
Chorei duas vezes vendo Marte Um. A primeira quando Eunice, filha mais velha de Wellington e Tércia, se despede do pai, que não está aceitando muito bem sua partida de casa. Essa cena me fez mergulhar em minhas próprias memórias, também do exato momento em que tive que me despedir da minha família antes de sair do interior para migrar para a capital. Família pobre, igual a de Marte Um. É a máxima que todos já sabemos: o cinema, a arte, é um espelho da vida. E dentro disso, o filme nada de braçada.
A história gira em torno de uma família que vive na periferia de Contagem (MG), todos buscando algo que parece inalcançável, desejos representados pelo sonho do filho mais novo, o Deivim, que quer ser astrofísico e participar da missão Marte Um, que vai levar humanos para colonizar Marte.
Por que todos esses sonhos parecem tão inalcançáveis? Não é a falta do querer de cada um. Durante suas jornadas, nós vemos os grandes esforços, os choros, as tentativas e as frustrações. Essas pessoas vivem na adversidade em 100% do tempo e precisam estar atentas a todo momento. O único que se permite divagar um pouco é Deivim. Lógico, ainda é uma criança. E até isso parecem lhe querer tirar. Logo o próprio pai, que na sua busca de deixar a família em uma situação financeira confortável, enxerga no menino um futuro jogador de futebol, dos grandes, ao ponto de pressioná-lo a sair de um caminho que até ele desconhece.
São sonhos inalcançável pois são pobres. Isso é a sobrevivência. No meio da correria e da busca por dinheiro, podemos esquecer de olhar mais atentamente para os sentimentos e para os desejos.

A segunda vez que chorei vendo Marte Um é quando o pai ouve um sonho impossível de se realizar do filho. Ele olha para o céu, pensa um pouco e diz “Ah, isso aí a gente dá um jeito”. Mesmo dentro de nossos métodos de sobrevivência do cotidiano, no fim a gente nunca esquece completamente do outro que está ao lado. Quantas vezes eu já não ouvi isso de minha mãe, de meu pai, dos meus avós. “A gente dá um jeito”. E a gente dá mesmo. O que não significa conseguir, mas entender que nosso maior trunfo é não deixar a quem se ama na mão. Uma hora a gente percebe isso, assim como Wellington percebeu.
Marte Um é a representação da nossa verdadeira essência. Da minha e da de muitos brasileiros. É sobre tentar e não conseguir. Sobre não conseguir, mas entender. Sobre entender e seguir em frente. E sobre seguir em frente com o mesmo sonho de antes.

PH Martins é originário do interior do Espírito Santo, estudante de Cinema e Audiovisual da Ufes. É diretor, roteirista e produtor, seu último curta metragem, o documentário "Os Que Esperam", foi exibido no 26º Festival de Cinema de Vitória, em 2019.