Categorias
Crônicas e Ensaios

Balão

A Viagem do Balão Vermelho, Hou Hsiao Hsien (2007)

Em 2022, pouco depois de a vida urbana voltar ao seu curso, a UFES retomou suas atividades presenciais. Naquele ano, o professor Fábio Camarneiro iniciou um projeto de exibição de filmes com debates dentro de uma determinada temática a cada semestre – ele me confessou, na época, que era só uma desculpa para rever filmes que ele ama em tela grande e conversar sobre cinema. Eu, que sentia falta da mesma coisa naquele momento, tornei um hábito frequentar as sessões do Fábio às quartas-feiras. Quando ele saiu para o pós-doc e as interrompeu, eu estava num momento em que eu não tinha tempo para frequentá-las. Mas no semestre passado, quando ele retomou o projeto no Cine Metropolis, retomei junto o hábito de frequentar as sessões semanalmente.

Em uma delas, uns dois meses atrás, Fábio exibiu Zero de Conduta, de Jean Vigo, e O Balão Vermelho, de Albert Lamorisse. Ele me advertiu: “Semana que vem você TEM que vir. Você conhece mais de cinema taiwanês que eu, e vou exibir A Viagem do Balão Vermelho, do Hou Hsiao Hsien”. Eu ri, e achei legal que ele se lembrou do meu hiperfoco de anos atrás no cinema taiwanês. “Esse aí eu não vi. Aliás, do Hou, só vi Millenium Mambo, A Assassina e Tempo de Viver, Tempo de Morrer”. Achei que seria legal, afinal, é um filme do Hou Hsiao Hsien com a Juliette Binoche, mas eu não esperava, nem de longe, que esse filme alugaria um triplex na minha cabeça.

Desde essa sessão, penso pelo menos uma vez por semana nesse filme. Eu amo cinema urbano. Eu amo como ele filma Paris, de um jeito que nunca vi nenhum outro cineasta filmar. Mas acho que o que mais me conectou emocionalmente com o filme foi algo que definitivamente não era a intenção do cineasta. A Viagem do Balão Vermelho é uma cápsula do tempo. É um filme feito no fim de uma era, que captura um momento em que a vida acontecia no offline. É um momento em que a tecnologia digital existia, mas não vivíamos hiperconectados. A personagem da Song Fang passeia pela cidade com o garoto, filmando lugares e pessoas com uma câmera mini dv. E não existe a paranoia social de estar sendo observado e observar o tempo todo que foi gerada com os smartphones e as redes sociais.

Os personagens passam por situações complexas e dramas humanos que, mesmo quando são atravessados pela tecnologia – como na cena da confusão em que o garoto tá jogando Playstation 2 -, não os impedem de estar o tempo todo ali presentes. Eles não são sugados pela tecnologia. A tecnologia não é uma extensão da vida, muito menos da mente. A tecnologia digital existe, mas ela ainda é plenamente analógica. 

E indo além, o cinema da virada do século e do início do século XXI me pega muito no aspecto da fisicalidade estética. A película vibra de uma maneira que nunca vibrou. O concreto é úmido, as luzes fluorescentes e os letreiros gritam na nossa cara. As pessoas estão tão espremidas nos seus cotidianos que a vida sangra pela cidade. Foi a época em que eu cresci e formei minhas memórias. Assistir aos filmes dessa época me remete invariavelmente à minha própria infância, às fotos analógicas da minha vida. De um tempo que não volta mais. De um ápice criativo do fim da vida analógica antes da hiperconectividade que se foi com a migração total para o mundo digital. Foi o fim do logoff. O fim do silêncio. O fim do tempo de processamento. O último respiro da infância material. Mesmo tendo crescido com acesso quase irrestrito à internet, eu tinha tempo de brincar, de subir em árvore, de ler, de desenhar, de jogar um videogame que tinha começo, meio e fim. De ouvir um cd e o cd acabar. De conversar. De não resumir a vida num photo dump, de não mostrar pra todo mundo como tá sendo o meu dia nos stories. De ter um tempo de tela decente.