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Vol. 03 – Nº 06 – 2022

O “gosto” como construção social

Os conceitos que permeiam o gosto são vários e divergentes em muitas nuances. Mesmo entre indivíduos criados em uma mesma vizinhança, estado ou país, regidos pelo mesmo governo, frequentando as mesmas escolas, espaços de lazer e círculos sociais… ainda assim, pode haver divergências sobre o que é o belo, feio, prazeroso, e no que é mais viável dentre todas as possibilidades que são de convivência e conhecimento individuais de cada um de nós.

Muitas são as vertentes que se debruçam sobre o que poderiam ser os desencadeadores desse desenvolvimento humano, dentro das áreas de evolucionismo, antropologia, etnografia, sociologia e outras que tratam da formação de sociedade e cultura nos modelos que são conhecidos hoje no mundo. Muitos movimentos históricos moldaram e transformaram costumes sociais e hierárquicos que, para parcelas consideráveis e dentro de diferentes culturas, foram – e ainda o são, em algumas instâncias – limitantes no acesso ao conhecimento, lazer e liberdade de escolha. A exemplo disso, temos os regimes escravocratas, onde indivíduos são retirados de sua cultura-mãe, de suas casas, famílias e países de origem, para servir a um outro, um invasor, que goza de outros costumes, em outros contextos e com outros valores – dos quais o indivíduo-escravizado não dispõe ou usufrui. Para isso, houveram reformulações em seus próprios valores, crenças e modo de ver o mundo, que acabaram por se ajustar às novas gerações que surgiram após o processo feito. 

A censura aos costumes considerados hediondos também é algo subjetivo dentro desse tema. Como pode um homem, ocidental ou europeu, criticar o modus operandi de uma cultura japonesa? Esses costumes não fazem parte da formação humana cultural desse indivíduo, por mais que sejam estranhos e confusos e até, por vezes, considerados bárbaros; não cabe a quem não faz parte daquele contexto julgar quais de fato são os valores a serem seguidos. A crítica de costumes deve partir de indivíduos que se consideram oprimidos naquele contexto e, para tal, é preciso que estejam ali inseridos. Como na França, onde o estado não queria que as estudantes muçulmanas utilizassem o véu em sala de aula: por uma parte, houveram movimentações a favor de que elas mantivessem seus costumes de origem, já que são parte de sua constituição cultural; de outra, houve a defesa da laicidade da escola, que deveria ser um lugar neutro de religiosidades e suas manifestações. Aqui, o juízo de valores se divide em duas vertentes igualmente válidas: não há como dizer o que é verdade ou mentira, hediondo ou aceitável, porque são vários os determinantes que caracterizam os pontos de vista da questão. Por mais que existam nuances de perspectiva, a cultura pode ser interpretada como a lente que constitui nossa forma de ver o mundo, através de nossas crenças, valores e percepções. 

Um dos elementos centrais na constituição dessa forma de assimilar o mundo está na linguagem, que molda a forma como exprimimos a maneira com a qual lidamos com o mundo. A partir da aquisição da linguagem, podemos nos expressar e interagir com o universo ao nosso redor, nos moldando e moldando-o de volta.

Antropologia cultural e a educação para o gosto.

A noção do que seria o conceito de cultura surgiu para delimitar a diferenciação entre os povos, quando os conceitos de determinismo geográfico e biológico se tornaram obsoletos. Muitos foram os pontos de vista registrados por estudiosos a respeito de como se dá a nossa absorção do que seriam os parâmetros culturais. 

Já em 1690, John Locke dizia que a mente dos seres humanos nada mais era que uma caixa vazia, dotada de capacidade ilimitada para a absorção de conhecimentos e influências. Mas quem de fato cunhou o termo cultura foi Edward Taylor (Londres, 1832), sintetizando-o como a reunião dos aspectos que abrangem o conhecimento, as crenças, moral, leis, costumes e manifestações artísticas que seriam adquiridas a partir da socialização do indivíduo; socialização esta que estava calcada em adquirir e transmitir tais costumes. 

O belo, o feio e a questão do gosto:

Temos tendência a chamar de bárbaro tudo aquilo que se afasta muito de nossos gostos e concepções. (HUME, 1987)

A discussão acerca da existência ou não-existência de um padrão de gosto – que nos permite atingir questões várias, relacionadas ao belo, ao feio e à estética em si – nos faz perceber o paradoxo que essa questão nos traz a respeito do que são a universalidade e a particularidade não só no âmbito do indivíduo, mas do todo que o cerca.

