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Três Graças: o Brasil cabe no folhetim

A novela Três Graças estreou com a responsabilidade de devolver ao horário nobre da Globo uma novela popular, melodramática, social e profundamente brasileira. Escrita por Aguinaldo Silva e com direção artística de Luiz Henrique Rios, a trama misturou drama familiar, vilania escancarada, injustiça social, romance e humor, questionando o que alguém pode fazer quando a vida insiste em lhe negar dignidade.

A novela acompanha Gerluce Maria das Graças, vivida por Sophie Charlotte, que mora na comunidade fictícia da Chacrinha, em São Paulo, com a mãe Lígia (Dira Paes) e a filha Joélly (Alana Cabral). O trio de mulheres enfrenta maternidade solo, sonhos interrompidos e a sobrevivência diária em um país que exige heroísmo para quem vive na periferia.

Joélly Maria das Graças (Alana Cabral), Gerluce Maria das Graças (Sophie Charlotte) e Lygia Maria das Graças (Dira Paes) | Reprodução: Gshow.

Brasilidade em cena

A brasilidade da obra está nos ônibus lotados, na farmácia popular, na mãe que trabalha distante, na filha adolescente que enfrenta gravidez precoce, na patroa que humilha, no político que posa de benfeitor e no pobre que precisa provar sua honestidade constantemente. A narrativa mostra a distância entre periferia e bairro nobre, a informalidade das relações e a fé teimosa de que dias melhores podem chegar.

A “elite” brasileira aparece por meio de Arminda (Grazi Massafera) e Santiago Ferette (Murilo Benício). Ferette se apresenta como filantropo, mas oculta um esquema criminoso envolvendo medicamentos e verbas públicas. A novela evidencia que o mal se apresenta com aparência de respeito, filantropia e boas intenções.

Reprodução: Globo/Manoella Mello

Favela e potência humana

A Chacrinha funciona como território dramático essencial, com conflito, afeto, violência, solidariedade e disputa simbólica. A novela tenta dar dignidade às mulheres da família das Graças, mostrando desejo, contradição, raiva, cansaço e esperança. Ao mesmo tempo, a comunidade enfrenta tráfico, gravidez precoce, ausência paterna e precariedade, elementos reais que podem reforçar estereótipos quando repetidos no audiovisual.

A escultura e a “elite”

O símbolo de As Três Graças, obra neoclássica de Antonio Canova (na novela do escultor fictício Giovane Aranha), usada para esconder dinheiro, reforça a crítica à elite. A riqueza não se limita a casarões ou roupas, está no controle social que torna a maldade respeitável. Ferette e Arminda dominam códigos sociais que justificam crimes e protegem sua imagem.

Foto: Antonio Jara

Representatividade e novos caminhos

O casal Lorena e Juquinha (Alanis Guillen e Gabriela Medvedovsky) recebeu atenção especial, gerando a novela vertical Loquinha. A obra dá visibilidade a personagens LGBTQIA+, mostrando vida própria, torcida e expansão narrativa. A produção também dialoga com outras telas, estendendo a narrativa da novela das nove para Globoplay, TikTok e X.

Reprodução: TV Globo

Melodrama e exagero

Três Graças abraça melodrama, vilões fortes, romance, segredo, reviravolta, casamento e punição simbólica. O casamento de Gerluce e Paulinho ilustra a necessidade da protagonista enfrentar vilões, proteger a família e provar merecimento antes da felicidade. O exagero reforça a intensidade dramática e a complexidade de suas personagens.

A novela teve tropeços, como clichês sobre pobreza, periferia e maternidade, mas conseguiu transformar elementos comuns em comentário social. O saldo é positivo, mostrando que a novela brasileira ainda sabe se ver e provocar emoção, indignação e identificação.

Três Graças é profundamente brasileira por seu imaginário, história e estética. Trata de mães, filhas, ônibus, remédios, patrões, corrupção, favela, fé e vingança. Um folhetim popular, com força simbólica, alguns tropeços e importância para o audiovisual nacional.

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Vol. 03 - Nº 05 - 2022

A Diarista: humor fora dos padrões?

Quem viveu no Brasil nos anos 2000 com certeza se lembra do marco da televisão nessa época. Sem smartphones e com baixo entretenimento digital, os anos 2000 proporcionaram produções audiovisuais que ditaram moda e pautaram os assuntos discutidos na época, bem como a vestimenta das pessoas e seus gostos.

Uma dessas produções foi a clássica série A Diarista, que reverbera até hoje no gosto popular e gera debates acerca de estética, comportamento e do teor humorístico aceito na época, que deu o tom e o contexto daquela produção.

Escrita por Gloria Perez, Maria Mariana, Bruno Mazzeo e Aloísio de Abreu, A Diarista conta a história de uma diarista do Rio de Janeiro que vive histórias para lá de engraçadas. A ideia é ilustrar, de maneira exagerada, situações do dia a dia que os brasileiros vivenciavam no trabalho, no transporte público e até em seus locais de diversão.

Protagonizada por Cláudia Rodrigues, que vivia Marinete, A Diarista teve sua primeira exibição no ano de 2004 e última em 2007 e possui 4 temporadas, que começavam a ser exibidas no início de cada ano e finalizadas, no fim deles.

Entre os ingredientes daquela obra, os amigos de Marinete:

Solineuza (Dira Paes), a “Poia”, apelido dado por Marinete, pois ela era a personagem ‘burra’; Seu Figueirinha (Serjão Loroza), o chefe mesquinho de Marinete, constantemente hostilizado por seu corpo gordo e sua cor; Dalila (Cláudia Mello), a amiga macumbeira de Marinete, constantemente hostilizada por sua mediunidade/simpatias; Ipanema (Helena Fernandes), a amiga fora dos padrões femininos, constantemente hostilizada por tal.

