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Crônicas e Ensaios

Uma Questão de Fé

para Pietro Guilherme Martiniano

O Agente Secreto (Kleber Mendonça Filho, 2025)

Estávamos no fim de semana do primeiro turno quando ele me perguntou, de repente: “votar pra que?”. Pietro tem 15 anos, bem perto de poder, se quiser, exercer seus direitos eleitorais. Na resposta, recorri à importância da democracia, à possibilidade de transformação social e à necessidade de escolher bons representantes. Com os olhos ainda vagos, um tanto descrentes, o menino retrucou com uma questão incontornável: “mas como é que eu vou saber se as promessas desse ou daquele político serão cumpridas?”

A dúvida toca justamente em um dos problemas centrais da representação política: o abismo entre as nossas escolhas e seus resultados práticos. Obviamente, o número que apertamos nas urnas se fundamenta (ou deveria se fundamentar) em informações concretas, históricos dos candidatos, experiências administrativas anteriores, afinidades ideológicas e expectativas que, mesmo quando razoáveis, não eliminam a possibilidade de incerteza.

Nesse sentido, a política é, em muitos aspectos, uma questão de fé. Mas é preciso elucidar, sem romantismo, que esse gesto, o que se manifesta na urna, não pode ser ingênuo, vago ou irresponsável. É preciso imaginar, com alguma convicção, que há um caminho trilhável nessa floresta sombria. Fé.

A religião constitui um importante espaço de sociabilidade e elaboração de valores morais, mas também pode funcionar como instrumento de legitimação política. Quando lideranças religiosas associam determinadas candidaturas à vontade divina, deslocam o debate do terreno das propostas e das responsabilidades públicas para o de uma “autoridade espiritual”. Algo semelhante ocorre com a desinformação, e aqui talvez esteja escondida uma peça fundamental da engrenagem daquilo que se tornaram as eleições dos últimos anos: ao mobilizar medos, ressentimentos e convicções preexistentes, notícias falsas podem adquirir credibilidade não pela consistência de seus argumentos, mas pela compatibilidade com aquilo que determinados grupos já desejam acreditar.

Isso não significa que a participação política possa prescindir de convicções ou que toda escolha eleitoral deva obedecer a uma racionalidade estritamente técnica. Significa reconhecer que nossas percepções são formadas socialmente e que os caminhos pelos quais chegamos a determinado raciocínio importam tanto quanto as conclusões em si. Investigar a trajetória política de um candidato, confrontar declarações com fatos e fontes públicas e oficiais, e conhecer os interesses envolvidos em seu projeto não nos oferece garantias, mas permite compreender melhor o objeto de nossa confiança.

Proponho, então, uma fórmula simples. Se é necessário escolher um caminho nas sombras, por que não iluminar os trajetos que nos trouxeram até aqui? Explico com informações de duas áreas que são do meu interesse, e cujas fontes estarão disponíveis ao final do texto.

CINEMA

Marighella (Wagner Moura, 2021)

Durante o governo Jair Bolsonaro (2019–2022), o Cinema Brasileiro enfrentou um processo de desarticulação das políticas públicas de fomento, marcado pelo enfraquecimento institucional da área cultural, pela instabilidade na gestão da Agência Nacional do Cinema (Ancine) e pela redução dos recursos disponíveis: em 2019, a proposta orçamentária para 2020 previa um corte de aproximadamente 43% no Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), principal mecanismo federal de financiamento do setor, enquanto editais e contratações sofreram paralisações e atrasos. Esse quadro foi agravado pela pandemia, embora a crise de financiamento e a descontinuidade administrativa já estivessem em curso antes dela. Em contraste, o terceiro governo Lula (2023–2026) promoveu a reconstrução dos instrumentos de financiamento e regulação, com a volta do Ministério da Cultura, a retomada dos editais do FSA, a execução da Lei Paulo Gustavo e a recuperação da cota de tela para filmes brasileiros, prorrogada até 2033. Segundo dados divulgados pelo governo federal, o setor audiovisual recebeu R$ 4,8 bilhões em investimentos do FSA e de mecanismos de incentivo fiscal entre 2023 e 2024, além dos R$ 2,8 bilhões destinados pela Lei Paulo Gustavo; em 2025, a Ancine também registrou redução no tempo médio de contratação de projetos financiados pelo Fundo, de oito meses em 2022 para 4,7 meses. A diferença entre os períodos, portanto, está sobretudo na orientação da política pública: de um governo que contribuiu para a retração e a instabilidade do fomento para outro que restabeleceu investimentos, instrumentos regulatórios e capacidade operacional. Isso não significa, porém, que essa retomada institucional tenha eliminado os problemas estruturais do setor: em 2023, por exemplo, os filmes brasileiros responderam por apenas 3,2% do público das salas comerciais, evidenciando que ampliar a produção e o financiamento não garante, por si só, a distribuição, a circulação e o acesso do público ao cinema nacional.