Quando entendemos o gosto como uma predileção autocrática da subjetividade, estamos direcionando-o para si mesmo e ignorando todo o universo e contexto nos quais ele é formado. Esse julgamento prioriza minhas preferências em relação a mim e ao que significo, e então os preconceitos que partem dessa regra são baseados no parâmetro estabelecido unicamente por mim: aquilo do que não gosto é ruim, e apenas o que gosto é bom, o que nos traz um dogmatismo que passa a me tratar como única e possível referência, passo a ser a medida absoluta de tudo (aquilo de que eu gosto é bom e aquilo de que eu não gosto é ruim), e essa atitude só pode levar à intolerância e ao preconceito.

O interesse da subjetividade – em relação à coisa estética da qual definirá se gosta ou não – precisa estar direcionado não em preferir, mas sim em conhecer o objeto. Assim, o gosto passa a ser a habilidade de julgar sem conceitos pré-estabelecidos. O que permeia o gosto, aqui, é a própria presença da obra de arte que supera as particularidades da subjetividade e converte-a em universal, o que nos torna disponíveis para apreciá-la. Quanto mais o sujeito se torna receptivo, mais aumenta sua compreensão ao universo proporcionado pela obra. O gosto se constitui, enfim, pela comunicação que podemos estabelecer com a obra de arte para além da técnica empregada ao construí-la. A universalidade do julgamento é a aplicação da justiça ao apreciar um objeto estético.

A investigação no que diz respeito aos parâmetros que compõem a obra de arte e a arte em si depara-se, inevitavelmente, com a problemática de sua justificativa. Isso se dá porque o gosto – com o qual a arte se relaciona intrinsecamente – a princípio, não parece atingir a generalidade. 

Ainda que, em muitas culturas e configurações sociais, uma inclinação do gosto pareça mais evoluída ou superior a outras disposições – o que nos faz, por vezes, considerar certas práticas e preferências como bárbaras, a diversidade encontrada nos parâmetros que podem ou não medir o que de fato define o gosto e suas categorizações (bom, ruim, aceitável, hediondo…) é o que dificulta o trato do tema. Ainda que, dentro da configuração social em questão, essa hierarquização do gosto seja de fácil reconhecimento, quando de uma perspectiva mais aproximada e menos universalizada, entende-se que essa relação verticalizada se dissipa.

As discussões a respeito do belo no decorrer da história não permaneceram estáveis, e oscilaram pelas interpretações idealistas (Platão) e empiristas/materialistas (Hume). Para Platão e a filosofia antiga em geral, arte e beleza eram coisas distintas e independentes: arte remete à técnica, produção (na esfera poética de significados) e pertence à dimensão do sensível; o belo era interpretado como a manifestação das ideias em si, o meio para que se alcançasse o mundo das ideias. A beleza existe por si só, representação do que seria o ideal em forma. Quando algo é julgado belo, este está em semelhança com o que, para a alma do interlocutor – que a julga –, seria o modelo de beleza. Quando algo se afasta da beleza em se tratando do julgamento, seria então uma ilusão do corpo, já que aqui a beleza é objetiva.

O belo para a interpretação empirista/materialista já estaria na esfera oposta do pensamento idealista: a beleza não habita os objetos em si, mas é determinada pelo gosto de cada um através de um julgamento subjetivo. De mesmo modo com a arte, que no século XVIII foi ideologicamente vinculada à noção de beleza (no âmbito grego eram tratadas em separado). Ao invés de a relação se dar através da aparência e do sentido, como em Platão, para Hume a arte passa a ser observada como a perfeição da sensibilidade. 

Ainda que, da pluralidade própria do gosto, seja possível universalizar os padrões nesse âmbito – que focaliza não o objeto em si, mas a natureza humana que o julga, esta descoberta, para tanto, se daria através da aquisição de experiência da crítica estética. Deste modo, a designação do refinamento não se daria apenas como aparato essencial do descobrimento do padrão do gosto, mas também como parte integrante de sua própria estrutura.

O século XX e as relações entre arte e sociedade.