Todos esses ingredientes eram misturados a um outro: a elite carioca daquele tempo, os patrões de Marinete, que a rebaixavam por ser pobre e diarista.

Todas as representações de seres humanos fora dos padrões de comportamento e aparência da sociedade eram servidas ao público como ‘humor’. Nos tempos de hoje, A Diarista seria hostilizada por grande parte do público justamente por esse feito. Um dos grandes problemas da série é que, pelo teor humorístico com minorias, constantemente eram apresentadas cenas de black face, prática já fortemente rechaçada hoje em dia.

FOTO: Episódio 14 da 2ª Temporada

A série parecia suportar apenas pessoas que seguem os padrões da sociedade e ignorar alguns participantes dela, como homossexuais, que possuíam pequenas participações em alguns episódios e, quando apareciam, era sempre de modo caricato, com empregos que reforçavam estereótipos – como o cabelereiro afeminado, por exemplo.

A espiritualidade na série está fortemente ligada à religião cristã, já que todo e qualquer personagem que pense diferente dessa ideologia, é criticado, como Dalila por exemplo (personagem cuja fé estava ligada a uma religião de matriz africana).

Além disso, Marinete vivia reclamando de seu cabelo, alegando ser “ruim”, o chamando de “bombril” um cabelo crespo. Serjão Loroza, que vivia Figueirinha, possuía um papel bem peculiar. Além de mesquinho, ele ironizava o fato de ser um ‘negão’ e acima do peso. Apesar do corpo fora dos padrões, Seu Figueirinha era um personagem hiper sexualizado, que reforçava estereótipos de promiscuidade de pessoas pretas, sobretudo com frases como: “não aguenta o negão”, “o do negão é maior” etc.

Figueirinha também reforçava estereótipos sobre o corpo gordo, já que constantemente aparecia comendo banquetes e mais banquetes, como se o corpo gordo só fosse assim por conta de algum descontrole alimentar. Tal comportamento se repetia em Dalila, que também era gorda.

A Diarista, assim como grande parte das produções dos anos 2000, não ligava para o politicamente correto e investia pesado naquele famoso humor clichê, com “piadas de gordo”, “piadas de loira” e “piadas de macumbeiro”, não respeitando religiões de origem não cristã, tampouco o corpo e ou a sexualidade das pessoas.

Sobre o ambiente de diversão em que viviam as personagens, era o mais insalubre possível quando se tratava de Marinete e suas amigas, justamente para gerar a impressão de que pessoas pobres não possuem acesso a locais de qualidade, reservados apenas para a elite carioca, ou seja, gente como os patrões de Marinete, que sempre apareciam em locais mais sofisticados, enquanto a pobre diarista ocupava, constantemente, os botequins malcuidados da cidade.

O reforço desses estereótipos fazia um belo desserviço para a população consumidora daquele sucesso. Isso porque a Rede Globo, quando os inseria com naturalidade na produção, também gerava certa naturalidade no dia a dia. Ou seja, se as pessoas já riam disso, possivelmente passariam a reproduzir tais preconceitos contra gordos, pessoas pretas, homossexuais, pobres e de religiões com vieses diferentes dos cristãos.

O machismo também era algo bastante presente, já que as mulheres sempre eram objetificadas pelos próprios personagens, como Seu Figueirinha. Um dos episódios que mais deixa explícito (S02E17), foi um em que Ipanema participou de um ensaio fotográfico para ganhar um dinheiro extra e foi perseguida por dias, por vários homens com comportamentos primitivos.

Além de ser perseguida, Ipanema recebeu o desprezo de suas amigas, ao invés de apoio, pois ela teria tecnicamente “roubado” todos os homens só para ela. Um comportamento bizarro que tecia, ali, um comentário certeiro a respeito da união entre os homens e a ideia de “rivalidade feminina”.

Vale ressaltar que, naquele mesmo episódio, assim que outra mulher posou para o calendário, no mês seguinte, Ipanema foi esquecida e deixada de lado, como um brinquedo que ninguém quer mais brincar e larga numa gaveta do armário.

Vimos mais um exemplo de objetificação da mulher e de LGBTfobia no episódio 14 da 1ª temporada, onde Marinete atende uma patroa que quer evitar seu ex-namorado. Para despistá-lo, esta inventa que Marinete era sua nova namorada.

Durante todo o episódio, várias ofensas à comunidade LGBT eram proferidas com o intuito de gerar humor. A própria justificativa da patroa era estapafúrdia: criar um relacionamento homossexual mentiroso apenas para despistar o boy? Como diria Isabela Boscov: “Ah, tenha santa paciência!”

Como pode ser observado, são vários os problemas na obra da Rede Globo, mas deve-se ponderar o contexto em que ela foi exibida. A sociedade agia dessa forma, talvez até mais do que atualmente, e A Diarista apenas reproduzia, de maneira exagerada e caricata, os comportamentos, ao mesmo tempo que os reforçava.

Apesar dos movimentos a favor de cada minoria citada já existirem na época, não tinham tanta força quanto nos dias de hoje. Com a democratização do acesso à internet, a informação tomou conta de vários espaços onde a ignorância imperava, fazendo com que o audiovisual se moldasse aos novos costumes da sociedade.

É possível que A Diarista tenha sido uma excelente série nos anos em que foi exibida, mas hoje, com certeza, seria um desserviço para a televisão brasileira pela carga preconceituosa que carregava.

Sem dúvidas, um marco de altíssima qualidade, mas perigoso para os dias atuais, já que objetificava o corpo e reduzia as espiritualidades não cristãs a mera chacota social.