AUTISMO

Embora os principais marcos legais de proteção às pessoas autistas sejam anteriores aos governos Bolsonaro e Lula — como a Lei Berenice Piana (nº 12.764/2012) e a Lei Brasileira de Inclusão (nº 13.146/2015) —, os dois governos adotaram orientações distintas. Entre 2019 e 2022, Bolsonaro sancionou a Lei nº 13.861/2019, que determinou a inclusão de dados sobre autismo nos censos, e a Lei Romeo Mion (nº 13.977/2020), de autoria da deputada federal Rejane Dias (PT). Entretanto, seu governo foi marcado por controvérsias na política de saúde mental: em 2019, o Ministério da Saúde defendeu ampliar o financiamento de aparelhos de eletroconvulsoterapia, conhecida como eletrochoque, e, em 2021, uma versão preliminar de protocolo sobre comportamento agressivo no TEA mencionou essa técnica entre as possibilidades discutidas para casos graves. Seu governo também editou o Decreto nº 10.502/2020, que instituiu uma política de educação especial criticada pelo risco de enfraquecer a inclusão na rede regular e que foi suspensa pelo Supremo Tribunal Federal. De 2023 até agora, Lula revogou a política de educação especial do governo anterior, ampliou o atendimento prioritário pela Lei nº 14.626/2023, instituiu o SisTEA e estabeleceu uma nova Política Nacional de Educação Especial Inclusiva em 2025. A diferença mais evidente está, portanto, na orientação das políticas de inclusão escolar e na organização dos instrumentos de proteção, embora persistam dificuldades de acesso a diagnóstico, terapias pelo SUS e suporte educacional adequado.

Nessas duas áreas, assim como em tantas outras, ainda há um longo caminho pela frente. Mas, com a noção correta do que já foi trilhado até aqui, talvez fique mais fácil tomar uma decisão minimamente sensata.

Ainda Estou Aqui (Walter Salles, 2024)

Atualmente, Lula, o torneiro mecânico que virou presidente do Brasil, concorre à reeleição. Se eleito, será seu quarto mandato. Há muita informação disponível, mas há também uma quantidade de fake news, invencionices, preconceitos e informações imprecisas sobre seus governos. Do outro lado, o playboy carioca Flávio Bolsonaro, filho do agora presidiário Jair, mesmo não tendo aprovado nenhuma lei como senador da República (seu último cargo na vida pública), agora quer virar presidente do maior país da América do Sul.

Mais do que nunca, é fundamental conhecer bem essas cartografias.

Respondi ao Pietro, meu filho, naquele sábado antes do primeiro turno, com outras palavras (menos aprofundadas, é verdade), propícias ao nosso modo de dialogar. Sim, a gente dialoga muito bem. E é por isso que senti a necessidade de reforçar uma coisa importante, que deixo escrita aqui:

Filho, talvez o problema não esteja em acreditar, mas nas condições em que construímos essa “fé”. Entre a confiança irrestrita e a descrença absoluta, existe um campo de investigação, debate e participação que constitui parte essencial da experiência democrática. Afinal, se não podemos prever integralmente o que acontecerá depois de uma eleição, podemos ao menos nos responsabilizar pelos critérios que orientaram nossas escolhas. 

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FONTES:

https://teses.usp.br/teses/disponiveis/27/27161/tde-12042022-150029/publico/LiaNunesGozziOrtenzicorrigida.pdf

https://www.gov.br/ancine/pt-br/assuntos/noticias/balanco-2025-fomento-com-recordes-historicos-e-boas-praticas-de-governanca

https://www.gov.br/ancine/pt-br/assuntos/noticias/ancine-divulga-informe-sobre-o-mercado-cinematografico

https://www.gov.br/conitec/pt-br/assuntos/noticias/2021/dezembro/nota-de-esclarecimento-sobre-proposta-de-atualizacao-do-pcdt-do-comportamento-agressivo-no-transtorno-do-espectro-do-autismo-tea-em-consulta-publica

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2023/decreto/d11370.htm

https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2023-2026/2025/decreto/d12686.htm

https://www.agencialupa.org/eleicoes/2026/10/23/o-que-lula-e-flavio-bolsonaro-fizeram-no-executivo-e-no-legislativo-desde-2003