Conhecido como o século da expansão acessível da comunicação, que alterou drasticamente as relações entre arte e sociedade, o século XX foi também a época onde se deu a criação da Escola de Frankfurt, onde se reuniram diversos pensadores no viés da psicologia, antropologia, economia e sociologia, que contribuíram com diversas teorias a despeito da crítica da sociedade de massa, que obteve evolução em técnica e tecnologia de forma intrinsecamente relacionada com a lógica capitalista do consumo, já vigente na época.

A emancipação do indivíduo através da racionalidade, em tempos onde o enorme desenvolvimento tecnológico-industrial é um marco de bastante relevância para o modo de vida da população em geral, nos trazem a reflexão de que as consciências individuais estariam submetidas ao sistema econômico e social vigente, à estrutura industrial e à indústria cultural (termo que se refere ao desenvolvimento do entretenimento única e exclusivamente para a alienação e homogeneização das massas, vazios de conteúdo crítico). A produção artística deveria ir contra a massificação do pensamento e servir como base para uma resistência do pensamento crítico, a fim de endossar a emancipação dos indivíduos, assim como no projeto iluminista.

Gosto.

A questão do gosto pode ser discutida como o espectro que dá origem às diferenças, quando se trata de um parâmetro pertencente à configuração social – comum ou não: universal – da condição humana. As noções do que é o belo podem ou não estar atreladas ao ideal de um significado, à produção de sentido.

A noção de beleza está diretamente relacionada à sensibilidade do indivíduo para a contemplação de uma obra. O refinamento do intelecto é imprescindível para que o sujeito possa estabelecer um relacionamento com o belo através de suas emoções visto que, sob sua perspectiva, o sentimento é a única coisa verdadeira. A percepção acerca do que é belo está diretamente relacionada com a educação que o sujeito avaliador da obra recebe. O questionamento que deve surgir é sobre o que de fato é belo, e deve ser respondido através das emoções e da sensibilidade desenvolvidas pelo ser humano. O conceito de beleza é individual, moldado pelas experiências do sujeito de acordo com o contexto no qual está inserido e foi educado, e não através de dogmas ou entidades sobrenaturais que estabeleceram o que é belo e feio. O belo não é feito de conceitos pré-estabelecidos. 

A partir disso, é impossível determinar uma causalidade preservada entre os acontecimentos do conhecimento, já que a ligação necessária que deve residir no intelecto não influencia na existência de uma conjugação de causa e efeito. Desta forma, não existiria uma única afirmação física e metafísica de um saber estático, ou seja, uma compreensão assegurada, necessária e universalizada, mas, sim de probabilidades. Aqui, o conceito de beleza sob a perspectiva da experiência é uma resultante das vivências e da construção dos afetos, definido externamente pelos costumes, metodologias, crenças e descrenças, além da configuração cultural do indivíduo. Assim, não existem parâmetros universais sobre o que de fato é o belo, porque o conceito não é estático: é uma construção empírica que varia de uma constituição social para outra.

Podemos conceber que as mudanças políticas e econômicas que ocorrem dentro das configurações sociais em questão é que moldam a produção cultural e a maneira como a população consome e reage à arte. Nesse âmbito, a produção e veiculação midiática pode servir como objeto de reflexão a respeito do que constitui a sua influência na questão do gosto para os indivíduos do século XXI: o que pensamos, criamos e reproduzimos é fruto de nós, ou nós é que somos fruto da mídia que consumimos a todo momento através das redes sociais, propagandas e os próprios meios tecnológicos? O acesso instantâneo à informação e às várias leituras sobre como se dão as configurações culturais fora de nosso contexto afetam, de certa forma, nossa sensibilidade e percepção de mundo, assim como a aquisição de novas linguagens e símbolos, oriundos de um contato facilitado com outras sociedades o faz. Se trouxermos os questionamentos do século XX para nossa contemporaneidade, é possível conceber uma nova ótica sobre a construção da percepção do universo ao nosso redor, e a difusão de novos meios de produzir e consumir arte e constituir o belo, deixando explícito que as elucidações a respeito do gosto e de suas influências não são, de forma alguma, unilaterais.

Musicista formada pela UFES e uma das idealizadoras do podcast "Terrorias da Conspiração", atua como sound designer, arte educadora e é especializada em Arte e Tecnologia e Produção Musical.

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