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Vol. 02 - Nº 03 - 2021

Retrato do Cinema Quando Jovem

Ainda é dia em um quarto branco com cortinas florais quando uma jovem estudante entrega um livro a um homem de terno e gravata borboleta vermelha. Ele folheia o livro e a pergunta “O que mais lhe interessa na história?” Ela, olhando debaixo para cima, cerra os olhos e responde “As sacanagens”.

Assistir Histórias que nosso cinema (não) contava (2017), da cineasta e videoartista Fernanda Pessoa, seria como olhar para um momento já conhecido da história do Brasil, só que agora com uma nova lente. Nos anos mais duros da ditadura, que já lemos nos livros didáticos, e assistimos em Zuzu Angel (2006), O que é isso companheiro? (1997) e O ano em que meus pais saíram de férias (2006), o cinema estava numa produção intensa de histórias sobre sexo, dinheiro, carnaval. A radiografia que Pessoa faz é sobre esse cinema que, para além do que ele abordava, falava também de corrupção, violência e classe trabalhadora.

As comédias eróticas de baixo orçamento da década de 1970, as pornochanchadas, em geral não eram muito bem vistas pela crítica, mas se tornaram fenômenos populares de sucesso comercial. O exercício aqui seria mostrar como esse cinema, muitas vezes, era vitrine dos conflitos sociais da época, abraçando a diversão e o cinismo de um cinema voluptuoso.

“Estamos mergulhados até os olhos em sangue. Ou você aprende a nadar no sangue, ou você se afoga”

Situando-se entre o documentário e o filme-ensaio, Histórias que o cinema (não) contava (2017) remonta cenas de filmes como Noite em Chamas (1977), Café na Cama (1973) e Palácio de Vênus (1980), que usam figuras de linguagem para tocar em pontos importantes da época, em que os sensores de censura eram estúpidos demais para identificar a ironia, a crítica, e o cinismo que ria da cara do poder. Eram filmes de diretores como Francisco Cavalcanti, Braz Chediak e Antônio Calmon que pareciam só querer fazer rir e excitar, mas que a seu modo projetavam um retrato do Brasil e de um cinema brasileiro.

Através das colagens da montagem, os filmes-personagens não deixam de se associar a um desejo pela anistia, a um tesão pela democracia em cenas de sexo, bailes de carnaval e rebeliões de garotas de programa, por exemplo. O filme é divido entre temas como política, sexo, trabalho, costurando cenas das pornochanchadas, com algumas histórias fixas, em que vamos acompanhando seu desenrolar.

Aos poucos assistimos uma outra história pelas mesmas imagens, não necessariamente mais consciente de sua presença física. A história que emana aqui é consciente para além da presença física dessas imagens, recuperando o valor estético do cinema popular brasileiro e recriando a experiência com esses filmes, de uma maneira que as cenas vão se tornando simulacros.

“Sua filha da puta, eu te amo”

Em um filme consciente sobre a história do cinema, no lugar da claquete como ponto marcador e material metalinguístico, temos a montagem no rearranjo narrativo, histórico e também conceitual de um período do cinema brasileiro.

As pornochanchadas não são mais vistas como um cinema meramente comercial, efêmero e apelativo. O olhar de Pessoa não ignora a certa dose de machismo que circula essas narrativas, mas extrai de suas pesquisas e manipulação sacanas um cinema que, do avesso do comercial, não é obediente, debocha do conservadorismo e que pinta um Brasil só para maiores.

O remix das chanchadas do nosso cinema, lançado em 2017, acaba revelando uma alternativa criativa para o momento pandêmico atual, em que aglomerar para fazer filmes se tornou perigoso. Começando e terminando em texto na tela, o manifesto defende o cinema e as pessoas marginalizadas, reinterpretando temáticas injustiçadas pelo moralismo tradicional.

Resgatar cenas de um momento cultural do nosso país se tornou a busca de um diálogo atual com o cinema brasileiro. O que a todo momento pulsa em Histórias que nosso cinema (não) contava é a vontade de recolocar as pornochanchadas na história do cinema brasileiro e o incentivo por conversas férteis sobre esse cinema que um dia quis encontrar o Brasil das massas.

Por Leonardo Ribeiro

Mestre em Artes e bacharel em Comunicação Social pela Ufes. Mantém o podcast "Olhos Fechados".

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