciavam no trabalho, no transporte público e até em seus locais de diversão.

Protagonizada por Cláudia Rodrigues, que vivia Marinete, A Diarista teve sua primeira exibição no ano de 2004 e última em 2007 e possui 4 temporadas, que começavam a ser exibidas no início de cada ano e finalizadas, no fim deles.

Entre os ingredientes daquela obra, os amigos de Marinete:

Solineuza (Dira Paes), a “Poia”, apelido dado por Marinete, pois ela era a personagem ‘burra’; Seu Figueirinha (Serjão Loroza), o chefe mesquinho de Marinete, constantemente hostilizado por seu corpo gordo e sua cor; Dalila (Cláudia Mello), a amiga macumbeira de Marinete, constantemente hostilizada por sua mediunidade/simpatias; Ipanema (Helena Fernandes), a amiga fora dos padrões femininos, constantemente hostilizada por tal.

Todos esses ingredientes eram misturados a um outro: a elite carioca daquele tempo, os patrões de Marinete, que a rebaixavam por ser pobre e diarista.

Todas as representações de seres humanos fora dos padrões de comportamento e aparência da sociedade eram servidas ao público como ‘humor’. Nos tempos de hoje, A Diarista seria hostilizada por grande parte do público justamente por esse feito. Um dos grandes problemas da série é que, pelo teor humorístico com minorias, constantemente eram apresentadas cenas de black face, prática já fortemente rechaçada hoje em dia.

FOTO: Episódio 14 da 2ª Temporada

A série parecia suportar apenas pessoas que seguem os padrões da sociedade e ignorar alguns participantes dela, como homossexuais, que possuíam pequenas participações em alguns episódios e, quando apareciam, era sempre de modo caricato, com empregos que reforçavam estereótipos – como o cabelereiro afeminado, por exemplo.

A espiritualidade na série está fortemente ligada à religião cristã, já que todo e qualquer personagem que pense diferente dessa ideologia, é criticado, como Dalila por exemplo (personagem cuja fé estava ligada a uma religião de matriz africana).

Além disso, Marinete vivia reclamando de seu cabelo, alegando ser “ruim”, o chamando de “bombril” um cabelo crespo. Serjão Loroza, que vivia Figueirinha, possuía um papel bem peculiar. Além de mesquinho, ele ironizava o fato de ser um ‘negão’ e acima do peso. Apesar do corpo fora dos padrões, Seu Figueirinha era um personagem hiper sexualizado, que reforçava estereótipos de promiscuidade de pessoas pretas, sobretudo com frases como: “não aguenta o negão”, “o do negão é maior” etc.

Figueirinha também reforçava estereótipos sobre o corpo gordo, já que constantemente aparecia comendo banquetes e mais banquetes, como se o corpo gordo só fosse assim por conta de algum descontrole alimentar. Tal comportamento se repetia em Dalila, que também era gorda.

A Diarista, assim como grande parte das produções dos anos 2000, não ligava para o politicamente correto e investia pesado naquele famoso humor clichê, com “piadas de gordo”, “piadas de loira” e “piadas de macumbeiro”, não respeitando religiões de origem não cristã, tampouco o corpo e ou a sexualidade das pessoas.

Sobre o ambiente de diversão em que viviam as personagens, era o mais insalubre possível quando se tratava de Marinete e suas amigas, justamente para gerar a impressão de que pessoas pobres não possuem acesso a locais de qualidade, reservados apenas para a elite carioca, ou seja, gente como os patrões de Marinete, que sempre apareciam em locais mais sofisticados, enquanto a pobre diarista ocupava, constantemente, os botequins malcuidados da cidade.

O reforço desses estereótipos fazia um belo desserviço para a população consumidora daquele sucesso. Isso porque a Rede Globo, quando os inseria com naturalidade na produção, também gerava certa naturalidade no dia a dia. Ou seja, se as pessoas já riam disso, possivelmente passariam a reproduzir tais preconceitos contra gordos, pessoas pretas, homossexuais, pobres e de religiões com vieses diferentes dos cristãos.

O machismo também era algo bastante presente, já que as mulheres sempre eram objetificadas pelos próprios personagens, como Seu Figueirinha. Um dos episódios que mais deixa explícito (S02E17), foi um em que Ipanema participou de um ensaio fotográfico para ganhar um dinheiro extra e foi perseguida por dias, por vários homens com comportamentos primitivos.

Além de ser perseguida, Ipanema recebeu o desprezo de suas amigas, ao invés de apoio, pois ela teria tecnicamente “roubado” todos os homens só para ela. Um comportamento bizarro que tecia, ali, um comentário certeiro a respeito da união entre os homens e a ideia de “rivalidade feminina”.

Vale ressaltar que, naquele mesmo episódio, assim que outra mulher posou para o calendário, no mês seguinte, Ipanema foi esquecida e deixada de lado, como um brinquedo que ninguém quer mais brincar e larga numa gaveta do armário.

Vimos mais um exemplo de objetificação da mulher e de LGBTfobia no episódio 14 da 1ª temporada, onde Marinete atende uma patroa que quer evitar seu ex-namorado. Para despistá-lo, esta inventa que Marinete era sua nova namorada.

Durante todo o episódio, várias ofensas à comunidade LGBT eram proferidas com o intuito de gerar humor. A própria justificativa da patroa era estapafúrdia: criar um relacionamento homossexual mentiroso apenas para despistar o boy? Como diria Isabela Boscov: “Ah, tenha santa paciência!”

Como pode ser observado, são vários os problemas na obra da Rede Globo, mas deve-se ponderar o contexto em que ela foi exibida. A sociedade agia dessa forma, talvez até mais do que atualmente, e A Diarista apenas reproduzia, de maneira exagerada e caricata, os comportamentos, ao mesmo tempo que os reforçava.

Apesar dos movimentos a favor de cada minoria citada já existirem na época, não tinham tanta força quanto nos dias de hoje. Com a democratização do acesso à internet, a informação tomou conta de vários espaços onde a ignorância imperava, fazendo com que o audiovisual se moldasse aos novos costumes da sociedade.

É possível que A Diarista tenha sido uma excelente série nos anos em que foi exibida, mas hoje, com certeza, seria um desserviço para a televisão brasileira pela carga preconceituosa que carregava.

Sem dúvidas, um marco de altíssima qualidade, mas perigoso para os dias atuais, já que objetificava o corpo e reduzia as espiritualidades não cristãs a mera chacota social.