
Sento-me diante de uma página em branco.
Imagino um criador-criatura observando o vazio:
quero ser esse vazio, estar nele, habitá-lo…
Desejo escrever a respeito de um filme, mas não posso
porque ele me escapa…
Começo um poema que não saberei terminar.
Não compreendo minhas próprias palavras
elas me afogam.
Penso no tempo e na vida e na morte e nas coisas inevitáveis:
crescer, sonhar, amar, enlouquecer, perder, temer.

Entre viver e morrer,
há apenas um instante,
um segundo que perdura…
Quantas eternidades cabem em mim?
Tento.
Escrevo algumas palavras, mas as rejeito.
O poema, como uma criança sem cuidado, está morto.

Acendo um cigarro e me afeto por seu gosto de canela.
Três instantes eternos:
puxar, tragar e soltar
(viver, tragar o mundo e morrer)
Observo a fumaça: estou nela,
Deus está nela,
a vida e a morte estão nela.
Um filme inteiro se esvaindo depressa.
Dentro da fumaça, crianças crescem em uma cena torta
(desenquadramento)

Não percebi de onde vinha o vento que carregava a fumaça,
o mesmo vento que movimenta as ondas
do mar, da câmera, da encenação, da passagem dos anos.
A vida é um filme que se esvai em duas horas,
e cada hora corresponde a uma morte inteira,
e cada hora corresponde a uma noite inteira,
Deus, do alto de sua montanha,
filma os homens

escreve o Certo e Errado
em linhas tortas torpes tolas
porque o Homem é um tolo.
Uma criança com feições adultas interrompe o vento.
Não há futuro, porque tudo passou.
Tudo passou.
É o fim:
o recomeço de tudo.

Pesquisador, roteirista e crítico de cinema. Dirigiu os curtas documentais "Nós" (2016) e "Minhas Mães" (2018). Colaborou como co-curador do Festival de Cinema de Vitória (2016 e 2017) É um dos idealizadores dos podcasts "Reimagem" e "Terrorias da Conspiração" e realizador das webseries "S[C]INÉDOQUE" e a ainda inédita "Cartografias Poéticas para um (Im)Possível Cinema Capixaba" (em produção).