
As novas imposições acumuladas sobre nós nos últimos meses talvez tenha nos desacostumado ao tempo da observação, ou nos engessado em aspectos essenciais do olhar. Desde o modo como passamos a observar o mundo, sempre a alguns passos a mais de distância, a maneira como passamos a sentir e perceber o mundo em nossos corpos, de mãos devidamente higienizadas e metade do rosto coberto por máscaras que sufocam nosso fôlego e altera nossos sentidos.
Sob efeito dessa “anestesia” forçada, a impressão a respeito da totalidade da imagem que se forma através dos filmes que compõem a Mostra Améfrica Ladina me parece incerta, ainda estou entorpecido. Apesar da perceptível intenção de aproximar os corpos latino–americanos ao redor de uma ideia concisa de narrativas (ficcionais ou documentais, aqui não faz nenhuma diferença) que corroborem com uma construção imagética que traduza unidade e semelhança, essa ideia ainda não me parece suficiente. Ainda preciso dar um passo adiante, me aproximar mais, observar melhor.
As aproximações estão todas lá e não é difícil reconhecê-las: as favelas dos países vizinhos se parecem com as nossas, seja na geometria desenhada pelas casas ou pelas problemáticas sociais que, lá e cá, ecoam com a mesma intensidade; o racismo e as opressões que permeiam a história e o cotidiano dos brasileiros também tecem suas teias na origem e na vida comum do povo latino como um todo. Olhando de longe, entorpecido, nos percebo tão próximos, tão parecidos, mas isso não é nenhuma novidade.
Mas, se tais semelhanças e aproximações brotam facilmente de nossas lutas e mazelas sociais, o que poderia, então, nascer de nossas diferenças? O que ecoa à partir de nossos abismos? O que pode, por exemplo, o Cinema enquanto veículo de intercâmbio sociocultural diante das lacunas que, inegavelmente, nos separam enquanto povo e identidade? Faz-se necessário, então, um curioso (e quase utópico) movimento contraditório: aproximar-se para perceber o que nos dizem as distâncias.
Na amplitude e vulnerabilidade daquilo que nos separa, um banho dado pela mãe ou pela avó pode adquirir significados distintos, mas igualmente poéticos (o afago, o zelo, o medo da morte) na capacidade de, através do Cinema, trilhar uma possibilidade de resistir, de gritar, de estar no mundo.

De igual modo, o discurso que adota o dialeto academicista pode parecer viciado e clichê, porque aparenta estar distante do resto do mundo, ou porque parece conferir a si mesmo o status de vernáculo, mas é a relevância daquilo que se diz e não a forma como é dito o que realmente catalisa uma palavra, um discurso; desta forma, as reivindicações acadêmicas não contradizem ou anulam os lamúrios cotidianos de quem ainda não teve a chance de descer dos morros para ocupar as cadeiras de uma Universidade Federal – são sussurros que, no fim das contas, se complementam e reverberam para fora da cena, para o interior dos corpos que, aproximando o olhar e os sentidos, se permitem atingir pelo discurso das imagens. Afinal, onde mora a relevância de nossos filmes? Na seleção de renomados festivais de cinema ou na carne trêmula de quem, ao ver na tela um corpo com o qual consiga se identificar, esboça dentro de si o princípio de uma chama?
Os corpos, inclusive, são fator fundamental para compreender essa mostra, pois estão inseridos em tela, filme a filme, como se fossem territórios reconquistados por si mesmos, reavivados em sua significância diante do que os rodeia e os perturba. São corpos a respeito dos quais ainda se discute e ainda se anseia construir um caminho, um lugar possível, mas que não pretendem necessariamente ser assimilados pela norma vigente, porque estão mais interessados em, apesar de tudo e de todos, existir.
Tais corpos, inquietações que vibram na superfície da imagem, ressoam em outras atmosferas, em outros campos, porque se impõem dentro do plano para extrapolar a tela, não só como contraponto narrativo (portanto artístico) e estético (portanto político) à hegemonia branca, europeia, masculina e colonizadora do cinema de todos os tempos, mas principalmente como força mobilizadora de seu próprio discurso, uma força auto suficiente e poderosa dotada de uma originalidade que se reinventa e se redescobre ao passar das décadas. Aqui, o corpo é Alfa e Ômega: é onde tudo começa e onde tudo termina.
E esses corpos – negros, ameríndios, periféricos, dissidentes, femininos – transbordam da imagem, escorrem pelas bordas, porque já não se permitem o papel de espectador, pacífico e subserviente, como quem observa o mundo através de uma janela. Esse lugar nunca lhe foi suficiente. É necessário pular a janela e invadir o quadro, inserir-se na paisagem, ocupar os espaços e gritar em todos os idiomas e linguagens (im)possíveis; é preciso danificar e confundir o que está posto, pressionar os limites, alargar as possibilidades. Enquanto o mundo, abrupta e violentamente, se modifica, essas imagens não apenas resistem: aqui, elas revidam.
________________
*este texto integra a Mostra Améfrica Ladina do Festival de Cine Latino Americano El Caracol, realizado entre 16/novembro a 19/dezembro de 2020.

Pesquisador, roteirista e crítico de cinema. Dirigiu os curtas documentais "Nós" (2016) e "Minhas Mães" (2018). Colaborou como co-curador do Festival de Cinema de Vitória (2016 e 2017) É um dos idealizadores dos podcasts "Reimagem" e "Terrorias da Conspiração" e realizador das webseries "S[C]INÉDOQUE" e a ainda inédita "Cartografias Poéticas para um (Im)Possível Cinema Capixaba" (em produção).